segunda-feira, 20 de julho de 2026

sobre o primeiro aniversário em que não estás

hoje é o dia em que cheguei mais longe na vida, o dia em que tenho mais idade. hoje é o dia em que mais estou perto da morte - todos os dias são assim. mais um, menos um. No mês passado, fez 25 anos que meu pai morreu. agora, meu irmão mais velho tem a idade que meu pai tinha quando morreu; 58, a mesma idade, mas ele é mais jovem que meu pai. hoje é aniversário da minha mãe, o primeiro em que ela não está aqui, nesta terra. ela faria 66 anos. não chegou. ficou tão perto entre o chegar mais longe e chegar o dia, o último. 

na sexta-feira é, então, o meu aniversário. farei 42, o primeiro como órfã de pai e mãe. é a constatação inescapável de que a vida segue, eu vejo que segue. me vejo no espelho todos os dias. um pouco com amor, um pouco com raiva, um pouco com pena. vejo o tempo alojado debaixo dos meus olhos, nas rugas muito finas que foram salgadas tantas vezes pelas lágrimas que me escorreram, um pouco por amor, um pouco por raiva, um pouco por pena.

sinto um pouco de amor pela criança que fui e que acreditava que ser adulto que era bom; sinto um pouco de raiva da adulta que me tornei porque levei tão a sério o projeto de não ser mais criança, que deixei a menina sozinha, no escuro das minhas dobras, por tanto tempo… e por isso eu sinto pena de mim, um pouco de pena.

quando foi que nos tornamos algo tão distante de qualquer sonho de criança que possamos ter tido? todas as vezes em que evito, em que me proíbo de vir aqui e escrever essas coisas todas porque começo a chorar, quem é que chora? por quem é que choro? choro pela menina que fui, mas que ainda resiste quieta aqui dentro. choro de amor, raiva e pena de meus pais por terem sido quem foram, porque sabiam e não sabiam, porque fizeram e não fizeram, porque eram humanos, faltosos, fodidos. mas e não somos todos assim?

hoje é o dia em que cheguei mais longe na vida porque é aniversário da minha mãe e ela não está mais aqui, mas eu estou. completo mais um ano cheia de dúvidas, de dores, de faltas, mas parece que com um pouco menos de raiva de quem me trouxe pra cá. a pena acho que só consigo sentir mais vividamente porque o sofrimento cotidiano acabou pra mim. sobra um amor que vem numa lufada quente em meu peito, que aquece os meus pés, que me conforta. te abraço todas as noites, mãe, quando sinto o calor da minha cama e volto pra dentro de ti, quando era você que me continha, quando eu ainda era parte de ti.

hoje sou parte tua solta no mundo, sou o que sobrou de ti, sou o que dei conta de fazer com tudo o que você e meu pai me deram, mas também e, talvez, especialmente, com o que deixaram de dar. acho que o mais difícil é conseguir dar destino pra todo esse vazio que me compõe. em cada pedacinho que há, há um pedaço que não há, que não está, que não é. como é que se preenche isso? eu me pergunto, enquanto respondo preenchendo este espaço com o que tenho em mim, e existe algo; aqui está.

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