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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sobre ser mãe

Ter um filho é algo que muda as perspectivas da nossa vida. É bom? Sim. É mágico? Muito. Se eu teria outro filho? Não. Não, porque um filho envolve muito mais do que a visão de um pequeno e indefeso ser com cheirinho gostoso. Um filho envolve muito mais do que as condições necessárias para criá-lo; um filho envolve muito mais do que o desejo de ser mãe, muito mais do que desafiar a sua sanidade mental e colocar o controle da sua vida fora de você mesmo.

Imagine você, senhora da sua vida e do seu destino; agora, imagine-se com um filho. Pronto, você não tem mais controle, sua vida não é mais sua, sua vida agora é duas; a sua e a dele, sendo que sem ele, você não vive mais, não plenamente, não como antes, e um dia você não poderá mais dizer a ele o que fazer e como fazer. O filho vai viver a vida dele, e pode até se desligar de você, mas você... Você estará para sempre ligado a ele.

Durante nove meses eu fui o abrigo seguro e aconchegante que nutriu uma menina e fez com que ela se desenvolvesse perfeitamente. O que eu ganhei? Além dos seios caídos, das estrias por toda a parte e da barriga murcha e vazia, ganhei um título: o de mãe. Sonhava com ele só quando era criança, quando ter um bebê parecia encantador, parecia a mais nobre de todas as funções que uma mulher poderia ter.

Filhos são para a vida toda, mesmo quando se vão, mesmo quando somem, mesmo quando morrem.

Crianças demandam atenção, tempo, amor, disciplina, educação, afeto, colo, conforto, paciência, disposição; filhos exigem tesão! Tesão para acordar de três em três horas, e ouvir o choro da fome que não consegue ser expressado de outra forma, por enquanto. Tesão para parecer que você está de mudança cada vez que sai de casa carregando uma sacola enorme com fraldas, pomadas, lenços, paninhos, mudas de roupa, mamadeiras e chupetas, fora os brinquedinhos, ah, os brinquedinhos que acalmam...

Você tem que ter muito tesão para lavar as roupas de um bebezinho à mão, dar banhinhos gostosos, ninar, levar ao médico e quase morrer de dor no coração quando percebe que ele chora e que você já fez de tudo para que ele parasse, e ele não para, mas ele também não consegue dizer o que está errado, e depois de algumas horas de desespero ele cede, dorme nos seus braços de maneira angelical, e é só então que você consegue descansar.

Você tem que ser sábia e uma sábia com muito tesão para aprender a decifrar o pequeno ser, cheio de segredos, os quais você vai passar vida inteira tentando descobrir, sofrendo para descobrir, achando, com toda a sua arrogância de mãe, que já sabe de tudo. A gente sabe sim, mas é longe de ser tudo.

Nunca conseguiremos passar da porta da morada de nossos filhos, pois eles são muito mais do que nossa extensão, eles são o que são, são eles mesmos.

Minha filha me trouxe uma nova dimensão de vida, mesmo que eu não me dê conta disso muitas vezes. Ela ma traz todo o tipo de alegria; das únicas, como aprender a andar e a comer sozinha, até as mais prosaicas, como os desenhos lindos, o amor aos bichinhos, as risadas, os dentes que caem, e ainda há tantos por cair...

Minha filha ainda me deixará acordada durante a noite, morrendo de preocupação sem saber se ela está bem enquanto sai com os amigos; ela ainda vai me deixar de cabelos em pé pela rebeldia da adolescência; ainda vai me dar alegrias pelas suas conquistas, e vai chorar no meu colo pelas desilusões da vida que serão novidade para ela...

Pois ter um filho envolve muito mais do que ter alguém sob a sua égide, envolve você. E eu sou egoísta, sim, eu sou. Ter uma filha mudou tudo, mudou a minha vida, o meu corpo, o meu jeito de pensar e de agir, mudou os meus planos e minhas prioridades.

Não sou mais a mulher que era, porque hoje eu sou mãe. Antes dos meus desejos, eu sou mãe; antes de sair de casa, eu sou mãe, e preciso de alguém que tome conta da minha filha; antes de ser mulher, eu sou mãe, meu corpo não é como antes; sou mãe e sou imperfeita, sou mãe e não me sinto desejada, sou mãe.

