quinta-feira, 14 de maio de 2026

sobre os buracos salpicados de açúcar

 estou me sentindo estufada. à tarde, fiz meu lanchinho com duas fatias de torta de frango e dois pedaços de brownie com geleia. mas não achei que tinha sido o bastante e, depois de procrastinar meu trabalho, fui de novo à cantina. comprei um pão de queijo que estava muito gostoso e um rocambole enorme por 15 reais. lá dizia: ninho e frutas vermelhas. a aparência era instigante, porque mesmo parecendo bem feito, tinha algo nele que passava a impressão de que não era bom. ledo engano, a qualidade era de confeitaria boa, feito com bons ingredientes e fresco. uma verdadeira delícia. comi cerca de um terço da embalagem e já me sentia mais do que satisfeita, cheia era a palavra. ainda assim, quando cheguei em casa, mantive o restante do doce na minha lancheira para que o Fabrício não o visse e eu achasse que o estava enganando - nem a mim mesma consegui. quando fui levar a Cindy pra passear, passei no armazém e comprei mais seis pães de queijo. na volta, comi tudo. os pães, o doce, empurrei cada colherada e cada mordida pra dentro com o misto de prazer e empanzinamento. sentindo o doce e a miserabilidade. sentindo a satisfação e a culpa. sentindo que não valho nada e que me odeio, mas que a minha punição tem que ser açucarada e perpétua, porque não há um só dia nessa vida em que a vida, pra prosperar, não precise de comida.

a comida tem sido um consolo, desses rápidos, feito videozinhos de 30 segundos de rede social, dos quais também tiro alguma satisfação, momentânea, claro, porque a vida no geral é só a sucessão de acontecimentos repetitivos que constituem uma massa de tempo que é majoritariamente composta por estresse, contas a pagar, performance, frustração, rejeição, dor, perdas, gente filha da puta e toda a sorte de desgraças que pode haver.


eu juro que gostaria de ser uma pessoa mais positiva, mais otimista, que consegue enxergar um propósito quando uma grande merda acontece, mas eu realmente acho que às vezes as merdas só acontecem, e nada de bom se tira disso porque a vida não é um episódio de He-man, em que sempre havia uma lição de moral no final do desenho. o que aprendemos hoje, amiguinhos? aprendemos que é preciso imaginar Sísifo feliz. é preciso rolar a pedra morro acima todos os dias. é preciso lavar a louça todos os dias. todo dia é dia de recomeçar de onde paramos.


é preciso abstrair a emergência climática, a iminência de uma guerra nuclear, o crescimento exponencial da violência contra mulheres, crianças e animais, as desigualdades que a porra do sistema capitalista no enfia goela abaixo, a chance de voltarmos a ser governados por um energúmeno fascistoide; é preciso abstrair tudo isso pra entregar relatórios que já foram entregues no ano passado, pra manter a casa limpa, pra cuidar dos bichos que são como filhos, pra poder pagar as contas, pra de algum jeito a gente fingir que não vê as notícias, que não fala sobre política porque não gosta, porque se eu não sofro direta e imediatamente com algo que está acontecendo no mundo, então isso automaticamente não me importa. hahaha, vamos ser felizes!


eu tenho meus bons momentos, mas felicidade, aquela ampla, geral e irrestrita, é difícil, viu? talvez eu só precise me conformar de que essa sensação eu só sentiria se todos fossem, mas daí é querer demais, né? todo mundo é muita gente. daí, diminuo o desejo e direciono ele só pra mim. se for pra fazer só a mim mesma feliz deve ser mais fácil, né? eu me mando, eu tomo as decisões da minha vida, eu me governo. isso aí! eu tenho livre arbítrio e ninguém vai me dizer o que fazer!


é, eu penso isso todos os dias quando tento retomar algo em que fracassei no dia anterior, tentando me convencer de que sou uma guerreira destemida! quase sinto vontade de subir uma montanha com um bando de pau mole pra ver se me sinto tão poderosa quanto eles. mas aí caio na real de que o livre arbítrio é só conversa de quando a gente joga algo na cara de alguém que fez algo que condenamos e dizemos: mas foi uma escolha sua, você fez porque quis!


caralho, se eu pudesse escolher tão livremente quanto a ideia de escolha é vendida, eu venderia cursos sobre isso e estaria sendo honesta, mas veja, a gente decide muito menos de maneira consciente do que gostaria de admitir. eu, boa parte das vezes, sou assujeitada por mim mesma, por aquele mim que me governa e por aquele eu que me condena. fico aqui, como sujeito oculto no meu corpo, tentando dar conta das vontades e das tiranias que me perpetuo diariamente.


isso aqui está uma zona, mas tudo bem, aqui dentro - dentro da minha cabeça e das minhas entranhas -, também é desse jeito. um tanto desorganizado, um tanto sem sentido, e pode ser que não faça nenhum pra você, paciência, a performance deixo pros momentos inescapáveis. agora tô aqui escrevendo, em vez de enchendo o rabo de comida - até porque já comi demais por hoje. isso aqui é uma tentativa de digestão, de usar as palavras como suco gástrico que vai dissolver meus males e fazer com que eu consiga dormir bem, me sentindo um pouco menos pior.


hoje voltei ao meu psiquiatra, depois de dois anos. só ontem me dei conta de que o meu excesso de procrastinação poderia se dar simplesmente em virtude de eu não querer. não querer ir, não querer fazer, não querer assumir. não quero porra nenhuma. todos os dias quando o despertador toca, eu gostaria só de voltar pro vácuo de onde eu vim, pro estado inorgânico, pra não existência, daí me ocorreu que a distimia poderia estar dando as caras novamente. fui logo atrás de resgate. já tomei uma baga hoje, meia baga, na verdade, pro corpinho se reacostumar com a química.


o maior paradoxo pra mim é o desejo da não existência, enquanto tenho profundo pavor de morrer porque não quero deixar de existir. 


viver não é preciso.


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