segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sobre ser mestra de mim mesma

Faz muitos anos desde que comecei a me perguntar qual era o sentido de tudo isso; quem eu era; o que eu estava fazendo aqui e por que me sentia do jeito que me sentia. A grande resposta para tudo isso é que eu precisava me conhecer, preciso ainda, e devo continuar precisando até o último dia. A diferença, agora, é que sei como fazer isso.

Pulando dentro de mim mesma, bem no fundo, tão fundo que ainda não faço ideia de quão longe posso ir. Sabe, grandes dimensões, enormes espaços, largos caminhos, tudo dentro de você mesmo. Mais ainda: dentro de toda a nossa limitação física, todo um universo infinito e coberto por uma mantinha de plush, quentinha, em que a gente se agarra quando sente medo, que a gente usa pra cobrir os olhos quando não quer ver alguma coisa nossa, guardada no armário escuro em que guardamos tudo o que não conhecemos; e a gente não conhece é a gente mesmo.

É a gente que fica guardado nesse lugar. A gente se guarda da gente.

A gente não quer se ver de verdade. A gente se esconde pela necessidade criada de atender às expectativas que o mundo coloca sobre os nossos ombros, que vão afundando as nossas verdadeiras habilidades, o nosso verdadeiro ser.

Tô só começando, mas não estou com medo. Serei mestra de mim mesma, mas também o serei academicamente, porque contrariando toda a minha falta de confiança, passei no mestrado.

Se eu achava antes que o mestrado era só para alguns poucos iluminados, então, estou eu, também, no caminho de Buda.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sobre andar de bicicleta

Estou indo para o trabalho de bicicleta, porque agora moro perto da universidade; menos de 1km. Vou porque, em mais ou menos metade do caminho, tem ciclovia e, na outra metade, eu ando pela calçada e atravesso poucas e curtas ruas. Vejam: não sou uma pessoa super confiante na bike. Eu não ando de bicicleta como se ela fosse um meio de transporte que pudesse me levar a qualquer lugar, não. Eu ando nela como um meio de transporte para o meu trabalho e distâncias similares, desde que não precise atravessar rodovias, subir elevados, andar por onde não haja calçadas... coisa simples e tudo isso por alguns motivos básicos: andar de bicicleta cansa, me faz suar, não tenho a melhor coordenação motora do mundo, nem o melhor preparo físico; além disso, tenho medo de ser atropelada; minha bicicleta não tem o freio direito e o esquerdo é ruim; os pneus estão carecas e não tenho um retrovisor... todos esses fatores me levam a andar bem na manha, mas eu juro que estou me planejando pra levar a bike pro conserto; só que como ele fica a uma distância superior a qual me sinto capaz de ir e passa por obstáculos que eu não me sinto segura para transpor, ainda não a levei, pois o farei de carro: vamos eu e ela no carro, em algum dia da semana que vem.

Agora, um pequeno balanço dessa nova rotina: antes, eu demorava uns 25 minutos pra chegar no trabalho porque tenho andado muito lenta ultimamente, e já chegava lá vermelha feito um camarão e fedida, suada, cansada, uó!

No primeiro dia de bicicleta, quando éramos ainda menos íntimas, eu subi nela e desembestei pedalando com os caralhos sei lá por quê; cheguei no trabalho em cinco minutos. C-I-N-C-O minutos! Foi muito rápido! Vento no rosto, fresquinho gostoso, mas as pernas já quase desistindo de pedalar, porque uma falta de preparo é uma falta de preparo! Deu uma canseira nas coxas e senti como se tivesse feito uma sessão de agachamento com a Gracyanne Barbosa, mas okay, foi gostoso, quase não molhei os sovacos de suor, então tava tudo certo. Fiquei bem felizinha!

No segundo ou terceiro dia, não lembro bem, voltando pra casa, tive que parar pra atravessar uma ruazinha dessas que eu disse antes que atravessava, mas então eu vi o carro, fui freando muitos metros antes porque a minha amiga não para em cima das coisas, ela vai parando, mas não para efetivamente, sabe?! Daí, além do carro, havia um pessoa pelo caminho e eu me embananei toda e, pra parar e desviar, acabei me segurando em um totem de metal que arrancou uma lasca do meu dedo, que começou a sangrar na hora. Nossa, doeu demais! Puta merda! Cheguei em casa com o dedo latejando e um pouquinho traumatizada. Não tava felizinha.

Com o passar dos dias, eu fui ganhando um pouco de confiança pra subir a rampinha que dá acesso ao prédio em que eu trabalho. Não é uma rampa reta, você precisa fazer uma curva bem fechada com a bicicleta pra subi-la. Na primeira vez, quando chegou na curva, eu desci da bike. Na segunda vez, eu dei uma virada no guidão e ela pareceu o suficiente para conseguir fazer a curva! U-huuu! Me achei a super profissional - a mesma que por anos só conseguia andar em linha reta. Na terceira vez, u-a-u, parecia que eu estava me aperfeiçoando no negócio! Impressionante! Parabéns, Karla!

Daí, na quarta, me fodi. Virei o guidão, só que de mais, a bicicleta caiu e eu caí por cima dela. Ralei o joelho, meti o guidão na coxa, que ficou instantaneamente roxa, bati o outro joelho, que ficou preto no outro dia, e mais uma vez, fiquei triste, tristinha, xinguei um monte e um carinha tirou a bicicleta do meio do caminho enquanto eu praguejava a bicicleta e a mim mesma. Essa foi a queda mais dolorida até agora - espero que não haja outras.

Agora a parte mais nojenta e asquerosa. Só de lembrar já começo a tremer toda, uix! Quando eu chego no estacionamento do prédio aqui da universidade, passo por um caminho com seixos e uns matinhos e talz. Venho eu, toda de boa, de sandália por causa do calor, pedalando lá lá lá, quando sinto uma coisa gelada no meu pé esquerdo. No primeiro momento, imaginei que fosse algum mato molhado que tivesse grudado no meu pé e, então, eu olho pro meu pé e realmente parecia, um mato comprido, seco, marrom escuro, grudado nele, mas eu não vi perfeitamente porque não tenho a habilidade de conseguir andar em linha reta olhando pra baixo, daí olhei de novo e vi que tava se mexendo ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, coisa mais nojenta!!!! Parei a bicicleta na hora e vi que era um verme, com uns 15 cm, brilhante, tipo uma sanguessuga magra e comprida grudada e se mexendo na porra do meu pééééé! Ah, caralho! Que nojo! Me tremia toda, gritava histericamente até que tirei aquele bicho de mim com o controle do portão, que eu segurava na hora. Foi  H-O-R-R-Í-V-E-L!!! Pior história de bicicleta ever!

Mas então, sobre andar de bicicleta, tenho a dizer que este último mês, no qual vivi todas essas experiências felizinhas e essa última traumática - fora cair em cima da bicicleta na garagem algumas vezes -, me fazem perceber que eu realmente odeio com todas as minhas forças ficar suada quando esse não é o objetivo da atividade, mas que a bike quase não me faz suar, além de servir como uma capa mágica que me impulsiona pra frente com velocidade fazendo o ar correr tão rápido quanto eu, me refrescando, me cansando, mas também me deixando feliz, melhorando a minha coordenação, meus reflexos, minha visão de rabo-de-olho e o aumentando o bronze nos meus braços.

Andar de bicicleta tem sido uma ótima experiência e me faz lembrar de quando eu era pequena e nem conseguia ficar em cima de uma sem cair. Não tinha qualquer equilíbrio... ainda bem que o tempo passa e junto com as quedas e os roxões vem a habilidade de conseguir se manter em cima, apesar das ruas para atravessar, apesar dos vermes que grudam nos nossos pés, ai ai.




quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

tem alguém aí?
me perdi fazendo umas coisas por aqui; reformando, estressando, gastando e me enchendo de pó.
novo ciclo começou e acho que só agora começo a perceber que posso aproveitá-lo, que posso gozá-lo sem ficar o tempo todo reclamando. pesando a vida. nossa casa nova é linda; não está ainda como espero e descobri, definitivamente, que tenho problemas com imediatismo, que sou uma frustrada. ai, que dor saber; ai, que dor admitir. me vi por dentro e vi tantas coisinhas pequenas e absurdas que me envergonhei da postura que tenho adotado, mas como boa caga-tudo que sou não mudei ao perceber os erros, fiquei com muita raiva de mim e despejei sobre os outros, errando de novo, fechando o ciclo do erro bem redondinho. uix!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Sobre viver pelas beiradas

Eu nunca pensei em suicídio; não a sério. Bom, talvez tenha pensado quando era adolescente, naquela ânsia de querer tudo; mas depois de adulta, não. É até engraçado, porque já me imaginei morrendo de diversas maneiras, mas nenhuma delas era por minha própria obra. E no que mais penso em todas essas situações de visualizar a morte é o momento exato da passagem: o fechar os olhos pra existência; isso me assusta muito!

O gosto que tenho pelos temas suicídio/morte é em virtude de tentar entendê-los; tentar compreender o que leva alguém a isso, mas nunca seria capaz de descobrir completamente e, na verdade, nem interessa. O que interessa a mim é que tenho muito, muitíssimo medo da morte e, eis a razão: não acredito em deus. Não acredito em céu, inferno, paraíso, purgatório, reencarnação e nem nada. Daí que, não acreditando em nada disso, acredito muito é que esta é a única vida que tenho, a única oportunidade que possuo de viver e de fazer qualquer coisa que eu queira e que eu não queira também. Gostaria de acreditar que quando morremos, a nossa consciência permanece, vai pra algum lugar, um outro plano, queria que eu fosse pra sempre, mas o máximo que consigo é pensar que vou me decompor e voltarei a fazer parte de um todo maior, vou estar espalhada pelo universo, e enquanto alguém lembrar de mim, estarei viva.

Sempre que eu estava mal, sempre que rolava alguma merda na minha vida, eu ficava tristíssima, mas não pensava que a solução fosse a morte. Eu sempre queria dormir (porque dormir sempre foi, e ainda é, a minha fuga) e acordar sem os meus problemas. Queria dormir e acordar me sentindo melhor, feliz, disposta, de boa. Eu queria dormir, só isso. Nunca quis morrer; eu queria ficar bem; só queria ser capaz de aproveitar a minha vida da melhor forma que eu acho possível. E olha, nem é algo de outro mundo, o que não quer dizer que seja fácil, mas são coisas que dependem exclusivamente de mim. Sabe aquela coisa de tarefa diária? A vida é uma porra de uma tarefa diária. Ela é safada!

Na minha vida perfeita, eu teria total controle das minhas emoções, seria equilibrada, serena, leria muitos livrinhos, faria meditação, estaria bem com todas as pessoas que me rodeiam e viajaria de vez em quando. É singelinho, né? Na minha vida perfeita, eu me conheceria profundamente e não deixaria que nada, nem ninguém - inclusive eu mesma -, me tirasse a sensatez.

