quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Pequenina fábula da leoa que se sente pulga


Deveria ser uma leoa, de juba bem cuidada e esvoaçante; daquelas com andar elegante, porte de rainha e fino trato. Deveria ser daquelas leoas que ruge alto sem perder a serenidade ao olhar para savana; daquelas que se movem feito gatinhas para dar grandes botes feito cobras. Deveria ser uma leoa típica como as outras que nascem no inverno dos trópicos, na época das férias da escola e do frio convidativo. Deveria ser como as leoas que são agressivas e generosas; daquelas que olham para o sol, seu regente, e conseguem se ver nas labaredas do fogo astral. Deveria ser magnânima e dourada, como são as leoas, felinas, leoninas.

Deveria ser tudo isso, mas se vê apenas como um bichinho; bem pequenino. Vê-se insignificante, com pernas cheias de teias de aranha, que crescem e formam hematomas. Suas fuças são manchadas e com algumas rugas e pelos que não deveriam estar ali; a pele é flácida e sob ela se encontra amarela camada de gordura que não se queima. Acha que é uma preguiça, mas preguiças são graciosas e têm expressão risonha. Além disso, esses animais preguiçosos são grandes perto dela, que é como um tisco.

Fácil de ser pisada, magoada, trapaceada, feita de boba. Apesar de ver a si mesma como um quase nada, ainda chora quando vê um animalzinho dando a mão para outro que precisa. Ela já foi grande feito pessoa, mas foi se esfacelando com o tempo, até só sobrar o pedacinho. Ela já foi leoa brilhante com todos os seus defeitos e virtudes, mas é que agora sobraram só os defeitos; uma amargurinha aqui, uma grosseriazinha acolá e nisso, ela perdeu todo o brilho que em um dia tão distante já tivera.

A savana foi crescendo e muitos outros animais surgiram e todos eles pareciam mais felizes do que ela. Todos eles parecem mais felizes do que ela, filha de um touro teimoso e ligado a terra e de uma carangueja que anda para os lados e ligada ao mar - ao mais profundo dele, onde ficam as emoções que todos escondemos na nossa essência...

É filha de terra e água, mas não é ela lama suja; é faísca oscilante que quer vida, que quer muito mais do que só fazer coçar como todas as outras pulgas, mas, triste, sente-se pequenina feito uma pulga vulgar que passa pelo mundo despercebida.