quarta-feira, 29 de novembro de 2023

sobre o leite, o peito e a barriga

 Depois do parto, percebi que a vida seria cada vez mais ambivalente. Ao mesmo tempo em que me sentia felicíssima por ver minha filha se desenvolvendo bem, via a mim mesma abandonada; me abandonei por resignação de perceber que nunca mais seria a mesma, por falta de tempo até para lavar os cabelos. Me deixei porque a dedicação tinha que ser a ela; eu tinha medo de ir ao banheiro e de voltar e ela ter morrido, caído, quebrado. Cortei meus cabelos para ter mais tempo. Em mim, só notava os absorventes de seios encharcados e o cheiro de leite azedo. Amamentando, eu logo perdi os quase vinte quilos que havia engordado na gravidez.

Parei de amamentar a Ana quando ela tinha um ano e meio. Aos seis meses houve a introdução alimentar e, depois disso, ao longo do tempo a alimentação foi substituindo meu leite. Meu peito era feito de chupeta, usado na hora da manha, assim como foi usado como cala-boca de neném inúmeras vezes em qualquer lugar que estivéssemos. Bebê começa a chorar, mete o peito na boca. Era o calmante, já que ela não usou chupeta de plástico. Eu era a chupeta dela. Quando pequena, sempre dormíamos juntas, eu dando o peito a ela até que caísse no sono, isso quando eu não desfalecia junto. Para mim, amamentar foi um grande prazer, mas os seios que antes precisavam ser intercalados para que um não ficasse mais cheio e dolorido do que o outro, começaram a não se encher mais de leite como antes. Estavam sendo deixados de lado aos poucos.

Então, conheci meu primeiro namorado pós-maternidade e queria poder restituir algo de mim que não tivesse a ver com ser mãe, com ser a mãe que usa sutiã de amamentação e que tem sempre uma golfada de vômito seco na roupa. Fui ao médico e disse que queria parar de amamentar, já era hora. Tomei um remédio que secou o restante de leite que eu produzia. Naquela época, as minhas condições financeiras começaram a ficar melhores e eu comecei a usar um carro como meio de transporte. Minha locomoção antes se dava a pé ou de ônibus. Não sei se em função dessa mudança, que tornou minha vida ainda mais sedentária – já que eu não praticava nenhum tipo de atividade física e que isso nunca havia sido um hábito em minha vida – paulatinamente, comecei a ganhar peso.

Quando a Ana tinha cerca de quatro ou cinco anos, eu estava pesando mais ou menos o quanto pesei no final da minha gestação. Algum tempo depois, o peso ultrapassava o final da gravidez, ou seja, não havia mais um bebê dentro de mim; eu não estava grávida, mas estava ainda maior do que quando havia. Esse ganho de peso não foi prontamente notado porque eu ainda estava abandonada por mim. Durante o transcorrer dos anos, fui me acostumando, a contragosto, ao que tinha se tornado meu corpo, sem perceber que ele estava crescendo. O fato de conseguir me relacionar afetivamente de novo fez com que isso passasse batido. Sabe o casal que quando se conhece está magro e depois engordam juntos? Foi isso que aconteceu comigo.

A relação mascarou o fato de que todas as vezes que eu olhava para o meu ventre mole, flácido e cheio de estrias, pensava estar “arruinada para sempre”; tinha vontade de chorar, sentia uma tristeza profunda, mas tentava dizer a mim mesma: “sua barriga foi a casa da Ana, sua filha que você tanto ama”. Sim, mas eu também amava a minha barriga de antes e o fato dela ter sido casa da minha filha, não diminuía o sentimento de “puta que pariu, nunca mais serei a mesma” que eu sentia todas as vezes que me via no espelho.

Ainda assim, ter um namorado após a maternidade foi importante para me validar novamente como mulher porque eu, com vinte e um anos, era uma menina com um bebê de quase dois e uma barriga feia. Quem seria o cara de mesma idade que namoraria uma mãe e que ainda tivesse a minha barriga horrenda? – sim, eu pensava isso, então, quando surgiu uma pessoa que conseguia me ver inteiramente, para além do meu corpo e do meu segundo eu, pude me sentir desejada e foi quando, pela primeira vez, depois de tanto tempo, voltei a me sentir bonita.

 (continua...)

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

sobre parir, nascer e morrer para nascer de novo

Quando eu engravidei, tinha só dezoito anos. Naquela época os hormônios estavam borbulhando e eu ainda não tinha consciência de que todo o amor que buscava não viria tendo o sexo como uma moeda de troca. Eram muitas as variáveis: os hormônios, a falta de amor, a busca desesperada e inconsciente por afeto, aceitação; mas não é sobre essa busca que quero escrever neste momento.