Tem coisas que são muitos fáceis pra mim e muito difíceis pra você, e vice-versa. Okay. Sendo assim, a gente tem que SEMPRE estar exercitando as nossas debilidades, as nossas falhas. Em algum momento, se a gente tiver bastante paciência, a coisa depois de tanto pegar no tranco, pode virar automática, sabe? Eu não cheguei ainda nesse patamar...

Ninguém é totalmente fodido cem por cento do tempo. Eu gosto muito dos preceitos budistas. Acho que eles trazem a gente pro aqui e agora. Dão uma chacoalhada na gente. Não sou seguidora, mas deveria, de fato, levar à risca algumas coisas e uma delas, talvez a mais importante pra mim nesses tempos, seja a consciência da impermanência. A gente não dura pra sempre; nada dura pra sempre, e isso quer dizer que nem a nossa dor e o nosso sofrimento são eternos.

Viver é muito punk, mas também é muito bom, porque depois que uma dor qualquer passa ou diminui, na maioria das vezes é que a gente percebe que não deveria ter se afetado tanto com aquilo. É claro que há dores e dores, mas eu acredito muito que as coisas passam, mesmo que nos momentos de desespero a gente tenha a impressão de que aquilo vai ser pra sempre, não vai; nada é. Quando a gente termina com um namorado filho-da-puta, por exemplo? Na hora é aquele sofrimento, a dor, o fundo poço; depois que passa um tempo, a gente vê que rolou mesmo foi uma limpa na nossa vida! Claro que quando a gente perde alguém muito querido, a dor nunca vai embora, mas quem sabe não é o caso de mudar a perspectiva um pouco, e pensar que foi um privilégio poder conviver com aquela pessoa por x tempo? Claro, isso depois de curtir bem o luto, o que é muito importante. Botar pra fora mesmo, chorar, se descabelar, ficar com raiva, com culpa, com tudo o que tem direito, porque a morte é uma coisa doida que deixa a gente sem saber como agir mesmo.

Estou escrevendo isso aqui porque escrever o texto sobre o meu pai e sobre a minha própria depressão, fez com que eu recebesse diversas mensagens e eu vi, na verdade só comprovei o que eu já sabia, que é: todo mundo sofre, por mais que pareça que vivamos felizes o tempo todo no Facebook, todos nós sofremos perdas, temos ataques, nos frustramos, nos medicamos, nos sentimos sozinhos; todos temos problemas. Eu não julgo o meu pai pela escolha que ele fez, mas se eu soubesse, na época, da situação dele, eu teria feito todo o possível pra que ele pudesse enxergar que a vida vale a pena. Sinto muita falta dele aqui, hoje. Gostaria muito de tê-lo conhecido melhor, de poder ter dito a ele que eu o amava e que eu entendia a sua doença; mas eu nunca pude.

Esse buraco que a morte dele deixou em mim, é um buraco que eu não gostaria de deixar na vida da minha filha, porque eu sei o quanto de dúvidas e inseguranças isso poderia trazer a ela. Eu sei o quanto a morte por si só nos abala, mais ainda quando se trata de um suicídio. Pensando nela, eu procuro pensar mais em mim, e me tratar melhor, me cuidar, porque a única coisa que posso deixar a ela, além da educação e dos valores blá blá blá é que ela tenha em mente que viver é uma luta, que nem sempre a gente está bem, que a felicidade são realmente alguns momentos no meio de tantos outros, mas que nem por isso a gente deve desistir.

A questão é: se você tem um diagnóstico, busque ajuda médica, faça terapia, tome seus remédios, não desista do tratamento. Procure sempre alguém pra conversar, isso pode fazer uma diferença enorme. Se você tem um crença que te traz conforto e paz, agarre-se nela. Reze, medite, faça a sua parte. Quando a gente tá na merda, a cabeça fica confusa, cheia de cocô. Às vezes, a gente só precisa ser ouvido e ter a sensação de que a gente importa, de que a gente faz alguma diferença, e a gente faz.
Eu sempre digo que sou habitada por vários eus, recomendo a leitura de um texto que escrevi chamado Legião. Nele, dou voz a dois desses eus: o Torpe e o Razoável. O Torpe é aquele espírito-de-porco que não quer nada com nada; funciona na lei do menor esforço e tá sempre pronto pra me levar pro buraco. O Razoável é como o nome já diz; ele tenta me mostrar o lado certo e bom das coisas; me coloca pra cima e diz que eu sou capaz.

Nos momentos ruins, o Torpe tá sempre lá me avacalhando e berrando muito mais alto do que qualquer outra parte de mim. Minhas outras criaturas ficam quietinhas, de cabeça baixa, concordando com o que o escrotão diz. Quem fica mal com isso? Eu, Karla. Mas percebo também que quando meus lados mais racionais conseguem se impor, me sinto melhor, capaz, viva! É como se o Torpe tivesse saído pra comprar cigarros e não fosse voltar mais. É ótimo! Mas, é algo que eu preciso trabalhar todos os dias. Preciso continuamente regar a minha vontade, a minha força, a minha potência de existir.

No fim das contas, acho que dá certo. Compensa a gente sofrer, porque quando a gente é capaz de olhar o sofrimento de fora, a gente percebe que está vivendo de verdade, que está dando a cara a tapa; que está lutando pra viver. Não quero viver pelas beiradas da vida, quero me enfiar nela com tudo o que tenho direito. Quero ter a certeza de que quando a minha hora chegar, eu terei feito tudo o que pude pra fazê-la valer a pena.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Sobre ter depressão II

Eu já havia ido a alguns psiquiatras, uns três ou quatro, e todos eles me receitavam alguma medicação; eu comprava os remédios e não tomava por mais do que quinze dias. Na verdade, não queria tomar remédios, achava que um remédio só iria mascarar meus sintomas, não queria ficar dependente de nada. Ainda acreditava que eu poderia sair disso sozinha.

Então procurei muitas coisas: terapia, análise, apometria quântica, florais, hipnose, ayahuasca, fumei sálvia, comi cogumelos, tudo procurando tentar me entender, tentar chegar lá no fundo e descobrir a razão de eu ser assim; achava que se eu descobrisse, que se conseguisse chegar na raiz de tudo, que talvez eu superasse e conseguisse ficar bem.

Acontece, meus amigos, que tudo isso só serviu pra me mostrar que às vezes a gente não tem como fugir do que está entranhado na gente, não tem como fugir do que nos compõe. Eu tenho genes "tristes", "defeituosos". Meu pai tinha transtorno de humor bipolar e minha mãe também tem transtornos de humor. Se juntarmos os dois e somarmos com todo o resto e como tudo me afetou, na minha infância, na minha adolescência, na minha vida adulta, só podia dar merda.

Diante de tanto levar a vida com a barriga e de sentir que me distanciava muito do que eu gostaria de ser, percebi finalmente que precisaria de uma ajuda orgânica, que me fizesse sentir melhor, que fosse capaz de fazer o meu cérebro produzir substâncias que eu não consigo fazê-lo produzir só pela minha vontade. Porque por mais que meu desejo consciente seja o de estar bem, na prática, eu não conseguia produzir nenhuma movimento que me levasse a isso. Tudo é muito custoso, cansativo, irritante. A cabeça fala: vai! - só que o corpo fala: não, fica aqui, vamos dormir, vamos comer, tá ficando tudo cagado, mas não vamos pensar nisso...

Daí, depois de tanta negação, de tanta hesitação, de tanta prostração, decidi procurar novamente por um psiquiatra. Faz um mês que estou tomando uma medicação e acho que ela já começou a produzir algum efeito. Ela tem me acalmado e minha postura está lentamente mudando. Começo a produzir o movimento, começo a sentir que estou saindo do buraco em que estava, em que ainda estou. Não é uma beleza e nem é instantâneo; ainda tenho uns dias punks, em que me arrasto pela casa e fico deitada, sem grandes vontades, mas voltei a ouvir músicas e a cantar; não é muito, mas estou aqui também, escrevendo, me expondo, porque hoje, mais do que nunca, acho que é importante pra mim assumir que tenho uma condição que não me incapacita, mas que debilita a minha vida e não quero viver assim pra sempre.

As pessoas têm problemas em falar a respeito da depressão, têm problemas em falar que sofrem, que não são felizes o tempo todo, que não têm um prazer enorme em viver. Elas têm problemas em falar sobre qualquer coisa que envolva o seu mental, porque ter uma doença mental leva o senso comum logo pra loucura. Não se trata de loucura, trata-se de sofrimento psíquico, dor que não é aparente, mas que machuca, cutuca a gente diariamente e nem com a melhor das boas vontades, nem com o melhor dos conselhos, não se cura.

Busquei ajuda porque não quero ficar na sombra, me consumindo, me diminuindo, achando que o problema sou eu como um todo. Não, o problema está em uma deficiência do meu cérebro, mas não sou eu. Eu, quando pequena, sempre achei que teria uma "missão" especial, achava que estava aqui pra fazer a diferença, pra tocar as pessoas, mas depois que cresci, depois de como passei a me sentir, não conseguia mais alcançar aquela menina, nem fazer nada de especial.

Agora, quero muito reencontrá-la e dizer a ela que sim, podemos fazer o que quisermos.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Sobre ter depressão

Já falei aqui sobre depressão e dessa vez, dessa vez é muito sério o que vou escrever. Não é nada fácil você admitir que tem uma transtorno de humor. Não é nada fácil você admitir que tem um problema e que não consegue, sozinho, resolvê-lo. Só que para além disso, você tem que perceber que a depressão nem sempre se mostra do jeito que a gente pensava... Como tristeza profunda. Ela pode aparecer como uma irritação sem razão, como explosões de raiva, como uma vontade de comer demais, como uma vontade de dormir demais, como uma vontade de fazer de menos... Como a vida passando e você deixando ela ir de qualquer jeito.

Quando olho pra trás, não consigo identificar exatamente quando foi que ela surgiu, o dia exato em que eu deixei de ser quem eu pensava que era. A vida da gente vai trabalhando, as coisas vão acontecendo e você acha que lida direito, que resolve as coisas, mas lá dentro, a forma como os fatos são processados na gente, a gente só vai perceber depois.

Cheguei em um ponto em que achava que eu era assim: meio rabugenta, taciturna, irônica e pavio curto. Escrachada, grosseira, preguiçosa e sem determinação pra nada; vadia, como a minha mãe costumava me chamar. Durante muito tempo a vida não foi fácil pra mim. Tive que lidar com muitas coisas e é claro que todo mundo tem problemas, sofre e tudo mais, mas só posso falar de mim, do que eu vivi e de como as minhas vivências criaram feridas mal curadas em mim. Os meus textos sempre falaram sobre mim e sobre a minha perspectiva, porque é o que tenho.

