terça-feira, 7 de agosto de 2012

Te direi quem és

Dizem ainda hoje, mas isso já vem há alguns milhares de anos, que gatos são seres muito especiais; neutralizadores de más energias, deuses, protetores, superiores e afins. Apareceram na minha vida quando eu ainda era muito pequena e, mantêm-se nela até hoje, mas agora vistos sob uma ótica que minha cabeça sempre avoada nunca fora capaz de perceber, apesar da convivência diária com os pelos e miados... Eis que certa pessoa me diz um dia que os gatos que tenho aqui em casa não são nada além de um alter-ego meu; na verdade, dois; Marte e Marta, de acordo com ele são a representação dos meus lados masculino e feminino, bem aqui, passeando pela casa e esfregando o que sou na minha cara todos os dias, por quase dois anos, sem que percebesse que eles são como eu.

Depois do choque, vi como as coisas se encaixavam.

Marte, meu lado masculino, deus da guerra, colérico, negro como o que não tem fim, mal-humorado como os velhos mal-amados, impaciente, gordo e sedentário, faminto e calado, vingativo e isolado; destemperado, retraído e nunca muito acessível a ser amado, tocado e acolhido, a menos que parta dele próprio a vontade de assim o ser. Ele dorme o dia todo, como todos os gatos, mas seu sono imiscui-se ao meu, tornando a nossa fuga muito mais agradável através de seus pelos pretos que se soltam sobre o chão, sobre os tapetes e as cobertas.

Marta sou eu feminina e, mesmo nisso, há o Marte junto. Curioso é que pesquisando sobre Marta, descobri que esse é o nome de um animalzinho muito simpático, parente das doninhas e que faz parte do gênero Martes (!) e, vejam, vocês, assim como a parente selvagem que é curiosa e facilmente atraída por qualquer coisa que brilhe, assim também sou eu; do espalhafato, do brilho, da purpurina. Além desse bichinho, Marta também é um nome bíblico e de acordo com algumas fontes, quer dizer dona de casa, senhora da casa e esse significado não poderia ser mais propício para nós duas.

A gata é delgada, rajada e elegante. Tem olhos brilhantes e miado entusiasta. Anda pela casa atrás de todo mundo, especialmente da Ana, no que ouso dizer que a gata a vê como uma filha também, porque está sempre atenta ao que a menina faz. Além disso, fala como uma comadre sem papas na língua. Às, vezes, estamos nós humanos conversando, quando surge alguma pergunta derradeira, a qual a felina metida sempre  responde com um sonoro NÃO. Ela manda e desmanda, sempre afofando as cobertas, subindo nos meus ombros como um papagaio de pirata, ronronando nos pés da cama, exigindo comida nova e água fresca, confortando com seus olhos de ouro nossas cabeças que carregam o mundo dentro de si.

Ela é simpática, sociável, leve e preocupada com o bem-estar de tudo o que a cerca. Se me deprimo, durmo; se durmo, sei que logo eles virão para me acompanhar na solidão. Se bagunçamos a casa, logo estão eles juntos a comer caixas, derrubar água e a correr sem parar com suas unhas tilintando pelo assoalho e tornando nossas noites ainda mais miseráveis. Se há portas fechadas, mandam os dois peludos que elas sejam abertas, ao seus interesses e necessidades. Se há frio, aconchegam-se em nossos colos ao seu bel prazer e se estamos receptivos ou se percebem a falta em nossos olhos, vêm como seres cheios de luz e compaixão e nos presenteiam com carinhos amoráveis de cabeça contra toda a nossa matéria. Liquefazem-se em pelos macios, como mãos aprazíveis que nos tocam não só a pele, mas também o coração, enchendo-nos de amor desinteressado, que é o amor mais puro que há, já sabem disso os humanos.

3 comentários:

  1. Acho que tu tás amando de verdade os felinos. Ah, a ailurofilia! Diante do que tu escreveu, me permito dizer que és uma sortuda por ter descoberto este amor pelos gatos!

    Tenho uma gata de 16 anos, minha Preta inseparável. Quando eu estou triste, ela se aproxima mais do meu rosto e deita perto dos meus ombros; quando estou feliz ou estável, deita sobre minhas pernas; quando quer sair do meu quarto depois de uma madrugada de sono pesado, passa a patinha com aqueles gominhos geladinhos na minha bochecha.

    Agora que ela é uma senhorinha, se move lentamente, mas a personalidade... igualmente forte e ligeira... ou mais ainda! Conviver com ela 16 anos é um presente muito precioso e agora com a nova gatinha de 3 anos em casa, sapeca, rápida, ágil, gordObesa (!), me faz ter a certeza que a Preta continua reinando mesmo com sua velhice. Com olhar desconfiado, passa ao lado da nova gata com o pescoço ereto, nariz erguido. Faz questão de mostrar que tem outros olhos na nuca. Ao mesmo tempo que se mostra superior, muitas vezes esquece da superioridade e nem percebe que a nova gata tá ali, dividindo o lugar com ela.

    Ambas tem um pouco de mim. A Preta é o que eu sou por fora: brava, impaciente, desconfiada, temperamental. E a Safi(ra), um pouco carente, manhosa [quem não é e faz questão de esconder, né?)

    Como é bom ter gatos, COMO É BOM!

    Beijo pros teus!

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  2. ah, sim! ando tendo acessos de amor com a Marta e ela comigo. fica ela se esfregando em mim e eu a enchendo de beijos. quanto mais eu a beijo, mais ela se enternece em mim e assim ficamos. =)

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