Hoje quero escrever sobre como pari um bebê e sobre como pari a mim mesma depois de vinte anos. Durante a gestação, enquanto meu corpo produzia um ser inteirinho dentro do meu útero, eu o vi se modificar de uma forma incontrolável. Quando minhas primeiras estrias apareceram, ainda aos onze anos nos quadris, isso foi atribuído ao estirão de crescimento da idade, porque cresci em altura, mas era muito esguia.

As estrias se espalharam, ao longo dos anos, pelos seios, nádegas, coxas; por todas as partes que poderiam ser objetificadas por um homem e que eu cresci ouvindo que contavam negativamente nos quesitos de beleza feminina. Havia muitas estrias, como se a minha pele fosse uma lagoa calma e transparente refletindo a luz solar em um pequeno balanço de suas águas. Elas estavam ali, eu as via igualmente na minha mãe; meu corpo era igual ao dela. Tínhamos as mesmas formas e eu não a achava bonita; não me achava bonita. Ouvia as pessoas a elogiarem e então conseguia ver beleza nela e daí em mim.

De volta à gravidez, quando a barriga começou a ficar mais evidente, lá pelos seis meses apareceu a primeira estria, assim, sozinha, na região inferior da barriga. Me lembro de ter chorado muito porque sabia que ela não seria a única; sabia que a única parte desejável e intacta do meu corpo seria maculada pela maternidade antes mesmo que ela começasse de fato. Chorei do mesmo modo que chorei quando menstruei pela primeira vez; porque sentiria dores todos os meses, porque precisaria usar um absorvente estranho entre as pernas, porque meu crescimento seria mais lento dali em diante, porque eu poderia engravidar caso transasse sem prevenção, porque, enfim, havia me tornado uma “mocinha”, uma mulher.

Esse primeiro luto vivi entre absorventes ensanguentados e cólicas; entre seios inchados e doloridos e oscilações de humor. O luto de deixar de ser uma menina para, literalmente, de um dia para o outro, precisar me acostumar com uma nova realidade que se impunha sem pedir qualquer licença e sem que eu tivesse qualquer escolha de poder negá-la. Era isso.

Do mesmo modo, uma vez que o bebê estivesse dentro da barriga e pronto para nascer, isso se daria de qualquer jeito. No prazo x, em que a gestação dura 285 semanas, o que equivale a 26 meses – sim, eu sei que não é isso, mas também não são nove meses –, a criança tem que sair. A Ana saiu de mim de maneira diferente da que imaginei, por razões que eu nunca desejei ter que passar, mas mais uma vez, isso se deu à revelia do meu controle, contrariamente aos meus planos infantis de maternidade ideal.

Ela nasceu por uma cesariana. Minha barriga já estava completamente arruinada pelas estrias, mas naquele momento, depois das lágrimas derramadas pelo aparecimento da primeira, as demais não pareciam tão importantes. Eu estava preocupada em não morrer; eu tinha certeza de que morreria. Nunca tinha feito uma cirurgia na vida e, de repente, na última consulta com o obstetra, fico sabendo que teria que fazer uma cesariana no outro dia. Assim, sem qualquer preparo emocional, como seria se a minha bolsa tivesse rompido a qualquer tempo, mas teria sido por vontade da Ana, pelo tempo certo de nascer, pela vontade dela que ela sequer sabia que tinha; teria sido pelo meu corpo avisando que funciona perfeitamente e que a encomenda estava pronta para ser entregue. Mas não foi.

Ela veio. Mas antes dela chegar, já falei que achei que ia morrer? Estava tão nervosa que sequer senti a agulha enorme da anestesia entrando nas minhas costas. Logo estava deitada na maca estreita enquanto não sentia qualquer dor, mas sentia que mexiam na minha barriga. Eu olhava praquela luz branca que vinha do teto. Ela refletia a minha barriga aberta, mostrando tudo o que o lençol azul na minha frente me impedia de ver. Olhei para outra direção e sentia como se o médico estivesse sentado sobre o meu peito. Não tinha forças para puxar o ar e encher os pulmões. Me queixei à equipe, disse que não conseguia respirar. Colocaram uma máscara de oxigênio sobre meu rosto. Me senti ligeiramente menos pior. Os médicos estavam ouvindo rádio, a narração do que parecia ser um jogo de futebol. Eu nem gosto de futebol; eu não queria que meu parto parecesse a coisa mais corriqueira da vida como pareceu a eles; mais um parto. Era o meu parto, mas ali, com dezenove anos, não tive qualquer ingerência sobre ele, sobre nada.

