Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como morrer sem querer e como ficam os que ficam

Tinha médico às 10 da manhã; a casa estava uma zona há mais de uma semana, mas ela não percebia que isso era uma das poucas coisas que estava sob o seu controle, a organização e a manutenção da sua casa. Preferiu a internet, como muitos.

Tomou banho correndo, vestiu-se correndo, passou protetor solar correndo e correndo também, falou consigo mesma. Andava tendo conversas muito claras, em voz alta e não só dentro da cabeça, chamava sua própria atenção, se exigia, esperava ainda colocar em ação todas as coisas que se dizia. Continuou correndo quando foi abastecer o carro; não sabia mais se ele tinha gasolina ou não, porque a boia da bomba de combustível só funcionava quando queria, e nos últimos dias, ela não andava muito a fim de trabalhar.

Quando abasteceu o carro, já se avisou que o atraso era de sua única e exclusiva responsabilidade, então que deixasse de ser uma Zé-pressa e fizesse as coisas no tempo em que era capaz de fazê-las.

Foi pela Beira-mar, ouvia Statler Brothers, e como a vida é cheia de ironia, foi num muro, em que mais tarde as pessoas colocariam flores, que ela se espatifou. Apressada como o coelho de Alice, ela fez uma curva, pensou em fazê-la; não reduziu a marcha e foi direto em direção ao muro. Muito rápido. Instantâneo. Irreconhecível. Perda total para o carro, perda total para ela.

Agora é que o peito aperta. Enquanto via o muro se aproximar, enquanto não havia mais nada a se fazer, pensou em tudo. Viu 27 anos passarem diante de si. Percebeu finalmente o significado da palavra efêmero. Viu que não era nada. Viu o que era impermanência e entendeu de uma vez por todas que tudo pode mudar a qualquer momento. Uma corda bamba eterna. Roda gigante safada, que não só sobe e desce, mas que por vezes é equipada com um banco ejetor, e mesmo que você ache que está lá em cima, é lá de cima que você vai ser lançado. Dói mais.

De viva, indo para um compromisso, à morta, esfacelada, com cacos de vidro no rosto, cabeça quebrada, sangue escorrendo por todos os buracos, ossos trincados, pele pendurada. Nunca mais um abraço, um beijo, um carinho. Era só a casca.

Tudo isso numa manhã de sol primaveril. Não é um paradoxo? O sol nunca para de brilhar, não importa o que aconteça em terra firme. 

Carro no muro, game over pra ela. Os carros que vinham atrás, primeiro frearam bruscamente para que não batessem também, depois, descendo com pressa e temor pela gravidade do acidente, os motoristas vinham ver a morta. O tesão gerado por acidentes traz muitas reflexões para quem os assistem. Muitas perguntas, muita consternação. O que houve? Como aconteceu? Ela estava bêbada? Dirigia em alta velocidade? Perdeu o controle? Ela está morta? É, acho que está morta... Coitada, pobre da família...

Vinte minutos depois, chegam a ambulância, a polícia, os bombeiros e mais curiosos. Com alguma dificuldade, conseguem abrir a porta do carro. Ela, de cabeça caída pro lado, olha pro nada com as pupilas dilatadas de defunto. Morta? Sim, nem poderia ser diferente. Mais uma ironia para quem sempre achou que morreria em um acidente automobilístico. Assim foi.

Removeram-na. Saco preto, carro da polícia técnica. Ela já era estatística. Pegaram a bolsa, olharam o nome na identidade. Pegaram o telefone celular e começaram a olhar os números para que pudessem avisar alguém sobre a mais nova perda da família. Estava escrito na agenda “Casa” e ligaram. Lá, o telefone tocou à exaustão, e os gatos miaram sem saber da notícia. Ninguém. Tentaram o último número discado e ele atendeu. Acidente? Ele ainda estava dormindo... É que a morte é assim mesmo, chega sem avisar. Se você está vivo, pode empacotar a qualquer momento; para ela não tem tempo ruim ou bom, é tudo igual. 

Sim, acidente. Você é da família? Precisamos falar com alguém da família. Sou namorado. Namorado não é família e ele sabia que nem namorado era, e se arrependeu, todo mundo se arrepende. Ah, burrice! A gente acha que a morte vem sempre amanhã, como a felicidade, como o fim de semana, mas ela sempre chega! E quando chega, pluft! Arrependimentos não resolvem nada. Nada.

