Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.
Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.
Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.
Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?
Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?
Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.
Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.
Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.
Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.
Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.
Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.
Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...
Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.
Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.
Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.
Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.
Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.
Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.
Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.
Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.
Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.
Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.
Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.
A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Legião
Tenho medo de dormir. Fico com os olhos arregalados diante da luz do monitor; meu corpo não se aquieta e tenho medo de dormir. Medo porque sei que no meio da madrugada, meu coração vai dar pulos tão fortes que vou ter a sensação de que me salta à boca, e isso me desespera.
Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.
Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.
O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.
Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!
Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.
Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.
Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.
Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.
E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.
Orai e vigiai.
Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.
Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.
O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.
Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!
Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.
Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.
Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.
Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.
E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.
Orai e vigiai.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Adoro
Adoro minhas pintas, minha altura e meus seios caídos, como recompensa por amamentar durante um ano e meio uma linda menina; aceito a não-harmonia que existe no todo, porque ela me faz única; gosto dos meus pés magros, dos meus dedos longos, do meu nariz adunco, e dos cabelos bonitos de vez em quando; adoro a assimetria dos meus membros e o fato de eu ser sinistra; adoro as veias que tornam meu corpo grande um mapa com muitos caminhos; adoro minhas muitas cicatrizes, porque me lembram o que já fiz e por onde passei até chegar aqui; adoro a cor da minha pele e o formato dos meus olhos; adoro o estalar dos meus ossos quando ando ou me espreguiço; adoro meus dentes separados e minhas largas ancas; adoro minhas orelhas frias e minha boca costurada; adoro ser um abraço macio e um aperto de mão forte; adoro os pulsos finos e adoro também saber que nenhuma das minhas unhas é igual, ou ainda que meu nariz é torto. Adoro o rubor das minhas faces e a curvatura dos meus cílios; adoro o arquear da minha sobrancelha direita; adoro minha risada extravagante, meu colo e meu olhar.
A beleza está nos olhos de quem vê.
A beleza está nos olhos de quem vê.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Eu sou duas
Não sei o que me desperta, não sei o que me apaixona. Sei que sou duas: uma é tão boa que qualquer um consegue enganar; a outra é ira. Eu sou ira, medo, tristeza e posse. Quero nos outros o que não tenho em mim mesma.
Quero amor, paz e sossego, justamente porque não sei o que isso significa, nem nunca vou saber. Não se pode dar aquilo que não se tem, mesmo assim eu esperei receber aquilo que nunca havia dado a ninguém.
Eu compro as pessoas, é mais fácil do que ter que lidar com elas, e comigo mesma.
Mas eu não sou tão ruim, ninguém o é. Meu lado bom é tão bom que chora por tudo, é tão bom que se anula pelo outro, é tão bom que não consegue dizer não, é tão bom que sofre por quem não precisa, e dorme sempre tão bem por nunca ter desejado nada de ruim a ninguém, a não ser da boca pra fora.
Cansei da vida dos rigores, dos pudores, das regras.
Queria saber como é cair lá do alto, sentir o frio e a emoção de ver tudo passar depressa, sem dor, apenas o vento e a velocidade que nos dão a sensação de voar para a liberdade.
Sinto uma raiva imensa dentro de mim, e essa raiva é de mim mesma. De não ser quem eu gostaria, de me ver diminuída pelos outros, e de ajudá-los a me ver assim.
Não tenho amigos, não tenho ninguém. Todo mundo nasce e morre sozinho, mas assim também passa a vida inteira. Sempre sozinho.
Eu comigo mesma. Eu, ira. Eu, bondade. O problema é que estamos em desequilíbrio, e ainda não sei quem vai se sobressair, ou se as duas conseguirão se apaziguar. Não sei. Junto com a raiva, há dentro de mim o infinito, o infinito mesmo.
E eu não sou igual a ninguém...
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Karla = Márcia + Carlos
Sou a junção dos dois, do melhor e do pior.
Karla é o resultado, hoje, de 24 anos de experiências múltiplas, felizes, tristes, frustrantes, difíceis, arrependidas, sábias... Karla é o resultado de tudo pelo que passou.
Karla ainda busca sua participação especial nesse mundo. Conta ainda com a idéia de ser chamada para fazer a diferença. Pensa nisso desde a infância, esperando o dia em que alguém fosse olhá-la e estendesse-lhe a mão.
Ainda busca a aprovação do outro para existir.
Espera ser salva e resgatada porque seu pai não estava lá, e sempre foi assim, ele nunca veio, e nunca virá. Nem ele, nem qualquer outro homem.
Um senhor de cabelos brancos e barrigudo, como o seu pai, foi o que sempre esperou. Queria que essa pessoa chegasse e lhe dissesse que tudo estaria resolvido, que ela não deveria se preocupar com mais nada.