Só queria ser feliz; por que era tão difícil ficar numa boa (?), mesmo depois, quando tudo parecia mais encaminhado, quando a vida adulta "dentro da caixinha" da normalidade estava okay: casa, filha, marido e emprego. Mesmo com tudo "perfeito" ainda persistia a falta de tesão. Fazia as coisas no automático. Tá tudo bem, nada errado, mas aí, briga com marido por besteira, briga com a filha por besteira, vai pro trabalho, faz as coisas, não faz as coisas. Paga conta, dorme, come, come, come, dorme, se sente horrorosa, gorda, feia, burra, incapaz, briga com o marido, dorme, dorme, dorme, trabalha, briga com a filha, briga com a mãe, faz terapia, se sente triste, se arrasta pela casa, faz barraco na fila do banco, compra o que não precisa, dorme, dorme, dorme, fuma demais, briga por qualquer coisa, se estressa por qualquer coisa, aumenta o tom por qualquer coisa. Todo mundo contra mim, aí me fecho numa conchinha e o looping vai longe. Vida de merda, eu pensava.

Pensava: você tem que se esforçar mais, tem que fazer direito, tem que ter controle, tem que ficar acordada, tem que fazer dieta, tem que se exercitar, tem que estudar, tem que sair com os amigos, tem que alimentar os gatos, tem que limpar a casa, tem que, tem que, tem que, daí eu dormia... Vou dormir só um pouquinho, quando acordar, eu faço o que tenho que fazer. Toca o alarme depois de meia hora: só mais um pouco. Dez minutos depois: só mais um pouco. Dez minutos depois: só mais um pouco. Quatro horas depois eu acordava, com humor do cão, me sentindo uma filha da puta porque dormi demais e ainda estava cansada, e ainda não tinha vontade de qualquer coisa.

Vou comer. Salada? Uma refeição equilibrada? Porra nenhuma! Vamos meter pra dentro um calzone, um pastel e, pra fechar, uma fatia de bolo! Faz isso todo dia o dia todo. No trabalho, umas tranqueiras gordas e mais um chocolate quente, porque tá frio. O corpo já está aquela massa amorfa, gelatinosa. Se olha no espelho e só sente pena de si e fome, mais fome; por favor, desça toda a comida gordurosa do mundo que eu tenho um buraco aqui que não se fecha nem com concreto armado!

Aquela ansiedade pelas contas, pelo mestrado que não fiz, pelas coisas que eu disse e pelas coisas que deveria ter dito; pela louça na pia, pelo chão sujo, pelas roupas pra lavar, pelo excesso de cigarros, por pintar os cabelos brancos, pelas brigas e desentendimentos. Pelo medo de morrer e pelo medo de continuar viva e inerte, pelo estado de estupor que só some na frente da internet, das séries e do sono. Pela comida que vem, se come, se enche o bucho, e se passa o dia todo pensando no que vai comer depois e se consumindo pelo que se come depois e depois e depois.

Aí, um dia você acorda numa boa, de repente, se fecha do nada, fica ranzinza, puta sem qualquer motivo, irritada com a sombra, com a existência, com a frustração. O que foi? Nada. Mas o que houve? Nada. Então, por que você está assim? Não sei. Repete o refrão. Daí briga, chora, soluça, entope o nariz e alivia um tanto. Daqui a pouco, fica do mesmo jeito.

Nem sempre é assim: quando você é convidado para alguma coisa, no fim das contas acaba se divertindo, mas daqui a pouco, fica do mesmo jeito. Fica sempre do mesmo jeito. Do mesmo jeito.

Não é legal viver assim, sendo uma sombra, sendo refém de si mesmo, sem controle, sem vontade, sem prazer.

(continua)

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Sobre as coisas em que não acredito II

Depois de um tempo na onda católica, não sei por que razão, minha mãe resolveu apelar para o espiritismo. Ainda era algo meio concomitante; um pouco na igreja, na missa de domingo, fazendo uma novena e me obrigando a rezar o terço com ela de vez em quando (lembro até hoje do salve rainha) e, um pouco de palestra no centro espírita, um passe maroto, uma aguinha fluidificada.

Eu gostava do centro espírita e uma das primeiras razões para gostar de lá é que falavam sobre coisas mais palpáveis, como ser caridoso com o vizinho e saber perdoar, o que era bem diferente de ficar falando sobre os coríntios, filisteus e sei lá mais quem... no tempo em que galera só vivia à base de pão, vinho, linho e sandália no estilo gladiadora. Gostava muito, também, porque essa temática me mantinha acordada durante quase toda a palestra, ao contrário da missa que me dava um sono horroroso!

E daí que havia a temática da reencarnação que, para mim, na época, esclarecia muitos pontos que estavam obscuros e que insistiam em encontrar somente explicação divina - Deus quis, Deus escreve certo por linhas tortas, vontade de Deus, essa merda toda - para tudo de ruim que havia no mundo. Morreu cedo porque em outra vida fez coisas que o prejudicaram; nasceu deficiente porque sofreu um acidente em outra vida ou fez algo de ruim para alguém e agora está pagando nessa vida. Se encontrar alguém que não for com a cara é carma; qualquer problema de família é justificado como expiação e todas essas coisas. Okay, até que na minha cabeça de dez, doze, quatorze anos, aquilo fazia sentido e eu adorava o Chico Xavier (!!!), achava ele um cara incrível, ainda acho na verdade, e isso independente de qualquer fator religioso, porque fosse ele um médium de verdade ou não, a vida que teve, todo o trabalho social que ele fez, todas as pessoas a quem ajudou com os livros que escreveu... acho que o lance dele era a caridade de uma forma muito bonita, altruísta, humana, enfim, ele era uma figura admirável sem qualquer dúvida.

E também havia os romances espíritas que eu a-m-a-v-a!!! Lia vários e ficava naquela ilusão bonita que a religião nos proporciona... lia as histórias das gurias que eram uma fodidas nessa vida, mas que em vidas passadas foram nobres, ricas, lindas e maravilhosas, mas aí, dava um problema no carma delas e elas tinham que se lascar um pouco para compensar e poderem evoluir, sabe como é deus, né? O safadinho dava com uma mão e tirava com a outra, então eu acreditava que se a nossa vida não era muito boa, devia ser uma compensação de algo errado no passado ou que se estava muito difícil agora, em algum momento haveria uma retificação por parte de deus e tudo ficaria bem.

Não quero chegar aqui e só descer a lenha no espiritismo porque, apesar de não fazer mais sentido para mim, não tenho como negar que essa foi a religião a me mostrar o valor da caridade, do perdão, de fazer o bem sem olhar a quem, de saber que somos todos iguais, menos os negros, porque de acordo com o Alan Kardec os negros não são como nós, brancos privilegiados. Bom, quando descobri que ele pensava assim, e que isso estava escrito na porra dos livros que ele escreveu, mandei o Kardec se foder e decidi que, né? Não podia estar certo o negócio. De qualquer forma, lembro com veemência que, apesar desse senhor ter sido um eugenista imbecil, todos os espíritas que conheci ao longo da minha vida não propagavam esse tipo de imbecilidade, dando um mérito realmente positivo para a doutrina, a despeito de seu criador.

Ainda assim, essa descoberta só se deu quando eu já tinha uns vinte e poucos anos, de maneira que me desgostei da coisa, mas também não me sentia desamparada religiosamente. Estava passando por um período de questionamentos e somando às crenças que eu tinha na sorte, me considerava ainda uma pessoa bastante crédula e otimista em relação à vida, ao mundo, porque é isso que as crenças nos proporcionam, conforto, sensação de que em algum momento as coisas farão sentido, seremos recompensados por tudo e alguém vai nos salvar.

Eu queria que meu pai tivesse me salvado, mas adivinhem? Não, ele não veio; ao contrário, desistiu da vida e se matou e acho que depois da morte dele, durante algum tempo tive que acreditar muito que tudo ficaria bem, que as coisas se ajeitariam porque eu já estava sofrendo pra caralho, então uma hora tudo tinha que melhorar; pensava que meu pai estava sofrendo em algum umbral e que ficaria por lá durante muito tempo, até se arrepender (haha). Cheguei a acreditar que meu pai me assombrava porque fui a uma parapsicóloga que disse que ele estava "encostado" em mim mas, hoje, felizmente, penso diferente. Antes achava que ele tinha sido egoísta por se matar, mas hoje vejo que egoísta era eu por pensar que para não fazer os outros sofrerem, ele deveria enfiar toda a dor e vazio que ele sentia embaixo do tapete, e que deveria continuar vivendo para o deleite dos outros. Só consigo ver as coisas por esse prisma porque não acredito mais em nada, além do direito inalienável que ele e qualquer ser humano tem de ser autônomo em relação à sua vida; não fosse assim, estaria até agora achando que ele foi pro inferno porque só deus é quem tem o direito de-tirar-a-vida-de-alguém-porque-foi-ele-quem-nos-fez blá blá blá vá à merda!

Hoje eu acredito que ele é energia e está por aí, por toda a parte, sendo mais uma pecinha do universo, pertencendo ao todo, inclusive estando dentro de mim, já que sou parte dele também. Acredito na energia e nas vibrações que nós emanamos, no que transmitimos aos outros e confesso que a minha não vibra sempre na melhor das sintonias, mas até que me esforço para ser melhor todos os dias, por mim mesma, pelas pessoas que eu amo, mas nunca por deus, nunca esperando uma recompensa celestial, nem sentindo mais culpa e temendo uma punição; a natureza estabeleceu na prática a lei da ação e reação e ela funciona lindamente com o que supostamente Jesus teria dito: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. A gente pode traduzir como: ame seu coleguinha (ação) e ele também te amará (reação); seja um pau no cu com seu coleguinha (ação) e ele também será com você (reação). É prático, didático, não exige nem céu, nem inferno e todo mundo pode tentar em casa sem grandes riscos!

Até gostaria muito de acreditar que a gente não morre, que só o que morre é o corpo, que nós permanecemos... seria um grande alívio para o meu coração porque às vezes me consumo pensando em como deve ser não existir... minha consciência só sabe o que é existir, ela não conhece o vazio, o zero, o nada e, olha, dá uma pira cogitar isso, então prefiro não meditar muito a respeito, mas também prefiro não me enganar com um deus imbecil. Se há uma força criadora, nunca que ela seria como nós, cagadores de tudo... e oni-porra-nenhuma; acho que seria uma força criei-agora-se-virem-aí, enfim.