Ele pensou imediatamente na menina, eram onze e meia, ela estava na escola, e naquele dia sua mãe não iria pegá-la, e nem em nenhum outro dia. Como dizer? Cadê minha mãe? Sozinha ela, sozinha com a menina. Todo mundo tem família e coisa e tal, mas era ela e a menina, sempre a menina e ela. Família de duas, como faz agora? Família de uma? Isso é família?

Tudo perdido, muito louco. Numa noite, mercado, carnes para o natal, planos indefinidos de natal aqui e ali, panetones que ela tanto gostava, chocolates envenenados pra ele, chinelo novo pra menina. Dorme, acorda e come coxinha. Lanche gorduroso do Beps na véspera da batida. Mas morreu em jejum, deixando o que mais estimava na vida, que era um pedaço seu de legado pra terra.

A menina deixada ao léu, cheia de comida em casa, mas sem a mãe preguiçosa pra cozinhar, pra brigar, pra deixar usar o computador. Ao menos ela já estava matriculada na escola para o ano que vem, mas a mãe não a veria mais. Oh vida que passa. O amanhã que nunca chega ou que chega rápido e sem aviso prévio. Leva, bagunça, empilha e deixa de lado. 

Desestabilizadora a grande ceifadora.


P.S.: Não, eu não morri, nem estou pensando em morrer. Eu sempre reduzo nas curvas, mas gosto tanto de falar sobre ela, que me deu vontade de escrever. Você já se imaginou morrendo de repente e deixando tudo pra trás? Hoje, eu imaginei, mas é tão complicado pensar em quem fica... pensei na minha Ana, mas eu morta de repente, nada poderia fazer por ela, mas sei quem poderia cuidar dela. Se eu morrer de repente, cuidem dela!

P.S.²: Não, eu definitivamente não estou pensando em morrer, fiquem tranquilos, é só que a vida tem dessas coisas. Se alguém por aí também quiser que eu ajude em caso de falta por morte, estamos aí, é só deixar avisado. =)

P.S.³: Na verdade, estou bem feliz, porque o natal é uma época de luzes coloridas e comidas gostosas! 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como foi pra mim

Isto aconteceu enquanto eu morava naquela cidade, mas já não era mais criança; tinha dezesseis anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Lembro que no sábado anterior ao que aconteceu, era dia 23 de junho do ano de 2001, um sábado, e eu tinha ido à festa junina do meu colégio.

Eu fazia o tipo porra-louca-rebelde e fui pra tal festa usando um vestido de cetim bordô estampado com caras de bichinhos fofos que eram cor de creme, estava de meia-arrastão e com meu inseparável All-Star preto; no pescoço, usava uma enforcadeira de metal; eu adorava fazer o tipo que chama a atenção, e chamava, de fato. Minha melhor amiga estava comigo e foi uma noite divertida. Lembro de ter invejado os cabelos escorridos de uma menina que estava lá. Lembro disso até hoje, sabe-se lá por que.

Não me lembro do que houve naquele domingo, dia 24, exatamente um mês antes do meu aniversário, mas lembro perfeitamente do que sonhei naquela noite, que viraria a segunda-feira.

No meu sonho, eu estava em casa, não era a minha casa de verdade, mas era na ocasião. Dois homens entravam lá pra roubá-la e atiravam em mim. Fui baleada duas vezes e um dos tiros me acertou no pescoço. Eu não sentia qualquer dor, e me via caindo no chão em câmera lenta. Já caída, sentia o sangue escorrer formando uma poça espessa; eu sentia um enorme alívio e desfalecia. Parecia uma libertação, como se eu tivesse morrido. Acordei, então, no que era o meu quarto, deitada em uma cama de casal e minha mãe estava sentada ao meu lado, numa cadeira. Em frente à cama havia uma grande penteadeira com um espelho oval; eu me levantei, fui em direção ao espelho e vi os pontos que haviam sido dados no meu pescoço.

Acordei com uma estranha sensação. Era segunda-feira, e na escola ainda comentei com algumas pessoas que tinha a impressão de que algo fora do comum aconteceria, e aconteceu.