No ventre, a cicatriz me diz que eu vivo fora de mim, o corpo flácido me diz todos os dias que eu sou mãe, mas ora ou outra ainda me surpreendo ao ouvi-la dizer a palavra “mãe”, sou eu. A mãe impaciente, brava, que acorda no meio da noite com o grito de desespero da menina que clama por ela, quando de súbito acordou e vomitou por todo o quarto. Eu sou a mãe, que orgulhosa, chora nas apresentações do colégio. Eu sou a mãe que, ouve contrariada, as reclamações que ela faz sobre mim. Eu sou a mãe que quer dormir até mais tarde nos finais de semana e espera não ser incomodada pelo seu pequeno “eu” que exige atenção aos seus novos feitos.

Eu sou a mãe que quer desistir de tudo às vezes, e que quando se sente muito sozinha, só tem vontade de abraçar, chorar e soluçar agarrada à pequena menina, que parece mais adulta do que eu mesma.

Eu sou a mãe que morre de medo de perdê-la e que jamais se perdoaria se alguma coisa ruim lhe acontecesse.

Ter um filho é viver um sem número de emoções boas e ruins, é ter vontade de colocá-lo de vez em quando no guarda-roupas e esquecê-lo lá por uma semana; ter um filho é sonhar com ele de saudade, é sentir o silêncio corroendo a casa vazia; é querer que eles não cresçam nunca, mas que cresçam logo.

Ter um filho é muito mais do que quem não tem um filho possa imaginar. E é por serem tão especiais que não devemos tê-los assim, a torto e a direito, de qualquer jeito, só para nos perpetuarmos, devemos tê-los conscientes de que nunca mais teremos paz, e de que da felicidade deles, depende a nossa.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Karla = Márcia + Carlos

Sou a junção dos dois, do melhor e do pior.
Karla é o resultado, hoje, de 24 anos de experiências múltiplas, felizes, tristes, frustrantes, difíceis, arrependidas, sábias... Karla é o resultado de tudo pelo que passou.
Karla ainda busca sua participação especial nesse mundo. Conta ainda com a idéia de ser chamada para fazer a diferença. Pensa nisso desde a infância, esperando o dia em que alguém fosse olhá-la e estendesse-lhe a mão.
Ainda busca a aprovação do outro para existir.
Espera ser salva e resgatada porque seu pai não estava lá, e sempre foi assim, ele nunca veio, e nunca virá. Nem ele, nem qualquer outro homem.
Um senhor de cabelos brancos e barrigudo, como o seu pai, foi o que sempre esperou. Queria que essa pessoa chegasse e lhe dissesse que tudo estaria resolvido, que ela não deveria se preocupar com mais nada.
Mas no fundo, sempre soube que nada disso existia...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Temos algo em comum?

Estive pensando sobre filhos, sobre pais, sobre quem somos. Somos realmente parte uns dos outros. Acho que não pensamos muito a respeito quando somos filhos. As coisas parecem bem naturais, e não haveria de ser diferente, mas quando nos tornamos pais é que percebemos com clareza o poder que temos de viver um pouco mais através dos nossos filhos.
Eles, literalmente, são um pedaço de nós, um pedacinho moldável, cheio de potencial, em quem colocamos muitas expectativas.
Esperamos sempre o melhor para este novo ser, este novo EU, que não sou eu, que se formou de um pequeníssimo pedaço meu, mais o pequeníssimo pedaço de outro.
Outro dia ri sozinha quando a ouvi dizer “mãe”. Grande coisa, já ouvi isso algumas milhares de vezes desde que ela aprendera a falar, e mesmo assim, eu ri, e por um segundo pensei nela, e no que é ter um filho.
Ser pai é finalmente acreditar na vida, na continuidade, e ver nos nosso filhos muitas ações, atitudes, vício e virtudes que vemos em nós mesmos.
O que não gostávamos em nossos pais, esforçamo-nos para que não se cristalize na gente, e por mais que combatamos, sempre carregamos algo deles conosco. Coisas boas e ruins, por vezes escondidas da nossa consciência, na tentativa de negar que carregamos o que mais odiávamos neles.
Um dia as crianças também tentarão se livrar das “amarras” que colocamos nelas sem qualquer má intenção.
Bons pais não têm más intenções para com seus filhos, têm somente amor, e um enorme medo de falhar.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

