quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Sobre o cheiro da lembrança

hoje passei o perfume que usei em muitos momentos no período em que tudo se deu. na época, eu o usava todos os dias não porque o achasse maravilhoso, mas justamente porque havia me arrependido de tê-lo comprado e queria que ele acabasse logo. ele era muito gostoso, mas havia alguma nota que me causava dores de cabeça.

eu o usei quando fui ao seu apartamento ver todo o estrago, quando a visitei na UTI do hospital, quando ia vê-la na enfermaria e quando conversava com os médicos. eu o usava, mas não gostava dele inteiramente. hoje eu o passei porque está frio e achei que combinaria com o clima. senti-lo trouxe uma lembrança boa apesar de tudo, a lembrança de quando você ainda estava aqui. 


na sua última quinta-feira, na véspera da alta da internação, eu usei esse perfume e você pediu que eu comprasse uma tortinha de maçã do Mc Donald’s e eu disse que você tinha que comer a comida do hospital, então você veio com a tirada de que essa essa tortinha lhe fazia bem, que ela era boa para o fígado, e riu jocosamente, me fazendo rir também e me lembrando que, de vez em quando, você conseguia ser divertida.


nesse mesmo dia você pediu que eu cuidasse da Cindy e eu respondi que já estava cuidando; senti lá dentro de mim que parecia um pedido derradeiro, mas não disse nada a respeito.


na sua última sexta-feira, quando a deixei na casa de repouso, estava usando esse perfume e ficou registrado em mim o seu olhar quando nos despedimos; um olhar pueril, meio perdido, meio débil que só consigo comparar com o olhar da Cindy, sua filha canina que agora é minha. a cachorra que é a cara da mãe, da minha mãe. alguns animais têm um olhar tão humano que chega a assustar o observador criativo. eu sou uma observadora criativa. enxerguei os olhos da cadela em minha mãe, um olhar frágil, de quase abandono, de quando os donos saem de casa e o animalzinho fica ali, acuado no vazio; foi como a vi. como um um bichinho resignado com seu destino final; não era.


na sua última segunda-feira, quando me ligaram para dizer que você havia ido embora, eu não estava usando o perfume de hoje, nem me lembro qual era. no seu velório, numa quarta, também era outro, um pequeno que já se acabou. era gostoso, mas também me dava um pouco de dor de cabeça.


usar esse perfume hoje me aninhou, quase como num abraço de mãe: gostoso, acalentador, nostálgico, só que agora cabeça não dói mais. o mesmo cheiro, só que dessemelhante.


a diferença entre viver o momento e recordá-lo. revivê-lo, só que agora sem o pesar dos acontecimentos porque eles já ficaram no passado, na lembrança, como um retrato que pode revisto mas que é estático, mesmo que seus detalhes possam se modificar a cada visita, porque seu efeito é imutável.


o retorno vem, então, escolhido entre tantos frascos guardados, quando quero pensar em você com todo o meu coração; não porque foi bom, mas porque eu não sabia que estava perto do fim.