Não acredito em horóscopo diário, mas acredito em mapa astral; o meu é incrível e fala de coisas íntimas e precisas a meu respeito que, talvez, possam ser exatamente iguais a de outras milhares de pessoas, mas me reservo o direito de acreditar nisso; já que não acredito na existência de um deus, deixem que eu me iluda com a influência dos planetas na minha vida! =P

Não acredito em fantasmas, mas acredito muito que a Regan do Exorcista possa aparecer por aí para avacalhar comigo, porque apesar de não acreditar no demônio, Pazuzu era considerado um demo-demorô nas antigas e esse filme é simplesmente o melhor filme de terror já feito em todos os tempos na história do mundo e, mesmo depois de saber as falas, de ter visto o making of e tê-lo assistido incontáveis vezes, é o único filme ao qual eu assisto de boa e depois fico semanas a fio vendo a cara daquela lazarenta no escuro antes de dormir. Desculpem, o medo é um bagulho irracional e a gente só sente.

Não acredito que tubarões possam se teletransportar para águas aleatórias como de piscinas e lagoas, mas acredito que, no escuro, eles possam aparecer (junto com a Regan) para avacalhar comigo e, assim a vida vai seguindo, cheia de convicções bizarras como essa minha ou como essa sua, de ter fé num deus que existe tanto quanto uma menina endemoniada montada em um tubarão e aparecendo no meio da noite no meu quarto para não me deixar dormir.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sobre ser (in)competente

Antes de entrar na (in)competência em si, devo dizer que ela anda de bracinhos dados com a desistência; olhando nos rascunhos do blog, vi o título de um texto: Sobre desistir e desistências e, adivinhem? Só havia o título mesmo, porque nem sei, mas desisti de escrever sobre o tema e isso muito tem a ver com não me achar competente, boa o bastante; uma chateação sem tamanho.

Esse sentimento de não ser capaz vem "desde sei lá quando", junto com o "não faço ideia de como cheguei aqui, nesse estado", e deve ter suas raízes lá na infância, como quase tudo de bom e de ruim que vai compondo a gente e nos transformando em seres complexos, cheios de buracos, cheios de vazios mal preenchidos e cheios de inseguranças maquiadas de ego grande e falsa modéstia.

Essa semana estava olhando minha lista de resoluções deste ano, que escrevi no dia 31 de dezembro de 2014; eram 13 resoluções e eu mal e porcamente cumpri três. Mas peraí, Karla, mal e porcamente porra nenhuma, cumpriu lindamente!

Percebam que não é a Karla, ser uno, que escreve esse texto, sou eu e algumas de minhas nuances. Eu tô aqui, neutrinha, neutrinha, mas conheçam o meu lado dito "incompetente" e o meu lado dito "esforçado". O Esforçado poderia ser chamado de lado competente, mas o lado Incompetente ainda exerce um poder ligeiramente maior sobre ele e acha que não merece um nome tão melhor, ou seja, você é Esforçada, mas não chega a ser "competente"; dá pra entender?

Eu não questiono isso pela simples razão de achar que realmente não mereço ser chamada de Competente, porém, apesar disso consigo reconhecer meu esforço e perceber que estou aqui, lutando com uma "galera interna" pra ver se consigo me sobressair sobre mim mesma. Não é fácil e dá um trabalho do cão!

Tenho uma crença muito negativa que me diz que não sou muito boa em nada do que faço. Eu acho que isso acontece não porque não sou boa de fato, mas porque sempre insisto em me comparar com os outros e, daí, sempre haverá alguém melhor mesmo; acontece que isso me afeta tão profundamente que eu simplesmente esqueço que se há melhores, há também os piores do que eu! Ahááá!!! Então, penso que nasci pra ser aquela mediana, brochante, nem boa nem ruim, picolé de chuchu... sem contar que preciso me lembrar dos piores que eu pra me sentir menos pior do que eles e talvez, só talvez - porque tudo é questão de perspectiva -, esses piores, mesmo sendo piores aos meus olhos, não se vejam assim porque podem ter outras questões mais importantes a tratar na vida...

Pela perspectiva, eu deveria pensar mesmo é que nunca serei a mais foda da história da humanidade em tudo, masss, sou muito boa em coisas que me satisfazem e nem tão boa em outras coisas, assim como acontece com todas as pessoas. Por exemplo, eu sou muito boa em fazer as minhas próprias unhas; dos pés AND das mãos! Só preciso estar inspirada, porque unhas bem feitas exigem uma tarde toda de foco e concentração. Graças ao meu talento para comigo mesma, não gasto com manicures. Acho que já fiz as unhas meia dúzia de vezes no salão em toda a minha vida. Até para o meu casamento, eu mesma fiz na véspera e oh, ficaram bem bonitas!

Claro que passo por épocas em que fico meses sem chegar perto de um vidro de esmalte, ou faço e arranco bifes ou borro uma unha e tenho que fazer tudo de novo, profiro um sem número de palavrões e tenho vontade de mergulhar numa porra de uma banheira de acetona, mas não, limpo a cagada e continuo. Sou muito boa também em outras coisas que não me lembro agora, mas asseguro que sou competente em outras áreas além de fazer bem "minhas próprias unhas quando tenho vontade e inspiração para isso"; é só que não me ocorre mais nada por enquanto hehe.

Voltando às resoluções, disse que cumpri três delas e não vou falar das que não cumpri, porque não preciso desse tipo de lembrança da minha incompetência, fracasso ou como vocês quiserem chamar.

A primeira, na verdade, não posso dizer que cumpri, mas fiz a minha parte, porque ela não dependia totalmente de mim. Eu havia dito que operaria as veias das minhas pernas que fazem aparecer aqueles vasinhos malditos, varicoses, que enfeiam a gente e fazem parecer que temos teias de aranhas nas pernas! Fui ao médico, e ele me disse que só se opera em última instância, blá blá blá, vamos fazer secagem, blá blá blá... eu fiz e parece que as coisas ficaram piores e, como fiquei bastante desapontada com o resultado, não voltei mais nem voltarei. Ano que vem vou tratá-las com laser! Vamos ver se dá certo. Bom, não operei porque o médico falou que não deveria. Okay, uma já foi.

A segunda foi parar de fumar. Muita tristeza no coração. Muita vontade de fumar quando saía, quando bebia, quando conversava, quando estava puta, quando estava feliz, muita saudade de fumar enquanto estava viva resumidamente! Olha, parei na raça! Nos três F's da galera fitness: força, foco e fé. Claro que dei umas fumadinhas ocasionais, mas que não foram o suficiente para me jogar de volta no vício. Acho que a fase da fissura já passou. Seguro bem melhor a onda e só sinto vontade de fumar em casos de muito amor (conversas com pessoas queridas que não vejo há muito tempo e que fumam, fdp!) ou de muito ódio (estresse em nível cavalar), mas no geral, apesar do marido fumante, fico bem de boa na lagoa sem o cigarro. Comecei um novo tratamento para minha asma e já não uso a bombinha há uns dois meses (?). Tenho que confessar que me sinto bem melhor sem o cigarro e que o seu cheiro eventualmente me incomoda, apesar de de vez em quando ele me trazer uma grande sensação de nostalgia. Quem sabe quando eu estiver com uns 75 anos volto a fumar, já que não dará mais tempo de desenvolver um câncer?!

A terceira coisa, a que me desafiou intelectualmente - e esse lado me perturba tanto... porque me sinto burra, muito burra, burra pra caralho de vez em quando (!!! ) -, foi fazer uma disciplina do mestrado de História como aluna especial. Foi assim: a resolução dizia que eu deveria estudar e me preparar para fazer o mestrado. Então surgiu a possibilidade de eu fazer uma disciplina como aluna especial, que poderia ser validada posteriormente. Eu me inscrevi (mas o lado incompetente já dizia que não seria selecionada porque não tinha nada no Lattes, porque não era uma disciplina da minha área de formação, porque eu era BURRA e isso estava estampado na minha inscrição), e tcharam! fui selecionada!!! =)

Mas, sempre prevendo que "ser selecionada é fácil, difícil é fazer a disciplina!". Beleza! Primeiro dia de aula, a professora explicou como seriam as aulas, como seriam as avaliações, quantos seriam os textos e disse que deveríamos escrever um artigo para a conclusão da disciplina. Fiquei com esse artigo na cabeça desde o primeiro dia, em pânico porque, para escrevê-lo, deveríamos articular textos da matéria com o nosso projeto de mestrado, pro-je-to de mes-tra-do!!! Puta que pariu! Eu não tinha um projeto de mestrado, eu nem estava no mestrado! Eu quero fazer um mestrado, mas não faço ideia de qual seria meu tema, meu problema, meu projeto!

Fui segurando a ansiedade porque até que conseguia debater os textos nas aulas; não parecia algo tão de outro mundo. Na minha cabeça, fazer um mestrado ou um doutorado era algo para as pessoas iluminadas, sabe? Algo muito complexo, difícil, demandante e continuo pensando isso, a diferença é que agora eu penso que isso pode ser acessível para mim também. Quando chegou a hora de sentar a bunda na cadeira e escrever o tal artigo, quando eu sequer sabia sobre o que escreveria, eu pensei inúmeras vezes: O que eu tô fazendo aqui? Pra que fazer isso? É muito difícil pra você! Desiste logo! Você não é historiadora! Você não tem leitura! Você não tem projeto de pesquisa! Você não tem fontes! Você não tem capacidade pra isso! Você é burra, vai desistir porque nunca acaba nada do que começa... hahaha

E cada vez que eu pensava todas essas coisas, pensava também: fodeu! Porque ter uma vozinha satânica dentro de você e saber que essa voz é sua é muito ruim; é muito triste... saber que a gente não acredita em si mesmo dói pra caramba. Saber que a letargia tem um poder enorme sobre você e que ela acha que gostoso mesmo é comer e dormir; pouco ou nenhum esforço é igual à pouca ou nenhuma recompensa, mas tudo bem, porque fazer qualquer coisa dá muito trabalho e você não quer ter trabalho... =/

Depois de escrever um pouquinho, fazer um rascunho e tentar expressar o que queria fazer, mandei essas anotações para a professora e ela me direcionou; o processo continuou sofrido, só que um pouquinho menos, e quando eu fui fazendo algumas leiturinhas e concatenando as ideias e conseguindo amarrá-las foi lindo! Mais lindo ainda foi ver que depois de tanto me achar incompetente/incapaz/burra, eu consegui acabar de escrever o artigo (com infinitas 15 páginas!) e o enviei para a professora antes mesmo que o prazo de entrega acabasse. Não faço ideia se ele alcançou o objetivo que ela esperava, mas certamente alcançou os meus. Fiquei muito satisfeita com o que escrevi, orgulhosa do que escrevi, mesmo que os historiadores possam achar uma bosta, foi uma bosta escrita com muito esforço e dedicação! E eu adorei! Espero que dê para passar na disciplina e agora só falta escrever o projeto do mestrado, para sofrer mais um pouquinho porque desafio pouco é bobagem para mim! (haha, quem vê, pensa!)