História da Ana

Minha afinidade com crianças sempre foi perto de zero. Achava que elas eram seres que choravam, faziam birra e só serviam pra atazanar a vida dos adultos. Quando eu era criança, adorava brincar de boneca... fazia quartinhos... e era uma “mãe amiga” dessas bonecas. Adorava-as! Pensava: Quando eu tiver meu filho será assim e assado. No começo queria uma menina... e já tinha idéia de nomes que hoje em nada me agradam. Depois pensei que queria um menino, porque eles são mais fáceis de lidar, não têm tantas frescuras quanto uma menina cheia de laços cor-de-rosa... Mais tarde, decidi que não queria filho algum, pois só me atrapalharia e eu não gosto mesmo de crianças... não tenho jeito com elas, e elas também parecem não ir muito com a minha cara. Certo, filhos eu não teria.
Mas quando de um namoro inconstante e irresponsável veio a notícia de que eu estava grávida... ai ai... tudo, tudo mudou! Minha mãe me deu a notícia pelo telefone – ela foi buscar o resultado do exame: Parabéns Karla! Você acaba de estragar a sua vida!
Eu só tinha 18 anos... e de repente, estava grávida! Era algo inimaginável! Não conseguia acreditar, conceber aquilo na minha cabeça era demais! Não me sentia grávida, parecia uma grande mentira, um sonho... e eu queria muito acordar!
Abortar foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, pois eu não me sentia mãe, nem preparada para tudo aquilo. Eu tinha acabado de passar no vestibular de enfermagem da universidade federal, meu namorado era um zero à esquerda, só estávamos juntos há três meses, e o principal, nem ele, nem eu tínhamos condições de ter um bebê. Mais tarde eu percebi que só poderia contar comigo, porque com ele... Bom, o fato é que estou aqui pra relatar a experiência de ser mãe.
A minha mãe e o meu irmão foram terminantemente contra o aborto: Você fez, você assume! Certo... a idéia esvaiu-se no primeiro dia, e logo eu tive que me acostumar a ter uma pessoa bem pequenininha dentro de mim.
Então tive de ir ao médico pra fazer o pré-natal e acompanhar tudo. Ele solicitou vários exames para mim, e outros tantos para o bebê. Aí já começaram os primeiros medos, porque mesmo que você não queira um filho, que você não se sinta apta a criar uma criança, mesmo assim você espera que ela seja saudável. Quando fiz exames para saber se o bebê tinha síndrome de Down e uns outros que não me lembro agora, ficava bastante apreensiva com os resultados.
Quando fiz o primeiro ultra-som, acho que aos quatro meses... nossa, quanta emoção!!! Era de verdade, pequeno, como um grãozinho de feijão com perninhas e bracinhos! E já me sentia um pouco mãe... o pequeno serzinho era nutrido por mim... o meu sangue era o seu sangue... eu era a sua casa... o lugar mais acolhedor por onde ele já havia passado...
Os meses iam passando, e eu engordando... minha barriga, minha pobre barriga encheu-se de estrias medonhas, mas é porque o cantinho do bebê precisava crescer. Eu queria que fosse um menino, e chamar-se-ia João, mas para meu engano, no ultra-som feito no quinto mês e cheio de expectativas, descobri que era uma menina que eu acolhia. O pai então escolheu o nome: Ana, mas minha mãe achava Ana um nome muito simples, deveria ser composto. Então ela tornou-se antes de nascer a quarta geração de Cristinas da família. Depois da minha avó Cristina, minha mãe Márcia Cristina, eu Karla Cristina, ela seria Ana Cristina.
E eu pensava nesses meses: será que ela vai gostar de mim? Será que terei leite? Será que saberei cuidá-la? Será que a amarei? Será que ela terá meus olhos ou os olhos do pai? Ah... foram tantas coisas passando... Acostumei-me com seus chutes e mexidas. Ela costumava chutar minhas costelas... Eu conversava com ela e às vezes chorava de medo de não conseguir. Era tudo surreal...
O enxoval foi feito, era tudo simples. Ela acabou sendo um bebê tão esperado quanto se tivesse sido encomendada pela cegonha. E eu já a amava... Enquanto o tempo passava, eu ia me preocupando cada vez mais com o dia do parto... morria de medo! Medo da dor, medo de morrer, medo de que acontecesse alguma coisa a ela.
No dia em que fui para a maternidade para ganhá-la, ao entrar na sala de trabalho de parto, vi duas mulheres gritando por causa das contrações, e agradeci porque faria uma cesárea. Mas é bem constrangedor: tire suas roupas e vista isso – um avental que te deixa com a bunda de fora. Ok, fiz isso, fiquei um tempinho deitada entre as duas grávidas e suas contrações, enquanto preparavam a sala de cirurgia. Quando me levaram à sala, pensei: fim da linha. É hoje que eu vou morrer, porque a sensação é a de que você está indo para o abate. A sala era fria, e a mesa era estreita. Sentei nela, e uma enfermeira veio a disse que me aplicariam a anestesia, e que eu sentiria uma picada nas costas. Na verdade não doeu nada, foi só uma picadinha mesmo, mas talvez tenha doído e eu não tenha sentido por causa dos nervos.
Deitei, os médicos chegaram. Acho que fora eles havia mais duas ou três pessoas na sala, enfermeiros suponho. Havia um rádio ligado, e o grupo falava de coisas aleatórias.
Fiquei com um dos braços esticado no soro, e comecei a passar mal. Parecia que a anestesia não era só da cintura pra baixo, parecia que meus pulmões estavam anestesiados e eu não conseguia puxar o ar. Colocaram-me no oxigênio, e eu não dormi, mas parecia bêbada. Uma hora olhei para as luzes, e elas refletiam minha barriga aberta, e muito sangue! Eu não sentia nada, absolutamente nada, então fiquei olhando para o lado, e esperando que acabasse logo, e acabou. Deve ter durado uma meia hora. Então ela veio, mostraram-me a Ana. Coberta de sebo, sangue, meio roxinha, meio amassada, eu a olhei e tive o desplante de dizer: Nossa, como ela é feia!
Que belo primeiro comentário sobre a filha, hein! Arrependo-me até hoje. Levaram-na, e eu dormi. Lembro-me de estar na sala de recuperação e de depois ser levada para o quarto. Quando acordei, começaram as dores... a anestesia estava passando e tudo formigava. Queria fazer xixi, mas como não podia levantar, colocaram em baixo de mim um daqueles penicos de hospital. A dor era imensa, não conseguia sequer me virar na cama. Então trouxeram-na. Embrulhadinha num cueiro de coelhinhos, com a carinha ainda amassada e arranhada por suas unhas compridas que não deveriam ser cortadas ainda. Ela parecia cansada da viagem que fizera, mas tinha fome. Meus seios estavam bem cheios, mas precisavam ser massageados para que o leite saísse, já que a pequena ainda não tinha a prática de sugar. Logo na primeira tentativa, ela já conseguiu alguma coisa, não o suficiente para satisfazê-la, mas estávamos nos conhecendo.
Logo na primeira noite, ela já ficou comigo no quarto, e dormiu num daqueles bercinhos que mais parecem gaiolas para crianças. Durante toda a noite, a cada duas ou três horas, ela chorava para mamar. E como eu tive leite! Ainda bem! No outro dia, levaram-na para tomar banho, e depois a trouxeram para mamar. Eu estava apaixonada por ela. Ana era linda, tinha olhinhos tão azuis que pareciam cinza. Era incrível acreditar que aquela menina tão linda havia saído de dentro de mim, de mim! Ela é um pedaço de mim, é minha continuação... meu legado... e isso não é nada perto da emoção de saber que ela existe, e que ainda, é minha... 