A única coisa sobre a qual pude opinar naquele momento foi sobre a beleza de um ser que acabara de ser parido. Quando retiraram a Ana de dentro de mim e a trouxeram para perto do meu rosto para que eu a visse, disse: “como ela é feia”. Eu disse a uma neonata coberta de sebo e sangue que ela era feia, tamanha a minha sordidez materna.

Quando me levaram para o quarto, fui orientada a não falar porque falar me daria gases; algo a ver com a anestesia. A vulnerabilidade começou por sequer conseguir me levantar da cama para ir ao banheiro. A enfermeira deixou no quarto uma “comadre”, um penico de aço inoxidável, que gelado no contato com a pele, me lembrou mais uma vez de que eu não tinha escolha. A anestesia passaria e eu sentiria dor. Eu sentiria dor e não poderia me recuperar dela descansando.

Eu havia acabado de passar por um processo de mitose e não era mais uma só; agora eu era duas e o buraco por onde saiu a segunda era grande, profundo e doía; mesmo assim, eu tinha que cuidar da segunda eu, da que saiu de mim, porque sem mim, ela sucumbiria. Às vezes é nessa hora que nasce a mãe porque ela enfia a sua dor física do corte de sete camadas de pele no cu pra começar o intensivo da maternidade em tempo real, com o segundo eu se esgoelando de fome porque é assim que é. A vida já nasce demandando porque se não demanda, morre.

Mas antes que começasse a chorar, ela estava calma. Foi assim que chegou no quarto. Estava limpa e vestida; tinha luvinhas nas mãos para proteger o rostinho das unhas afiadas e finas que tinha e que já haviam deixado inofensivos riscos naquela pelinha. Eu pude olhá-la com tranquilidade e me apaixonei imediatamente. Os hormônios fizeram o seu papel. Eu a achei linda! Fiquei embasbacada com a beleza dela; fiquei orgulhosa de mim mesma por ter feito uma filha bonita. Ela ainda estava amassada da viagem, ainda tinha “cara de joelho”, mas era o joelho que meu corpo havia produzido sem que eu tivesse qualquer controle sobre qual seria o seu grau de perfeição; e ela era perfeita.

Nos primeiros dias, andava curvada e o plano de manter o bebê no berço sempre que possível, logo passou para “ela vai dormir comigo na cama de solteiro porque dói demais levantar cinco vezes por madrugada”. Logo eu, que sempre tive o sono tão pesado, neurei com a possibilidade de dormir e esmagar minha filha durante a noite. O sono ficou leve, atento, vigilante.

Com mais de um mês do parto, minha barriga ainda parecia carregar um bebê dentro dela. Era o corpo se reacomodando. Ventre inchado e murcho ao mesmo tempo. Não tão pleno quanto aos nove meses, não tão plano quanto antes da gestação. Olhava para o espelho e não me reconhecia. Não era a Karla de antes da gravidez, tampouco a Karla grávida; era uma terceira: a Karla mãe recém-formada; mãe recém-nascida, saída da maternidade junto com o neném, com o segundo eu.

Depois da aflição com as mudanças na barriga que não me levariam a nenhum lugar visto que eram uma realidade imutável impressa no meu corpo, passei a notar mais meus seios que se tornaram fonte de alimento e saciedade do meu neném. Sempre tive os seios fartos, que produzindo leite ficaram ainda mais volumosos, com veias azuis protuberantes, mamilos mais escuros e maiores. Eu já tinha nutrido meu segundo eu dentro de mim, enquanto ainda éramos duas em uma. Agora meu corpo produzia alimento para fora, para garantir a existência do que já não fazia mais parte de mim, mas ainda era eu por extensão.

Ana mamava como um pequeno bezerro e gozava de satisfação revirando os olhinhos até desfalecer em meu braço. Eu gozava de satisfação de alimentar minha filha de mim. De ver que o humano sustenta a si mesmo de si mesmo; que eu a alimentava e me retroalimentava. Eu não sabia então, mas agora sei que me sentia invencível, me sentia como deus. Criando a vida e sendo capaz de sustentá-la. Apaixonada pela própria criação.

Minha libido se voltou inteira para mim fora de mim. Não me preocupei mais comigo. Era ela o foco. Eu era a mãe com a barriga meio murcha e cheia de estrias, a terceira versão de mim mesma, e ainda tinha só dezenove anos.

 

(Continua...)