Escrever esse artigo e poder concluir essa disciplina foram os grandes desafios acadêmicos que venci este ano. Não foi só um artigo, foi uma prova de que sou capaz; de que se só gente muito inteligente consegue, fazer isso me colocou no mesmo grupo que eles, no grupo das pessoas que conseguem fazer tudo o que elas quiserem. Provei para mim mesma que se desafiar pode ser muito prazeroso e compensador. Eu posso!

Vem pra mim, mestrado, vem que eu sou PHoda!


quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre as coisas em que não acredito

Quando eu era pequena - sim, preciso dizer isso; é o meu "era uma vez...", meu início de narrativa, minhas histórias geralmente começaram lá atrás e ainda estão se desenrolando... sou eu ali, tipo plantinha, crescendo e me espalhando pelo mundo -, agora volto para o que quero contar, repetindo.

Quando eu era pequena, bem, acho que antes mesmo de eu nascer, mas vou começar do ponto em que me percebi como ser pensante e consciente; tive pais disfuncionais. Por muitos anos, acreditei que meu pai era apenas ausente em virtude de sua separação da minha mãe e que ele não ligava lá muito para mim e essa falta só veio se mostrar com força na adolescência, depois da morte dele; mas a minha mãe, ela sempre esteve ali. Era assim na prática: pai ausente, mãe presente. Mãe fazia questão de dizer que pai não estava nem aí e pai não fazia nada para provar o contrário disso. Pintei o cenário.

Mesmo diante desse cenário tristinho - que faz parte da história de muitos e muitos, sabe-se lá quantos -, eu ainda não tinha noção das coisas da vida e era felizinha; não no sentido amplo e irrestrito, mas eu cultivava dentro de mim uma chaminha brilhante e vermelho-azulada de otimismo. Era bem otimista. A cara fechada da minha mãe, seu cansaço e a constância em reclamar da vida, da falta de amizades, de melhorias, aquela coisa de adultos que têm problemas, aquela vida pesada de viver mas que, como não tinha jeito, a gente tinha de se agarrar em alguma coisa e como nos agarramos!

Aí nos pegamos em Deus - naquela época, ele ainda era grafado com letra maiúscula pra mim -, mas não éramos como os crentelhos, ui, não, nunca fomos (!); é só que com vida difícil, a gente se apegava com tudo, éramos sincréticos. Vejo que minha mãe buscava na religião alguma resposta para as dificuldades, mas mais do que isso, vejo que ela buscava o fim dos problemas; ela não queria mais se preocupar com problemas, então, sei lá, pensava que se fosse às missas, rezasse e pedisse muito, as coisas ruins iriam embora, e acho que tantos outros pensavam assim também. Além disso, ter um Deus responsável por tudo de bom ou ruim que acontecesse nas nossas vidas era um tanto cômodo, porque seja como for "Deus proverá". Bastava rezar, ler a bíblia e seguir suas leis (nunca li a bíblia inteira e dos dez mandamentos, só não matei, porque o resto...).

Rolavam fases católicas em que íamos à missa aos domingos e isso era um martírio. Minha mãe, com toda sua gentileza, só que nunca, nos obrigava a ir à igreja e era um saco! Primeiro porque se não fôssemos cedo, teríamos de ficar em pé por mais de uma hora, lá no fundo da igreja lotada. Eu gostava de sentar nos primeiros bancos, porque pareciam um lugar mais privilegiado, só que nunca sentamos nos primeiros primeiros, porque parece que eles eram meio reservados para as tiazinhas que batiam ponto no recinto sagrado, de maneira que sentar no quarto ou quinto banco já era muito bom e evitava os olhares feios lançados em caso de atraso: "que mal católico, tem que chegar na missa cedo! Se chega atrasado é porque não dá a importância devida a Deus".

Chegávamos e já procurávamos o jornalzinho de ritos. Aquela coisa era o roteiro do católico feliz, porque se você não era uma carola e ia ouvir o padre falar ocasionalmente, sem um jornalzinho daqueles pra acompanhar, você ficava completamente perdido. No meio do senta-levanta, das repetições de "glória sei lá o quê" e "graças a Deus", das músicas tocadas no teclado (que coisa blergh!) e do fato de que quase nunca eu entendia tudo o que o padre falava porque o microfone dele era horrível; no meio de tudo isso que eu não entendia bem o porquê de ser daquele jeito, eu sentia que era um lance meio vazio, parecia um treinamento de cachorros. Senta, levanta, canta, toma a óstia e pede perdão, ouve música ruim e coloca uma grana na caixinha do altar, segue o livrinho, ouve historinhas de como era nos tempos remotos e bla bla bla... Daí, no meio disso tudo, havia a única parte que eu gostava, além daquela em que eu podia ficar do lado de fora da igreja, brincando de pega-pega com meu irmão enquanto lá dentro a galera rezava, era a parte da comunhão, é esse o nome? Era a parte em que todo mundo fazia de conta que se importava com o outro e dava um abraço no coleguinha do lado, mesmo nunca o tendo visto antes. Eu gostava muito disso. Era o único momento em que eu sentia uma energia se movimentando por ali, como se fosse o pequeno momento em que as pessoas se olhavam e se viam como seres humanos, pena que era meio: "chegou a hora do abraço no coleguinha. Hey, dê cá um belo abraço! Te reconheço como pessoa e pelo tempo desse abraço ou aperto de mão, sinto a pequena brasa da empatia no meu coração católico", mas aí acabava o tempo e a missa tinha que seguir, e já voltava pro que era antes: "não te conheço, nunca te vi".

Lembrei agora que também tinha a parte de rezar "a oração que nosso pai nos ensinou", daí toda a galera dava as mãos e rezava em coro; era bonito, vai dizer?! Batia uma emoção, porque de repente os adultos estavam ali, livres de tudo o que carregavam, de mãos dadas, como irmãos... ai ai...

Enfim, nessa vibe católica minha mãe me obrigou a fazer a primeira comunhão, já que eu era batizada pela religião porque meu pai era de família bem devota. Na realidade, não sei se foi por causa do meu pai ou por causa dos dois, mas com uns nove anos comecei a catequese aos sábados, sob protestos, porque era nos finais de semana, que foram feitos para aproveitar a vida não fazendo nada de útil e não para preenchê-los com compromissos religiosos. Eu não queria, mas a minha mãe disse que eu deveria fazer porque os catequistas amados e arrebanhadores de gado diziam para as crianças que quem não fazia a primeira comunhão não entrava no céu. Então eu entendi como era importante fazer isso porque, afinal de contas, não queria ficar no limbo quando morresse, junto de outras crianças pagãzinhas. Queria o céu, o paraíso.

A turma funcionava na minha escola, numa das salas de aula. Pense em quarenta pequenos demônios tocando o terror dentro da sala, era tipo isso. Quando o curso de catequese estava acabando e estávamos quase "graduados", o último passo antes da cerimônia formal era o de se confessar com o padre. Fiquei nervosa, né, porque havia algumas falas prontas pra dizer a ele, algo como: "padre, me perdoe porque pequei..." e eu não queria errar, porque imagina se antes mesmo que eu contasse meu pecado, eu não soubesse me expressar, ele não iria me perdoar mesmo! Inferno na certa! Fui, entrei na cabine de confissão, disse o que tinha de dizer e confessei meus pecados cabeludos de menina de nove anos e recebi como penitência rezar sei lá quantos "pai nosso" e umas trocentas "ave, Maria". Okay, de boa, fácil. Mas as últimas palavras do padre foram: "da próxima vez que vier se confessar, não use roupas curtas."

PORRA, eu fui com uma roupinha nova que minha mãe tinha me dado, era um shortinho e um topzinho, era um conjuntinho de lycra super comum na época, mas parecia que Deus não tinha curtido minha roupa especial para ir bater um lero com seu representante na terra; nunca mais me confessei depois daquilo e saí da igreja me questionando: a gente se confessa porque comete pecados, mas e o padre? ele não peca? por que o padre, que também deve ter seus pecados, é melhor do que eu a ponto de dizer o que eu tenho de fazer ou rezar pra me redimir dos meus erros? por que eu preciso de uma pessoa entre mim e Deus? Deus não está em toda parte? então não preciso de ninguém para interceder por mim diante dele além de mim mesma, nem preciso ir a lugar nenhum para falar com ele...

Saí toda questionadora e passei a rezar todas as noites, antes de dormir. Não era ave-nosso nem pai-Maria. Eu conversava com Deus de verdade, mas tudo bem que só eu falava porque ele nunca respondia. Mesmo assim, sentia uma conexão feliz com o divino. Começava sempre pedindo perdão por isso, isso e isso, e dava umas explicações a respeito dos "pecados" daquele dia. Depois, pedia que ele abençoasse o mundo inteiro, especialmente a minha família, meus amiguinhos, todas as pessoas do meu círculo de convivência e conhecimento, mesmo as que eu não gostava e quando eu pedia que ele abençoasse as pessoas que eu não gostava, sentia a brasinha da empatia brilhando no meu coração, do mesmo jeito que sentia na missa, era bom. Então falava com ele abertamente sobre algumas coisas que me incomodavam, que me alegravam e ia nesse lero até dormir.

Hoje eu vejo que conversar com Deus, era conversar comigo mesma; era ter a capacidade de refletir sobre as coisas que aconteciam na minha vidinha de criança e mesmo sendo uma coisa minha comigo mesma, não havia o que há hoje e é tão forte na vida adulta: o julgamento, a cobrança, a crítica. Naquela época, conseguia me despir das minhas dores e mágoas e me perdoava todas as noites, achando que conversava com Deus e que ele me abençoava, quando era eu mesma que fazia isso, quando me permitia falar e ouvir o que queria e tinha o coração aberto para novas oportunidades de errar. Era divina a relação que havia entre todos os meus eus de criança e só percebi isso agora.

Continua.

P.S.: No dia da primeira comunhão, tive que usar um sapato branco de verniz que machucava meus pés; mesmo usando meia-calça, meus calcanhares doíam; não foi legal.



sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Volver

Eu queria escrever porque achava que, escrevendo, me entenderia melhor; ah, é fato. Fica posto, registrado. Seja dor, alegria ou medo. Fica assim, pra posteridade. Pra depois reler e achar muito ruim. Pra depois reler e relembrar. Pra depois reler e me surpreender: ainda penso assim, que bonito ficou isso... Reler pra me reconhecer no papel, pra lembrar como me registro.

Me angustiava quando entrava aqui antes; não queria ver o que já tinha ido, mas olhando agora tem tantas coisas belas que mesmo o que foi dor pode ficar sem receio. Tem também um monte de bosta, daí a gente converte em rascunho.

Voltei; estou voltando...

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Feliz natal

Natal quer dizer dia do nascimento e não me refiro ao nascimento de Jesus; refiro-me ao nascimento de todos nós, que é diário. Todos os dias morremos um pouco para renascermos no próximo alvorecer.

