segunda-feira, 17 de julho de 2017

Sobre ser mestra de mim mesma

Faz muitos anos desde que comecei a me perguntar qual era o sentido de tudo isso; quem eu era; o que eu estava fazendo aqui e por que me sentia do jeito que me sentia. A grande resposta para tudo isso é que eu precisava me conhecer, preciso ainda, e devo continuar precisando até o último dia. A diferença, agora, é que sei como fazer isso.

Pulando dentro de mim mesma, bem no fundo, tão fundo que ainda não faço ideia de quão longe posso ir. Sabe, grandes dimensões, enormes espaços, largos caminhos, tudo dentro de você mesmo. Mais ainda: dentro de toda a nossa limitação física, todo um universo infinito e coberto por uma mantinha de plush, quentinha, em que a gente se agarra quando sente medo, que a gente usa pra cobrir os olhos quando não quer ver alguma coisa nossa, guardada no armário escuro em que guardamos tudo o que não conhecemos; e a gente não conhece é a gente mesmo.

É a gente que fica guardado nesse lugar. A gente se guarda da gente.

A gente não quer se ver de verdade. A gente se esconde pela necessidade criada de atender às expectativas que o mundo coloca sobre os nossos ombros, que vão afundando as nossas verdadeiras habilidades, o nosso verdadeiro ser.

Tô só começando, mas não estou com medo. Serei mestra de mim mesma, mas também o serei academicamente, porque contrariando toda a minha falta de confiança, passei no mestrado.

Se eu achava antes que o mestrado era só para alguns poucos iluminados, então, estou eu, também, no caminho de Buda.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sobre andar de bicicleta

Estou indo para o trabalho de bicicleta, porque agora moro perto da universidade; menos de 1km. Vou porque, em mais ou menos metade do caminho, tem ciclovia e, na outra metade, eu ando pela calçada e atravesso poucas e curtas ruas. Vejam: não sou uma pessoa super confiante na bike. Eu não ando de bicicleta como se ela fosse um meio de transporte que pudesse me levar a qualquer lugar, não. Eu ando nela como um meio de transporte para o meu trabalho e distâncias similares, desde que não precise atravessar rodovias, subir elevados, andar por onde não haja calçadas... coisa simples e tudo isso por alguns motivos básicos: andar de bicicleta cansa, me faz suar, não tenho a melhor coordenação motora do mundo, nem o melhor preparo físico; além disso, tenho medo de ser atropelada; minha bicicleta não tem o freio direito e o esquerdo é ruim; os pneus estão carecas e não tenho um retrovisor... todos esses fatores me levam a andar bem na manha, mas eu juro que estou me planejando pra levar a bike pro conserto; só que como ele fica a uma distância superior a qual me sinto capaz de ir e passa por obstáculos que eu não me sinto segura para transpor, ainda não a levei, pois o farei de carro: vamos eu e ela no carro, em algum dia da semana que vem.

Agora, um pequeno balanço dessa nova rotina: antes, eu demorava uns 25 minutos pra chegar no trabalho porque tenho andado muito lenta ultimamente, e já chegava lá vermelha feito um camarão e fedida, suada, cansada, uó!

No primeiro dia de bicicleta, quando éramos ainda menos íntimas, eu subi nela e desembestei pedalando com os caralhos sei lá por quê; cheguei no trabalho em cinco minutos. C-I-N-C-O minutos! Foi muito rápido! Vento no rosto, fresquinho gostoso, mas as pernas já quase desistindo de pedalar, porque uma falta de preparo é uma falta de preparo! Deu uma canseira nas coxas e senti como se tivesse feito uma sessão de agachamento com a Gracyanne Barbosa, mas okay, foi gostoso, quase não molhei os sovacos de suor, então tava tudo certo. Fiquei bem felizinha!