Fui pra casa na hora do almoço, como em todos os outros dias. No meio da tarde, minha mãe me liga. Ela disse que estava indo pra casa e que tinha algo muito sério a me dizer. O seu tom me perturbou profundamente. Pensei em milhares de coisas, sendo que todas elas a envolviam. Pensei que ela iria me dizer que tinha aids, que tinha sido demitida, que tinha alguma outra doença gravíssima. Fiquei com o coração pesado de maneira que eu não sabia explicar.

Quando ela chegou, me disse: "Teu pai morreu, ele se matou". Pronto, caí numa outra vida, paralela a tudo. Eu não sabia como reagir, não conseguia chorar, só não acreditava. Uma tia dela, que morava na ilha, tinha ligado pra ela e contado que naquele dia, de manhã, ele havia dado cabo da sua vida. A porra toda era inconcebível pra mim. Como assim meu pai morreu? Pior, como assim ele se matou? Era a notícia mais surreal que eu poderia receber. Pra mim, ele era um homem católico, dedicado ao trabalho e que condenaria qualquer pessoa que tivesse atitude semelhante, mas é claro que eu não fazia ideia de quem era o meu pai de verdade.

Aí, então, liguei pros meus irmãos, cobrando uma satisfação, pois a filha de longe não soube da morte do próprio pai pela família dele, soube por outros. Ouviu deles um telefone desligado na cara e a resposta de que haviam tido uma preocupação muito grande com a caçula. Ah sim, todos ficaram muito mexidos com o fato, mas a família, os tios de estirpe muito distinta, rica, fina e religiosa, tinham que enterrar de uma vez a vergonha que o filho mais novo lhes trouxera. Morreu em torno das sete horas da manhã e às cinco da tarde já estava sendo escondido no jazigo da família, junto com os seus pais e avós.

Que merda, eu não o via já havia seis anos e nunca mais o veria novamente.

Baixaram na nossa casa pessoas da federação espírita, lembro de um cara careca e barbudo, falando sobre a morte, tentando confortar e eu só tinha vontade de mandá-lo tomar no cu. Minha mãe teve os surtos de culpa tardia e se vitimou pela morte do homem que ela tinha passado a vida inteira detonando pra mim. Eu liguei pro carinha de quem eu era a fim na época, e que vivia me maltratando e me dando foras pra contar a novidade, esperando algum tipo de consolo. Ele, obviamente, não sabia o que dizer, mas eu queria ser apaziguada pela perda, procurando ânimo e pena, esperando que assim ele fosse me amar.

Usei a morte do meu pai, desde o primeiro dia pra que sentissem pena de mim, mas isso não deu muito certo.  A noite já tinha aparecido quando eu achava que ia explodir se continuasse dentro de casa com todas aquelas pessoas estranhas dando condolências por um morto que já estava enterrado. Desembestei pela rua, e fui parar no prédio do meu cursinho, achando que conseguiria assistir à aula de física e esperando a piedade de quem estivesse por perto.

Não lembro quando foi que consegui chorar a morte dele, só sei que queria fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. Não fazia nem uma semana que ele tinha morrido e eu inventei de ir a uma festa, sob os protestos da minha mãe. Era muita falta de respeito minha sair pra me divertir quando eu deveria estar de luto. A festa era em uma casa grande; lembro da escuridão, da música alta, das muitas pessoas que estavam lá e lembro também que dentro de mim só havia um silêncio gigante. Eu estava lá, mas não estava.

Um mês depois, foi meu aniversário de dezessete anos, em casa, com bolo e salgadinhos pra dois amigos que me suportavam. Era uma vida de bosta. Não sentia nada, a ficha não tinha caído, ainda.

Meu pai foi um estranho pra mim, o tempo todo. As lembranças que eu tinha dele, em sua maior parte, eram ainda do tempo em que eu era uma meninota e ele me chamava de galega. Minhas lembranças eram de tristes conversas pelo telefone, nas quais eu tinha que fazer o que mais odiava em toda a vida, pedir.