Quando eu era pequena, acreditava em papai noel, e em todos os símbolos que permeiam esta data. Hoje, acredito simplesmente que o natal é a época em que devemos estar com quem amamos, com quem é especial para nós, com quem faz parte da nossa vida. O natal, para mim, é a celebração de mais um ano, é como se fosse o aniversário de todo mundo no mesmo dia, celebrando a vida e o amor. Que aproveitemos este dia para refletir sobre os passos dados, sobre o que estamos fazendo aqui e sobre como podemos ser melhores para os outros e para nós mesmos.

Desejo a todo mundo um dia com muito amor, paz, luz e comida! Que o universo conspire sempre positivamente para todos! <3 p="">

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Chama negra

Sonhei que voava. Várias vezes tive esse sonho. Começo dando saltos leves e quando me dou conta, estou flutuando com graça; é a melhor sensação do mundo. Meus braços me norteiam e consigo sentir o ar suave percorrendo todo o meu corpo. Rodopio, dou cambalhotas, mas é tudo lento e sinto cada parte de mim sendo parte da matéria que não sou capaz de sentir como tangível.

Hoje, eu alçava voo em uma praia, em um fim de tarde febril e de céu azul acinzentado. Havia algumas pessoas ali e a garota de cabelos cacheados me olhou com admiração quando eu ascendi. Eu trajava um vestido preto, na altura dos joelhos, acinturado e de saia rodada; estava descalça. Fizeram-se pequenos redemoinhos de areia aos meus pés, e então essa areia tornou-se um rastro de purpurina dourada por onde eu ia passando.

Eu dava a mão a ela, queria tocá-la e trazê-la comigo para o ar, mas não consegui porque ela deveria ficar ali.

Agora me ocorreu que houve linda junção de elementos. A água da praia, a areia que é o chão, a terra; e o ar, que era onde eu, fogo, me propagava, como uma chama negra, feliz feliz feliz. Enquanto houver ar, me propagarei.

Há pouco vi uma coruja perto da praia. Nunca tinha visto uma coruja ao acaso. Ela era pequena, graciosa; olhou-me nos olhos e voou livre em direção a uma luz. Sincronicidade.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sonho de véspera de primavera

Às vésperas de primavera tocam músicas antigas em noites de chuva. Chove muito, chove pouco, mas não para de chover. Formam-se cachoeirinhas nos morros e a água que se acumula no asfalto reflete a luz artificial dos carros, dos postes e dos semáforos coloridos que piscam como luzes de natal pela madrugada.

A aranhazinha tece sua teia e enfia-se embaixo do guarda-chuva xadrez que a acompanha para não escorregar nas pedras molhadas. Dividem cigarros de filtro caramelo, bebida amarela doce e vagabunda; sobem morro, descem morro em direção ofensiva pelo dia que começa a surgir cinza pelos confins do céu que tem sua cor favorita.

São quatro olhos, que se olham, ofegam e se culpam por viverem as flores da primavera. Depois, a monstrinha corta a teia, mostra a língua para o guarda-chuva e se enfia na quentura da multidão agitada.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre a dor de existir

Quando eu era criança e minha mãe vinha pra me acordar todos os dias pra ir pra escola, eu fingia que estava em sono tão profundo que ela me chacoalhava com força – e eu fazia um enorme exercício pra controlar o riso -, mas não acordava. Enquanto ela tentava me despertar, eu ouvia as coisas que ela dizia: acho que vou levar essa menina no médico, não é possível que durma tanto!

Isso era só charminho, pra chamar atenção. Não gostava de dormir.


De ontem pra hoje, devo ter ficado na cama por umas doze horas. 


Acho que ela sempre me acompanhou de alguma forma; antes como uma sombra pequena, mas com o passar dos anos e com o desenrolar da vida, ela veio crescendo, e me tomando. Não queria que ela me tomasse dessa forma que, diga-se de passagem, foi muito safada. Infiltrou-se na minha vida como se fosse minha personalidade, meu jeito; como se fosse o que sou e irremediável a sua cura.


Minha mãe dizia que eu era fechada e eu não entendia o porquê disso. Via a mim mesma como uma pessoa extrovertida e bem-humorada e depois de um tempo achei que a minha rabugice era fruto da convivência com ela, que sempre fora uma pessimista nata, mas que nada, a sombra já a tinha tomado também.


Não sabia o que era depressão de verdade, até a minha adolescência, quando meu pai resolveu se enforcar pra dar cabo da dor e do sentimento de solidão que o habitavam. Daí vi quão profundo era o buraco. Daí vi até onde uma pessoa poderia ir pra aplacar o que a impede de ser feliz, de ser como todo mundo que é “normal”.


Me deprimi às vezes, fiz terapia, chorei rios, me questionei, procurei sentidos; quis morrer, desaparecer, e aparecer pra viver de novo. Tive lampejos de felicidade quente e outros nem tanto, mornos como a brisa do verão que sempre vem. Senti muito e também senti nada. Talvez no fundo, eu sempre soubesse que tinha isso e, por essa razão, não quisesse ter filhos. Não queria minha semente estragada por aí, sentindo dor. Não queria ter uma extensão de mim mesma dizendo que devo continuar, a qualquer custo.


O sentimento da falta de vontade, da falta de amor, da falta de razão continuou dentro de mim, como um verme alimentado pela mentira, pelo comodismo. Vamos lá, mexa-se! Levante esse corpo gordo da inércia e faça alguma coisa! Isso é o pior. A crítica que vem de você mesmo, sua consciência gritando no vazio de você, urrando por movimento e mudança, e você é incapaz de dar voz a ela. Letargicamente, deitada em uma cama, você não quer morrer, só quer que isso passe; você só quer dormir e acordar desse pesadelo.


Já tinha ido a psiquiatras diversos e os remédios se estragavam pela metade em suas caixas. Copo meio vazio, eu sempre via. Ainda assim, é um copo, ainda assim há algo dentro dele, não importa quanto.


Resisti a tomar remédios talvez por eles não terem sido capazes de ajudar meu pai, talvez porque minha mãe tenha tomado tantos deles que tenha ficado meio afetada, talvez porque eu achasse que poderia dar fim a tudo isso por conta própria, mas não é verdade.


Semana passada, clamei por ajuda, de novo, e desta vez decidi que vou agarrá-la da forma que for. Se ela vier em comprimidos, chás, pílulas ou diabo, a tomarei. Tenho quase trinta anos e uma filha. O tempo não vai voltar pra mim, como não voltará pra ninguém nessa terra. Meu bebê é quem melhor me cuida, ficando do meu lado e me fazendo carinho pra eu dormir por mais doze horas. Não é justo que ela cuide de mim, porque meu intento nunca foi o de ser um fardo para os meus.


Meu sonho de menina sempre foi o de ser especial, de ter uma missão especial por essas bandas, mas eu nunca pensei que viver fosse tão difícil. Semana que vem volto a estudar, porque cabeça vazia é oficina do diabo, é o que dizem.


No fim de semana passado, fui acolhida por uma prima com quem não tinha contato, e o que mais nos ligava era a dor de um ente fugidio dessa vida, cada qual com o seu. A dor nos aproximou e fui com ela e uma parte de sua família para seu sítio. Lá, conversamos, dividimos nossos fardos, comi comida de mãe, me meti no mato e vi um lindo céu estrelado com direito a duas estrelas cadentes. Não dá pra fazer pedido a elas, porque enquanto elas passam pelos nossos olhos em décimos de segundos, estamos ocupados vendo toda a beleza do universo, do qual também somos feitos.


O que me acalenta é saber que eu também sou o mato, as estrelas, a chuva e os montes. Eu sou todo mundo e todo mundo também é um pouco de mim e, assim, tudo e todos, somos um só.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Prelúdio gastronômico

Eu cozinho. Aprendi com a minha mãe. Antes dela ir trabalhar, escolhia feijão e colocava na panela de pressão; o meu trabalho era cuidar do feijão. Parece fácil, mas nem tanto, ainda mais quando você tem entre oito e dez anos e vive nos anos 90, assistindo ao programa satânico da Xuxa e esquecendo do almoço na frente da TV.
Perdi as contas de quantas vezes eu lembrava do feijão só quando já sentia o cheiro de torrado que vinha da cozinha. Era o maior desespero porque eu tinha que me livrar daquela merda, lavar a panela, escolher mais feijão, botar pra cozinhar de novo e fazer o cheiro de queimado se dissipar. Como eu só me dava conta de que ele estava queimando lá pelas 11h30, e já era quase a hora da minha mãe voltar pra casa, era praticamente certo que eu apanharia.
Acontecia o mesmo com o arroz, de quem eu deveria tomar conta com igual carinho, colocando água e esperando que ele ficasse no ponto.
E foi assim, entre panelas queimadas e chineladas que eu aprendi a cozinhar; na marra.
Tá, daí que não foi assim que eu tomei gosto pela coisa; o gosto pela coisa veio comendo as coisas, porque comida de mãe é sempre boa. Pelo menos a comida das mães de antigamente e, hoje, eu sou uma delas.
Acho uma vergonha gente que não sabe cozinhar. Acho uma vergonha gente que fala com orgulho que só sabe fazer miojo e mal e porcamente frita um ovo. Acho uma vergonha gente que acha bonito ser um zero à esquerda na cozinha. Porra, cozinhar é ser independente no sentido mais digestório da palavra; comer o que você mesmo prepara não figura independência e motivo de orgulho? Ser reconhecido por encher uma pancinha amiga com uma comidinha gostosa é o que há.
Quando fui ficando mais velha, minha mãe passou a me ensinar a cozinhar com mais didatismo; ela não me dava mais porradas, ela só me obrigava porque eu tinha que ajudar no almoço mesmo. De tanto fazer, você aprende; de tanto comer, você toma gosto. Ela me ensinou quase tudo do que eu sei. Não tem nenhum requinte, mas é muito bom. Arroz, feijão, salada de maionese, macarrão, lasanha, bifinho, strogonoff, farofa, madalena, creme de milho e vai embora... Minha cunhada também me ensinou umas coisas gostosas e gordas, que são mais gostosas ainda porque são gordas.
Claro que tudo a gente vai adaptando ao nosso gosto e ao que temos em casa na hora. Às vezes, a comida é de vadio, às vezes é mais ajeitadinha, mas o que importa é o tempero; tem que ter gosto, sabor, tem que encher a barriga e o coração. Tem dias que é foda e a comida fica uma bosta, mas nunca intragável, daí o coração não fica pleno, mas a barriga fica, o que já é alguma coisa.
E toda essa enrolação foi só pra dizer que farei um vídeo super profissional na minha cozinha industrial, dirigido pela minha filha linda e estrelado por esta que vos escreve apenas para ensinar aos leigos e amadores a receita, até então secreta, do maravilhoso creme de milho da D. Márcia.
Mas, subliminarmente, o vídeo é endereçado a minha amiga Thaís, que provavelmente cozinha muito melhor do que eu, mas que me pediu a receita do dito cujo. Já adianto que não uso medidas; é tudo na base do olhômetro e do bom senso.

segunda-feira, 4 de março de 2013

A máquina

Noite dos diabos. Deito, rolo de um lado para o outro; tudo perturba. A criança que se move e faz barulho, os gatos aos pés da cama, brincando com a pequena boneca de cabelos espigados e batendo-a contra o assoalho, o calor do quarto, a quentura das cobertas que preciso usar para me sentir protegida da noite.