No segundo ou terceiro dia, não lembro bem, voltando pra casa, tive que parar pra atravessar uma ruazinha dessas que eu disse antes que atravessava, mas então eu vi o carro, fui freando muitos metros antes porque a minha amiga não para em cima das coisas, ela vai parando, mas não para efetivamente, sabe?! Daí, além do carro, havia um pessoa pelo caminho e eu me embananei toda e, pra parar e desviar, acabei me segurando em um totem de metal que arrancou uma lasca do meu dedo, que começou a sangrar na hora. Nossa, doeu demais! Puta merda! Cheguei em casa com o dedo latejando e um pouquinho traumatizada. Não tava felizinha.

Com o passar dos dias, eu fui ganhando um pouco de confiança pra subir a rampinha que dá acesso ao prédio em que eu trabalho. Não é uma rampa reta, você precisa fazer uma curva bem fechada com a bicicleta pra subi-la. Na primeira vez, quando chegou na curva, eu desci da bike. Na segunda vez, eu dei uma virada no guidão e ela pareceu o suficiente para conseguir fazer a curva! U-huuu! Me achei a super profissional - a mesma que por anos só conseguia andar em linha reta. Na terceira vez, u-a-u, parecia que eu estava me aperfeiçoando no negócio! Impressionante! Parabéns, Karla!

Daí, na quarta, me fodi. Virei o guidão, só que de mais, a bicicleta caiu e eu caí por cima dela. Ralei o joelho, meti o guidão na coxa, que ficou instantaneamente roxa, bati o outro joelho, que ficou preto no outro dia, e mais uma vez, fiquei triste, tristinha, xinguei um monte e um carinha tirou a bicicleta do meio do caminho enquanto eu praguejava a bicicleta e a mim mesma. Essa foi a queda mais dolorida até agora - espero que não haja outras.

Agora a parte mais nojenta e asquerosa. Só de lembrar já começo a tremer toda, uix! Quando eu chego no estacionamento do prédio aqui da universidade, passo por um caminho com seixos e uns matinhos e talz. Venho eu, toda de boa, de sandália por causa do calor, pedalando lá lá lá, quando sinto uma coisa gelada no meu pé esquerdo. No primeiro momento, imaginei que fosse algum mato molhado que tivesse grudado no meu pé e, então, eu olho pro meu pé e realmente parecia, um mato comprido, seco, marrom escuro, grudado nele, mas eu não vi perfeitamente porque não tenho a habilidade de conseguir andar em linha reta olhando pra baixo, daí olhei de novo e vi que tava se mexendo ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, coisa mais nojenta!!!! Parei a bicicleta na hora e vi que era um verme, com uns 15 cm, brilhante, tipo uma sanguessuga magra e comprida grudada e se mexendo na porra do meu pééééé! Ah, caralho! Que nojo! Me tremia toda, gritava histericamente até que tirei aquele bicho de mim com o controle do portão, que eu segurava na hora. Foi  H-O-R-R-Í-V-E-L!!! Pior história de bicicleta ever!

Mas então, sobre andar de bicicleta, tenho a dizer que este último mês, no qual vivi todas essas experiências felizinhas e essa última traumática - fora cair em cima da bicicleta na garagem algumas vezes -, me fazem perceber que eu realmente odeio com todas as minhas forças ficar suada quando esse não é o objetivo da atividade, mas que a bike quase não me faz suar, além de servir como uma capa mágica que me impulsiona pra frente com velocidade fazendo o ar correr tão rápido quanto eu, me refrescando, me cansando, mas também me deixando feliz, melhorando a minha coordenação, meus reflexos, minha visão de rabo-de-olho e o aumentando o bronze nos meus braços.

Andar de bicicleta tem sido uma ótima experiência e me faz lembrar de quando eu era pequena e nem conseguia ficar em cima de uma sem cair. Não tinha qualquer equilíbrio... ainda bem que o tempo passa e junto com as quedas e os roxões vem a habilidade de conseguir se manter em cima, apesar das ruas para atravessar, apesar dos vermes que grudam nos nossos pés, ai ai.