Ele nunca disse que me amava, e a coincidência de tudo isso foi o sonho. No dia em que ele morreu, eu sabia que algo estranho aconteceria, eu tinha levado um tiro no pescoço, e foi se enforcando que ele teve paz. Sempre esperei que ele tivesse o mesmo alívio e sensação de libertação que eu tive, quando caí ensanguentada e leve no chão do meu sonho. Nossas vidas se tocaram e eu pude sentir, então, um pouco do que ele buscava.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O tema preferido

A morte sempre foi uma inspiração à minha escrita. Falar sobre ela, sobre o apodrecimento da matéria é algo que me excita e, ao mesmo tempo, me mostra como somos frágeis diante de qualquer coisa.
Nosso corpo funciona magnificamente, até que ele padece. Basta cair de mau jeito e bater a cabeça, pronto, você pode ter um traumatismo craniano e sangrar até morrer. Se você tiver uma diarreia ou uma gripe muito forte e não se cuidar, pode acabar morrendo.
Somos tão frágeis quanto formigas. A qualquer momento podemos ser esmagados pela vida, pelo tempo, pelas nossas atitudes e escolhas.
Particularmente, gosto das mortes brutas. A ânsia ao ver um corpo transformado numa massa sangrenta é algo repulsivo, mas que traz enorme reflexão e vazio. Corpos mutilados, estripados, aniquilados, degolados mostram que não somos nada.
Por muito tempo tive um sonho repetitivo em que duas moças eram atropeladas por um carro e seus corpos não eram mais do que um amontoado de carne grudada ao asfalto. Via com detalhes as formas asquerosas de seus órgãos estourados , a carne vermelha; cabeças esmagadas, olhos saltados, cabelos junto a secreções e ossos esmigalhados. Perdi a conta de quantas vezes as vi. Havia repulsa, mas havia algo maior que eu não saberia descrever, mas que a morte delas queria me mostrar.

Depois desse sonho, tive um outro, igualmente incômodo, mas que envolvia muito mais gente. Sonhava que estava às voltas do hospital da cidade onde cresci, e quando lá entrava, nossa! Era como um açougue, pois havia corpos por todos os lados, que haviam sofrido as mais diversas dores. Havia sangue pelo chão, enfermeiros que pareciam não ligar para a situação, e os corpos amontoados em salas esparsas que eu podia ver, andando pelos corredores do lugar.
Sinto angústia por sonhar com isso, mas não tenho medo. Estão mortos. Apesar disso, quando via que o sonho ia se encaminhar novamente para o hospital que eu já vira outras vezes, me indagava por que estava sonhando com aquilo de novo. Não tenho respostas.
Às vezes me imagino morta da forma mais aterradora que eu possa... Tenho a impressão de que uma morte estúpida e grosseira é muito mais real do que aquela que acontece num leito de hospital. Pra ela ser de verdade, os bombeiros têm que catar você do asfalto com a ajuda de uma pá, e reclamar um pro outro: “Odeio meu trabalho”.
Morrer faz sujeira, pois somos imundos por dentro, somos apenas um monte de excremento ambulante, até que viremos novamente excremento embaixo da terra, ou de uma carro, ou de uma ponte.
Morrer parece ser um alívio tão grande... Mas só os torpes conseguem, só os covardes conseguem a morte gloriosa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Nove anos

Não tardou a vir o peso na alma, porque hoje faz nove anos; faz nove anos que eu não sei dele, faz nove anos que ele resolveu desequilibrar as nossas vidas para tentar encontrar paz na dele. No caminho do cemitério Ana me disse: “Mãe, acho que teu pai deve estar orgulhoso de ti”, e eu disse: “Será? Será que ele tem alguma razão para isso? Será que ele sequer consegue pensar em ter orgulho de alguém?”, eu pensei.


Lembrei que quatro anos atrás, eu estava realmente de saco cheio da minha vida, e dos meus problemas, e num dia frio, muito frio e com chuva torrencial, eu resolvi ir até o cemitério brigar com ele. A pé, andando desarvorada, eu ia chorando, e quando cheguei lá, coloquei toda a minha revolta para fora, porque ele não poderia sumir assim, não para sempre, não sem me dizer pelo menos que alguma vez na vida dele ele se importou.

Eu ouvi um pouco mais dos dois lados da história, e o problema é que nenhum deles me favorece, nenhum deles me faz sentir mais sossegada diante da vida, e espero que essa covardia toda que eu vi, tanto dele quando dela, não me faça seguir seus passos de fuga. Não quero fugir da vida como eles, mesmo que me dê enorme vontade de fazê-lo às vezes, é preciso que eu pense em uma pequena criatura que descia pulando o largo parapeito do cemitério sem pensar ainda no que é a morte.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O cavalo morto