Na cabeça tudo vem. Tento me focar na minha respiração, que mais parece a de um animal asmático; inspiro, prendo, solto, prendo e faço de novo umas três vezes, mas os pensamentos me invadem. Penso que tenho de marcar uma consulta, penso que tenho de arrumar a casa, penso que tenho de escrever e daí penso penso na dor, penso na vida. Pensei tanto que não me apercebi quando o sono finalmente veio, uns quarenta minutos depois.

Acordo e estendo a roupa da máquina; resolvo colocar ordem no pardieiro que se tornou minha casa. Começo sempre pelas roupas, depois arrumo os livros de volta no lugar, esvazio os cinzeiros, guardo os pares de sapatos. Pego uma sacola plástica e saio pela casa recolhendo o lixo que se deposita por todos os cômodos; guardo papéis, coloco a bateria de volta na câmera fotográfica, troco a roupa de cama e tiro o pó dos móveis e objetos.

Daí, então, passo o aspirador e a vassoura em todo o apartamento, jogo o limpador cheiroso no chão e passo o pano, uma, duas vezes. Vou para o meu pesadelo maior, a cozinha. Há louça lá de duas semanas; todos os copos que tenho estão na pia e a sujeira já nem fede mais porque se liquefez. Até os vermes da lixeira da pia já morreram, secaram, reencarnaram e morreram de novo, tanto foi o tempo de dor.

Abro a geladeira, e jogo fora comidas estragadas, cristalizadas com suas colônias de bolor coloridas. Deixo-a limpa e lavo a panela de arroz que jazia no frio desde o último dia em que coloquei uma cobra dentro da minha casa. Ela arrastou-se por tudo, comeu e bebeu comigo e depois me deu o bote, mas é o que cobras fazem.

Limpo o chão, os vômitos secos de gatos mortos de fome. Limpo suas fezes na caixa de areia. Limpo minhas privadas, junto os cabelos e pentelhos do chão, tiro o ensebado dos vidros dos boxes, limpo as pias com restos de pasta de dentes e jogo fora a escova que não será mais usada.

Faço tudo isso expurgando a mim mesma, tirando de mim toda a sujeira que poderia haver, limpando minha casa e minha mente. Tentando desgastar a dor de existir com a rotina, com o mecanicismo, com o ocupar para não pensar, ocupar para fazer sentido, ocupar para poder ser.

Dói ainda, é fato, mas de tanto repetir isso, acabo por me imiscuir no meu todo. Sou meu corpo, minha mente, minha casa. E as coisas finalmente se ajeitam, até que estejam novamente uma bagunça e seja necessário mais um esforço demandante de movimento, que me tire da letargia e me lembre que mesmo que tudo pareça parado, a movimentação é contínua.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Hoje

Hoje, cortei meus pulsos de cima abaixo, fundo, com a navalha mais afiada que pude encontrar. Vi minhas veias pulsando o horror da vida doente, esguichando o sangue que corre em mim. Vi minha carne viva, minha dor latente, meu desejo de morte.

Hoje, lancei meu carro num precipício de terra batida e mato alto. Caí no mar do mundo. Afundei minhas expectativas enquanto a pressão da água quebrava os vidros e invadia os meus pulmões me fazendo sufocar. Vi peixinhos coloridos e percebi que o que há em cima é o mesmo que há embaixo.

Hoje, ateei fogo em mim mesma com a gasolina do posto que vende combustível a preços abusivos. Descobri que se matar sai caro, enquanto minha pele se desfazia caindo aos pedaços e eu sentia o cheiro de carne esturricada; enquanto as chamas me deformavam e eu gritava de desespero.

Hoje, me enforquei com um lenço bonito de bolinhas brancas, pendurado no batente da porta do banheiro. Asfixiei-me até que meus olhos ficassem vermelhos de sangue e minha língua azul e inchada para fora. Agonizei sapateando no ar, até que eu fosse embora.

Hoje, quebrei meus ossos e me espatifei quando me joguei lá de cima. Do alto de onde eu vim. Saltei para a liberdade do universo. Gritei vendo o chão à minha frente sem poder freá-lo. Mas não tirei os sapatos; não tinha intensão de fazê-lo.

Hoje, desisti dessa vida de miséria, rodeada de pessoas igualmente miseráveis e vis. Não tenho mais desculpas para continuar com o karma. A vida segue, sempre segue, não pode parar, nunca.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Carta de suicídio

A quem interessas possa, isto aqui é uma carta de suicídio.

Sempre que escrevo um texto, escrevo e por último coloco o título, mas este já tem o título de cara porque a decisão foi pensada com cautela, como deve ser quando você pretende dar fim a um sofrimento.

Devemos pesar sempre os prós e os contras da nossa vida, ver e rever conceitos, crenças e atitudes; foi o que fiz, na verdade venho fazendo há algum tempo já. E esta decisão que cabe somente a mim deverá me livrar do sentimento de angústia e tristeza que esta vida me causa. A gente se vicia na vida que leva e quando para para pensar, para vê-la de perto, não mais como um espectador, você, então, se dá conta de que não importa quantos anos você tenha, especialmente nesta vida, você ainda age como se fosse o umbigo do mundo. Você quer ser importante, todos querem. Você quer atenção, amor, afeto, afeição, carinho. Você quer milhares de coisas boas, mas quando você percebe que o seu vizinho quer o mesmo que você, então começa uma pequena e velada guerra de egos, de inveja pela conquista alheia, pela felicidade estática do outro, pelas viagens que os outros fazem, pelo reconhecimento que têm e que esfregam na sua cara 24/7. É triste admitir que somos todos diferentes, que nossos gostos não são cem por cento iguais, que nossas crenças se esbarram, que nossas ideologias diferem, que nosso orgulho é ferido e que o centro do mundo não somos nós; até somos, mas cada um é o seu.

É difícil de acreditar que todo mundo tem problemas e que cada um sabe exatamente onde dói o seu calo, onde o peso pesa mais nas suas costas, a despeito de toda a felicidade, autoajuda, autocomiseração, e mais um monte de coisas. Somos condescendentes demais com a gente, aceitando vidas de merda cercadas de pessoas que estão cagando e andando para gente, por mais próximas que elas pareçam. Cada um quer brilhar no seu quadradinho, mesmo que seja às custas de alguém, mesmo que seja de mentira, mesmo que quando você se desconecte da porra da rede a sua vida seja uma bela miséria.

Eu nasci aqui no dia 10 de abril de 2009, e o nascimento foi tímido porque não entendia como esse mundo funcionava e ele me parecia muito complicado e pouco útil. Quando larguei a outra vida para entrar nesta que parecia ser a vida em que todos estavam encarnando, eu não fazia ideia de que ela me tomaria tão inteiramente. No começo, não interagia; só via a vida alheia se desenvolvendo através dos meus "amigos", mas logo comecei a atuar também, como todo mundo.

Eram fotos postadas - vejam como sou jovem, feliz e boa fotógrafa! -, músicas postadas - vejam o meu gosto musical e como expresso meus sentimentos através de clipes -, frases postadas - vejam como tenho opinião para tudo -, textos, fotos, frases compartilhadas - vejam quem eu sou por meio de fotos, textos e frases que não são meus, mas que expressam toda a profundidade do meu ser e a indignação que tenho perante este mundo cruel -, páginas curtidas - vejam como sou cool e descolada e sigo quem é cool, engraçado, irônico e descolado na medida que me interessa e assim foi.

Fora os "amigos". Nem tenho muitos, mas eles são colecionados baseados em critérios muito rigorosos: conheço pessoalmente; parentes de 1° a 6° grau, incluindo os de vizinhos distantes; foram meus amigos no jardim de infância; estudei com eles no ensino fundamental/médio/superior, incluindo os fdp que nem gostavam de mim; trabalhei com eles no emprego de bosta que tive; dormi com eles, arghhh; vi uma vez em uma festa de relance, mas quis adicionar... É, talvez não sejam tão rigorosos assim, mas eu tinha que adicioná-los porque empilhar gente é poder nessa vida. São contatos, pessoas que fazem volume no espaço infinito da rede.

Dessa gente toda, se tenho contato frequente com vinte delas, é um número bem razoável... As outras todas servem para eu ver que vivemos todos em uma grande mentira cibernética que consome, entedia e vicia tristemente. Hoje, posso dizer com pesar enorme que sou viciada no Facebook e que isso não me traz quase nada de bom. Fiquei viciada em querer saber da vida dos outros, sem que isso represente qualquer benefício para a minha própria.

Talvez haja pessoas que façam bom uso da ferramenta e é bem provável que este não seja o meu caso. É claro que há coisas boas como reencontrar pessoas que não víamos há anos para que elas voltem a ser nossas "amigas" apesar de nunca se preocuparem em perguntar se você está bem ou vivo, mas elas estão ali na lista, porque amigos são para essas coisas! Há os "eventos" em que você pode ir, há as denúncias que você pode compartilhar, há as fotos fofinhas que você pode curtir, há as páginas que se encaixam perfeitamente ao seu estado de espírito e um monte de outras merdas legais. Mas enquanto eu vivo a vida de mentirinha que postam aqui o tempo todo, eu deixo de viver a minha própria lá fora, fora da linha.

O que me fez pensar mais tempo sobre morrer aqui ou não foi o fato de que eu poderia de alguma maneira divulgar o meu blog e para isso, o livro de rostos serve muito bem. Acontece que é mais fácil uma foto de um gatinho dormindo de barriga para cima ter mais curtidas e compartilhamentos do que o que eu escrevo, então não é uma grande vantagem para mim. Outra coisa que também me fez refletir foram justamente as imagens que eu vejo e que me despertam um enternecimento ou dor lancinante. Essas imagens me despertam emoções muito maiores do que as criaturas que passam o dia todo postando coisas estúpidas de autoajuda, autoaceitação e autocaralhoaquatro.

Mas agora, acho que já tomei minha decisão: as imagens que tanto me agradam serão salvas no meu computador para quando eu quiser vê-las e isso é sanado.