domingo, 18 de janeiro de 2009

Das unhas roídas

Olhei para o lado e percebi que a pequena dormia. A boca estava brilhante de manteiga de cacau, que ela pedira a mim que passasse para que seus lábios frágeis de criança não ficassem rachados. Engraçado como uma pessoinha tão pequena poderia ser voluntariosa e cheia de argumentos...
De repente, ela suspira e vira-se na cama. Pousa a pequenina mão sobre o meu seio, e mais uma vez percebo que não adiantaram as conversas sobre parar de roer as unhas, porque Ana está com os dedinhos... ah, os dedinhos, as unhas foram tão roídas pelo hábito que eu não saberia explicar de onde surgiu, que parece até que a criança de nariz arrebitado passa por muitas situações estressantes.
Então, lembro-me de passar novamente nos tocos de unha aquela base com o cheiro de esmalte que sempre me agradou, mas com o sabor de fel que espero, mude o comprimento das unhas de minha filha.
E há de ser nessa hora, enquanto escrevo, enquanto ela dorme... pois depois de passá-la pela primeira vez, e sentir o amargo na boca, era só eu falar em pintar as unhas que a pequena fazia cara de choro e dizia que não mais iria roê-las.
Enquanto ela espalha-se pela cama, e fala dormindo: “Eu tenho certeza...”, ronca aquele ronco gostoso de criança... eu procuro pelo esmalte para passá-lo.
No vidrinho lê-se: Inibidor do hábito de roer unhas. Mas isso não deveria ser um hábito...
Pego suas mãozinhas e começo a passar-lhes a base... ela com os olhos não totalmente cerrados, ronca... passo em todos os dedinhos, sem muito jeito. E aguardo os resultados. Amanhã verei Ana fazer cara feia quando puser as mãos na boca.

Escrito em: 11/07/07