Ele estava entre as duas pistas de asfalto, numa larga faixa de terra batida, alaranjada. Havia poças de lama e muito lixo espalhado. Ali estava o cavalo morto - um pobre pangaré, daqueles que trabalham à exaustão puxando uma carroça - caído de lado, teso como se fosse um boneco, um boneco podre. À sua volta, ao longo dos dias, ia se formando um lodo de chorume que se soltava da carne que ia estragando e estragando. O animal inchado como um balão, tinha coberto o corpo de larvas de moscas, que depositavam ali seu pequeno legado de imundície. O pelo marrom já era ralo, e tinha a língua para fora, empretecida. O cheiro de carniça me fazia imaginar como estavam as tripas do bicho naquele instante, se é que ainda havia tripas, se é que o corpo morto não tinha se autodigerido para no fim de todo o processo virar nada. Eu vi sua cara vidrada, os olhos sem brilho, opacos, os dentes amarelados e a gengiva apodrecida. Parecia ter morrido de susto, e qual seria o susto de se ver morrer e jazer na rua? Como indigente a céu aberto, carne podre para ser cuspida, o cheiro da morte vermelha.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A morte

Morreu. Ninguém sabe para onde pode ter ido, se céu, inferno ou algo que o valha. Mas foi, foi assim de repente. Num dia estava bem, bebendo com os amigos depois do trabalho, no outro dia, nem acordou, ou “acordou morto”, muito chato.
No funeral os mais próximos choravam, questionavam a brevidade da vida, sem perceber que eles, figurinhas com data de validade expirada, já deveriam ter dado adeus à existência se a vida fosse tão breve quanto diziam.

Uns choravam mais e outros só se faziam presentes por gentileza. Quem não conhece o morto pode até achar meio exagerado o misto de lágrimas e auto-piedade que surgem nos velórios, enterros e afins. Assim é a vida, não? E olhando bem o sujeito no caixão, não parecia mesmo alguém muito notável, que vá fazer falta, pelo menos para mim – assim pensa quem não conhecia o que já partiu.

Morreu. E daí que deixou contas, que fez prestações, que tinha o nome sujo? E daí que traiu, embebedou-se, mentiu e adoeceu? E daí que sofreu, amou sem medida e fez mais inimigos do que amigos? E daí que atropelou um animalzinho logo que tirou a carta de motorista, e que por isso não conseguiu dormir durante dias? E daí que até o dia de sua morte, ainda não achava justa a surra que o pai lhe dera na adolescência? E daí que não se conformara com o grande amor perdido anos antes, ou que fumou mais baseados do que deveria ter fumado?

E daí que não plantou uma árvore, não escreveu um livro e não teve nenhum filho? – pelo menos até onde era de seu conhecimento.

Morreu. Nada mais importava. A promoção do emprego, a consulta médica marcada, a final do campeonato, a comida dos peixes, a visita aos pais... Tudo planejado, tudo certo. Nada importava.

As roupas na lavanderia, o novo tênis de corrida, a troca das pastilhas de freio, a grande viagem de aniversário, os filmes para devolver à locadora... Tudo por fazer. Nada importava.

As guerras pelo mundo, as catástrofes naturais, os animais em extinção, a nanotecnologia e a existência de Deus... A oposição ou o partido de situação? Tudo por refletir, agir, entender, mudar. Nada importava.

As pazes com os desafetos, as palavras de ira, de alento, de amor e desabafo que deveria dizer a tantas pessoas... Perderam-se no corpo que feneceu, falhou, encerrou atividades e deixou tudo bagunçado.

Um morto não deixa só saudades e tristeza para quem fica. O morto também deixa medos, remorso, pavor de que você tenha seu pézinho puxado na madrugada fria por aquele fantasma que agora que morreu, sabe tudo o que você pensava sobre ele. Pior! Sabe tudo o que você fez para ele! Caso de vingança póstuma na certa!

Pessoas mortas também deixam dívidas e dúvidas, sim, porque a pessoa morre, mas a dívida permanece, portanto pense duas vezes no discurso suicida “estou fazendo isso pela minha família”, porque a sua família pode ter que pagar as suas contas, e isso não é legal. Dúvidas, porque se quando a pessoa morreu vocês estavam brigados, você nunca saberá se aquela pessoa te odiava de verdade ou só da boca para fora, mas agora isso não importa porque você reza para elas todos os dias antes de dormir, e assim, tenta se redimir de alguma maneira.