Quanto às pessoas, bom, aquelas que amo, respeito, tenho carinho, admiração e contato frequente, elas com certeza sabem que nada muda com a morte nessa esfera, pois o telefone, e-mail, e visitas ainda existem e estão aí para serem desfrutados. Àqueles por quem nutro carinho por terem feito parte da minha vida em alguma época dela, foi bom tê-los reencontrado, mas se não nos "falamos" via chat, curtidas e compartilhamentos, é provável que isso se dê porque hoje não temos mais nada em comum além do laço de amizade virtual que nos une e esse laço há que ser cortado porque não representa evolução na minha vida.

Agradeço a quem tiver lido isso aqui até o fim e será um grande sinal de consideração da sua parte.

Tenho quase certeza que menos de dez pessoas manifestar-se-ão a respeito, o que só comprova tudo o que já disse antes.

A quem fica, vida longa. Parto dessa para uma melhor e mais real, que é a minha vida. Não acredito mais em vida após a morte, mas ela, com certeza, existe após o Facebook.

Mais uma vez, a quem interessar possa, meu nome é Karla Cristina Fernandez Philipovsky Koerich, nasci em Florianópolis, tenho 28 anos, sou de leão e sou sua parente em algum grau, estudei com você em alguma série, fui ou ainda sou sua amiga próxima, dormi com você em algum momento escroto da minha adolescência, fui sua aluna em algum ponto da minha vida estudantil, vi você em alguma festa ou você é amigo de um amigo de um amigo, talvez eu nunca tenha visto você pessoalmente, mas achei que seria legal se fôssemos amigos, enfim...

Paz e luz a todos.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

A sorte


Quando você vive uma infância no meio de mudanças e incertezas de vários tipos, o que você mais quer é saber do futuro; mas não é só saber dele, você quer que ele seja doce, cheio de coisas boas, sólidas e felizes. Acho que foi daí que surgiu o fascínio pelas cartas, oráculos e afins.

A curiosidade,de fato, não brotou de mim sozinha; minha mãe ia a cartomantes e até pagava caro para ouvir o que elas tinham a lhe dizer e, parecia um preço razoável, já que sempre saía dos lugares com alguns bons agouros e outros nem tanto, pois quem já viu a sua sorte sabe bem que tem sempre alguém invejoso que aparece nas cartas; alguém quer roubar o seu dinheiro, o seu homem ou quer lhe passar para trás. A gente vive como consulente e as cartas nos prometem viagens, ganhos inesperados, perdas repentinas e amores duradouros, e acreditamos nisso porque se o nosso presente já é um mar de dificuldades e incertezas, cremos então que o futuro nos reserva algo muito melhor e, com isso, vamos engolindo em seco os obstáculos duros até chegar ao dia da recompensa prevista.

D. Avani era avó de um aluno da minha mãe na escola e era ela que pagava as mensalidades do neto só lendo cartas para pessoas curiosas e em apuros. Era uma senhora magra, de cabelos curtos meio grisalhos e que ia até a nossa casa para ver o nosso futuro. Ela não via a sorte em baralhos ciganos ou coisas desse tipo; via tudo em uma baralho de cartas mesmo, desses que as pessoas jogam fazendo apostas e que só depois de muitos anos descobri que foi o tarô que deu origem a ele e não o contrário. O baralho dela era um grande maço de cartas gastas e gordas de tanto manuseio. Ela lia e via e interpretava. As cartas não mentem é o que dizem. Minha mãe gostava tanto das previsões que vira sua sorte com a senhora umas três ou quatro vezes em menos de um ano. A mulher era boa e recomendada até para familiares com anseios casadoiros. Viu até a minha sorte e olhe que na época eu tinha onze anos e um futuro em branco, exceto pelo fato dela ver que em breve eu ficaria mocinha. Ela previu isso para um ano novo e me alertou para ficar atenta e não sujar roupas brancas.... Minha menarca veio pelos idos de março do outro ano, se não me engano, depois de chegar em casa da escola achando que estava com dor de barriga ao invés de cólicas.

Queríamos tanto saber do futuro, que minha mãe via o dela pelo telefone, porque minha tia tirava as cartas para ela a quase dois mil quilômetros de distância, pagando interurbanos caros, mas que rendiam dias de alívio pelo futuro.

Não sei quando foi, mas minha tia, a quem eu chamava de tia bruxa, ensinou minha mãe a ver as cartas de Lenormand e logo ela me ensinou também e víamos quase todos os dias, como forma de solucionar os nossos problemas. O tarô era uma baliza, nos mostrava o que viria até nós e quem eram as pessoas que estavam ao nosso redor. Ficava guardado na sua própria caixinha e era sobre a cama que dormíamos que o futuro repousava. De pernas cruzadas sobre o colchão ondulado, íamos tirando as cartas, fazendo perguntas, tirando dúvidas e tendo certezas.

A sorte que eu via para ela e a que ela via para mim não era das mais certeiras, mas quando víamos para pessoas de fora, acertávamos muitas coisas. Eu, com doze ou treze anos, fiz amizade com a dona de uma loja de produtos esotéricos do shopping da cidade onde morávamos e lá, comecei a ver a sorte dela e de clientes da loja. Cobrava cinco reais e elas gostavam tanto dos resultados que, em uma semana, cheguei a ganhar quarenta e cinco reais pelos meus serviços. Era aquela coisa: embaralha, corta, embaralha de novo, faz montinhos e vai virando as cartas, de maneira que o panorama se formava em volta da carta da consulente e a gente já sabia se vinham coisas boas ou não.

Nisso, os anos se passaram. Nos consolávamos com as nossas previsões, mas adorávamos as dos profissionais. Eram filas de espera e conversa com outros que esperavam como nós a dizer que o fulano era muito bom, que viu isso, que adivinhou aquilo e transbordávamos de esperanças para saber de toda a glória que nos aguardava.

Lembro de uma famosa D. Lola em que minha mãe fora e que era a cartomante preferida dos políticos da cidade; disse ela que eu engravidaria com quatorze anos e que seria uma grande decepção para a minha mãe. Ela quase acertou, não fossem por quatro anos de diferença. Se acreditasse em todas as cartomantes em que já fui, teria tido uns cinco filhos, porque elas sempre viam muitos deles. Fora aquelas que além de verem as cartas, indicavam banhos com ervas e coisas do tipo. Minha mãe fazia, porque olho grande sempre tinha, ela achava. No mundo da sorte, estamos sempre rodeados por amigos da onça, mas acho que é em qualquer mundo mesmo...

Então, de sortista em sortista, de baralho em baralho, fomos vivendo os anos. Eu já tinha o meu próprio e os amigos me pediam que "tirasse" a sua sorte, e eu dizia que não tirava a sorte de ninguém, via.
Alguns anos atrás, fui à casa de uma senhora que atendia no seu quarto, sobre a sua cama, da mesma maneira que minha e mãe e eu fazíamos. Nunca tinha visto a mulher mais gorda na vida e quando eu fui cortar o monte de cartas ela pegou na minha mão e disse: "Você tem o dom" e eu fiquei de boca aberta porque não mencionei qualquer coisa e ela sabia que eu via cartas. De tudo o que ela me disse, nada deu em alguma coisa, mas só pelo que ela falou sem ver carta alguma, fiquei besta com a mulher. Nunca acreditei que era guiada por alguma entidade ou coisa parecida. Muitas cartomantes se dizem guiadas por espíritos, entidades, ciganas e o diabo a quatro, mas eu sempre segui somente as cartas e o que eu achava que elas queriam dizer.

De uns anos para cá li mais a respeito, aprendi algumas coisas e faz muito tempo que não jogo meu tarô cigano. Até fiz um curso uns dois anos atrás, e a senhora que o ministrava foi outra que disse que eu sei jogar. Ela e uma quiromante me disseram que há uma cigana perto de mim, mas nunca acreditei. Aliás, já acreditei em muitas coisas; hoje estou tão cética com quase tudo que me sinto chata e presa ao mundo real. Pessoas próximas a mim já me falaram que eu deveria voltar a ver a sorte das pessoas, que deveria desenvolver esse lado oculto, que muitos outros que conheci diziam que era um lado ruim, que isso era macumba, bruxaria e sempre achei graça.

Meu mapa astral diz que eu devo estudar essas coisas, pois minha intuição é muito forte e meu lado sensitivo tem que ser explorado, mas como disse, já não acredito mais.

Hoje vejo o baralho não como um oráculo do futuro, mas como um oráculo que mostra o que temos dentro de nós, expressando através das cartas as nossas angústias, perspectivas e desejos. O baralho aflora nosso interior e deixa mais claro aquilo que não entendemos acerca do que nos é mais profundo.

A sorte, o futuro, as reviravoltas da vida estão todos no próximo segundo e nos que vêm depois dele.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pequenina fábula da leoa que se sente pulga


Deveria ser uma leoa, de juba bem cuidada e esvoaçante; daquelas com andar elegante, porte de rainha e fino trato. Deveria ser daquelas leoas que ruge alto sem perder a serenidade ao olhar para savana; daquelas que se movem feito gatinhas para dar grandes botes feito cobras. Deveria ser uma leoa típica como as outras que nascem no inverno dos trópicos, na época das férias da escola e do frio convidativo. Deveria ser como as leoas que são agressivas e generosas; daquelas que olham para o sol, seu regente, e conseguem se ver nas labaredas do fogo astral. Deveria ser magnânima e dourada, como são as leoas, felinas, leoninas.

Deveria ser tudo isso, mas se vê apenas como um bichinho; bem pequenino. Vê-se insignificante, com pernas cheias de teias de aranha, que crescem e formam hematomas. Suas fuças são manchadas e com algumas rugas e pelos que não deveriam estar ali; a pele é flácida e sob ela se encontra amarela camada de gordura que não se queima. Acha que é uma preguiça, mas preguiças são graciosas e têm expressão risonha. Além disso, esses animais preguiçosos são grandes perto dela, que é como um tisco.

Fácil de ser pisada, magoada, trapaceada, feita de boba. Apesar de ver a si mesma como um quase nada, ainda chora quando vê um animalzinho dando a mão para outro que precisa. Ela já foi grande feito pessoa, mas foi se esfacelando com o tempo, até só sobrar o pedacinho. Ela já foi leoa brilhante com todos os seus defeitos e virtudes, mas é que agora sobraram só os defeitos; uma amargurinha aqui, uma grosseriazinha acolá e nisso, ela perdeu todo o brilho que em um dia tão distante já tivera.

A savana foi crescendo e muitos outros animais surgiram e todos eles pareciam mais felizes do que ela. Todos eles parecem mais felizes do que ela, filha de um touro teimoso e ligado a terra e de uma carangueja que anda para os lados e ligada ao mar - ao mais profundo dele, onde ficam as emoções que todos escondemos na nossa essência...

É filha de terra e água, mas não é ela lama suja; é faísca oscilante que quer vida, que quer muito mais do que só fazer coçar como todas as outras pulgas, mas, triste, sente-se pequenina feito uma pulga vulgar que passa pelo mundo despercebida.