A morte não é só uma passagem transcendental para debaixo da terra ou para outra dimensão, isso no caso do morto; a morte é também mudança profunda, ou nem tanto, para quem aqui permanece, e nem precisa ser de alguém que conhecia efetivamente o falecido.

Se o falecido era funcionário público, por exemplo, e uma pessoa bem viva e concurseira já estava rezando pela morte de alguém do setor em que ela deveria ser chamada pra trabalhar... Bingo! Essa pessoa se beneficia da morte. Mudança profunda na vida dela, porque o concurso estava em vias de expirar, e agora ela pode respirar aliviada porque mamar nas tetas do governo e ainda ter plano de saúde é muita sorte!

Pode ser também uma herança, o que não subentende apenas dinheiro, que pode trazer boas mudanças profundas, ou boas dores de cabeça judiciais tão profundas quanto o oceano. Quando morre alguém dentro da nossa casa, se é alguém realmente muito próximo, queremos ficar com tudo o que era dela, mas depois a gente percebe que a quinquilharia toda começa a cheirar à morte, daí ninguém mais quer nada, excetuando-se jóias, dólares, quadros e arte, em geral, de valor significativo no mercado.

A pessoa que morre, não pode cobrar mais nada, de mais ninguém. Nem satisfação, nem discrição, nem amizade, nem dívidas, nem amor, nem respeito. Acabou para ela. Fim da linha. C’est fini. Não importa quanto tempo ela tenha passado no leito de um hospital, naquele “vai não vai” para o além, porque quando ela vai de fato, nossa! É chocante, arrepiante, tocante, marcante, mas não é crocante e gostoso como um pacote de Dorito’s.

Não sei se morrer dói, fisicamente falando, independente de machucados e traumas, mas para quem fica, a morte de quem nos importa dói. Tudo para, sangra imensamente, parece que nunca vai fechar, formar ferida, aquela casquinha fina, que com qualquer coisa faz a crosta abrir de novo e sangrar mais um pouco. Antes de cicatrizar por completo, quando a ferida abre novamente, já não sai mais tanto sangue “vivo”, sai mais plasma, aquela aguinha, sabe? Que não deixa mais você tão apavorado consigo mesmo de ver uma chaga exposta, para que qualquer um a enxergue.

Morrer é coisa séria. Coisa que dói, lacera, deixa a dor fantasma do membro que não existe mais, morrer é tão sério, que a gente só tem chance de morrer uma vez nessa vida! E antes que a morte chegue até nós, prematura ou já vindo com alguns anos de atraso, que aproveitemos melhor nossas pequenas conquistas, vinganças, contas, sofrimentozinhos baratos que temos e que não têm qualquer peso diante da morte.

Nem amor, nem dinheiro, nem desejo, nem amizade. Nada sobrevive a ela, que é a única certeza, que é o clichê que mais gosto de usar, e tirando todo o sofrimento que todos sabemos que ela causa, mas que não deveria, adoro fazer graça dela.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Passeio Noturno

Em uma aula de linguística ou gramática, não lembro ao certo, a professora nos mandou ler dois contos de Rubem Fonseca: Passeio Noturno e Passeio Noturno II. Ambos são ótimos! - para quem gosta de um estilo mais macabro, digamos.
Depois de lidos, deveríamos escrever a nossa versão dos contos, uma espécie de continuação.
E esta é a minha:

Finalmente é sexta-feira, e eu, como bom trabalhador mereço descanso. Mas não aquele descanso em si, falo daquele outro tipo, daquele que me relaxa mais do que uma dose de uísque ou uma massagem nos pés.
Quero relaxar, e lembro que a filial do inferno fica na minha casa. Meus filhos não se lembram da minha existência a menos que precisem de dinheiro - tenho certeza que devem usar drogas ou no mínimo já devem ter participado de alguma orgia -, e minha esposa passa tanto tempo embriagada, dopada com calmantes ou assistindo a novelas irritantes, que creio, não fazemos sexo há pelo menos dois meses, e da última vez, oh céus! Foi como praticar necrofilia, pois a desgraçada está mais frígida do que um bife de vaca em freezer de açougue.
Eu poderia matar toda a minha família, oh sim, eu poderia. Tenho esse direito! Sou o provedor de tudo. Desde as calcinhas rendadas até os remédios de tarja preta que deixam minha mulher como um zumbi. Mas não, como um bom pai, preservando nosso nome e a tradição familiar, somos felizes! Pelo menos é o que acredita quem vê de fora, e o que importa são as aparências.
Mas dizia eu que queria descansar, e chegando em casa, o panorama é o de sempre. Já nem me lembro mais quando foi a última vez em que vi minha mulher com outro traje que não fosse uma camisola. Nem sei mais se meus filhos têm todos os dentes na boca, se não se perderam em alguma briga, ou se minha filha já abortou um filho indesejado, ou se teve uma doença venérea e, por vingança não infectou todos os seus parceiros.
Sou um pai desatualizado da realidade de minhas crianças... crianças... são apenas sanguessugas... algumas pessoas têm cachorros, você tem adoráveis filhos! A felicidade é constante.
Vendo todo aquele ambiente receptivo, a necessidade de relaxar aumenta, e novamente convido minha esposa para dar uma volta de carro, mesmo sabendo que ela não iria comigo nem até a cozinha. Com sua negativa, dou um longo suspiro de alívio, jogo a gravata sobre a cama, troco a roupa usada o dia inteiro por uma bermuda, camiseta e tênis. A noite está agradável, e antes mesmo de sair de casa, já sei para que lado da cidade rumar.
Tiro o carro da garagem, desço para apreciar por um momento o "gatinho' que adorna seu capô, e percebo que há uma pequena mancha de sangue seco da noite anterior. Oh homem! Que descuido! Desse jeito logo seu carro atrairá moscas varejeiras, afoitas por um pedaço de carne pendurado no paralama... realmente um descuido. Apanho dentro do carro uma toalinha, dou-lhe uma cuspidela e esfrego gentilmente sobre a mancha, que logo desaparece e novamente faz a pintura reluzir sob a luz do poste.
Agora sim, pronto para a caçada!
Saio em direção ao sul da cidade, lá as ruas são escuras e ermas. E hoje, estranhamente, apesar de ser véspera de fim de semana, estas ruas estão ainda mais desertas e ainda mais lúgubres, o que a mim só causa excitação, pois quanto maior é a demora em encontrar a presa certa, mais estimulado me sinto a continuar.
Passo por uma, duas, três ruas, até que na quarta surge alguém. Que sorte! Pelo menos era o que parecia, até eu ver a pessoa direito. Como já estava com os faróis apagados, acendo-os e o que vejo me deixa profundamente atordoado. Era uma mulher, andava capenga das duas pernas. Parecia se arrastar constantemente, levava embrulho semelhante ao da mulher que atropelei outro dia, e estava pintada de sangue como ela, depois de ter ido parar no muro. Não! Não! Não! Não pode ser! Eu a matei, não há dúvidas! Consegui até ouvir seus ossos se partindo contra meu carro!
Acelerei, mas não foi em sua direção. Segui reto, acreditando que de lá seguiria para casa e beberia para relaxar, talvez já tivesse ido longe demais, precisava de outras formas de entretenimento. Era isso.
Tentando me controlar - tudo isso é fruto de todo o estresse e pressão que sofro naquela maldita companhia -, vou seguindo até chegar em uma outra região mais movimentada. Lá senti-me mais seguro, não fosse pelo fato de eu olhar para o banco do carona e ver Ângela, isso me fazia crer que logo eu estaria compartilhando os remédios de minha esposa. A maldita piranha estava com a cabeça rachada, sem a mandíbula, braços quebrados como todo o resto do corpo, e ainda por cima pingando sangue no meu banco de couro! Orgulhei-me pela qualidade do serviço, mas também quase urinei nas calças de tanto medo da criatura bizarra, que certamente fora morta por mim ainda ontem!
O pavor aumentou ainda mais quando ela virou-se para mim e com o olho direito quase saindo da órbita, deu uma piscada mórbida e balbuciou que agora era a minha vez. Freei bruscamente no meio da rua, eram 23h27. Desci do carro abruptamente e o ônibus que vinha em direção contrária à pista em que eu estava me levou... Levou-me sem parada para o inferno. O baque foi grande. O torpor tomou conta de mim, mas ainda pude ver que minha cabeça subia e batia no asfalto diversas vezes, pois ficou presa à roda do ônibus, até se esfacelar por completo, e toda minha massa encefálica ficar espalhada pela pista, junto com as minhas vísceras esmagadas e minha pele esticada como um balão estourado em festa de criança.
Parece que amanhã não terei um dia terrível na companhia.