Mas no fundo, sempre soube que nada disso existia...
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Temos algo em comum?
Estive pensando sobre filhos, sobre pais, sobre quem somos. Somos realmente parte uns dos outros. Acho que não pensamos muito a respeito quando somos filhos. As coisas parecem bem naturais, e não haveria de ser diferente, mas quando nos tornamos pais é que percebemos com clareza o poder que temos de viver um pouco mais através dos nossos filhos.
Eles, literalmente, são um pedaço de nós, um pedacinho moldável, cheio de potencial, em quem colocamos muitas expectativas.
Esperamos sempre o melhor para este novo ser, este novo EU, que não sou eu, que se formou de um pequeníssimo pedaço meu, mais o pequeníssimo pedaço de outro.
Outro dia ri sozinha quando a ouvi dizer “mãe”. Grande coisa, já ouvi isso algumas milhares de vezes desde que ela aprendera a falar, e mesmo assim, eu ri, e por um segundo pensei nela, e no que é ter um filho.
Ser pai é finalmente acreditar na vida, na continuidade, e ver nos nosso filhos muitas ações, atitudes, vício e virtudes que vemos em nós mesmos.
O que não gostávamos em nossos pais, esforçamo-nos para que não se cristalize na gente, e por mais que combatamos, sempre carregamos algo deles conosco. Coisas boas e ruins, por vezes escondidas da nossa consciência, na tentativa de negar que carregamos o que mais odiávamos neles.
Um dia as crianças também tentarão se livrar das “amarras” que colocamos nelas sem qualquer má intenção.
Bons pais não têm más intenções para com seus filhos, têm somente amor, e um enorme medo de falhar.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
...
Naquele dia... Tudo estava como antes. Via as marcas secas de copos sobre a mobília, um programa que regride as mentes infantis passava na televisão, a casa ainda estava com resquícios de bagunça e seguramente suja. Não saberia dizer como um apartamento poderia acumular tanta poeira ao ponto de se juntar com os cabelos que caem pelo chão, e com os pêlos que caem da gata formando bolas de pó que andam para lá e para cá quando o vento entra pelas janelas e esfria os cômodos mesmo que o dia lá fora não esteja frio.
O apartamento é frio, estranhamente gelado...
Ela usa grandes sacos de lixo pretos, que permanecem semanas dentro de casa até que comecem a apodrecer as coisas que estão dentro deles. Lixo de banheiro, papel higiênico usado, lixo de cozinha... Como produzimos lixo, lixo, lixo... Para tudo há uma embalagem, e sua vida sedentária acaba ainda mais com o meio ambiente. Mas ela não parece se importar muito, quem se importa?
Para variar, ela está nua, quase nua. Na frente do computador digita suas impressões sobre a manhã. Espreguiça-se e vê os roxos em seus braços, os roxos que Ele deixou. Seu seio direito está apoiado em seu braço direito. Ela sente-se farta do que comeu. Os cabelos estão presos de forma desgrenhada, e os fios que caem sobre sua nuca, roçam-lhe a pele como algodão.
Lembra-se de ter sonhado com livros. Em seu sonho, seus livros estavam desaparecendo. E ao acordar sentiu-se sedenta por lê-los, e recorda-se de que quando mais nova lia com muito mais gosto e motivação. Suas vontades para com o que lhe pode ser de fato proveitoso têm-se mostrado a cada dia menos presentes...
O apartamento é frio, estranhamente gelado...
Ela usa grandes sacos de lixo pretos, que permanecem semanas dentro de casa até que comecem a apodrecer as coisas que estão dentro deles. Lixo de banheiro, papel higiênico usado, lixo de cozinha... Como produzimos lixo, lixo, lixo... Para tudo há uma embalagem, e sua vida sedentária acaba ainda mais com o meio ambiente. Mas ela não parece se importar muito, quem se importa?
Para variar, ela está nua, quase nua. Na frente do computador digita suas impressões sobre a manhã. Espreguiça-se e vê os roxos em seus braços, os roxos que Ele deixou. Seu seio direito está apoiado em seu braço direito. Ela sente-se farta do que comeu. Os cabelos estão presos de forma desgrenhada, e os fios que caem sobre sua nuca, roçam-lhe a pele como algodão.
Lembra-se de ter sonhado com livros. Em seu sonho, seus livros estavam desaparecendo. E ao acordar sentiu-se sedenta por lê-los, e recorda-se de que quando mais nova lia com muito mais gosto e motivação. Suas vontades para com o que lhe pode ser de fato proveitoso têm-se mostrado a cada dia menos presentes...
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Confidência
Quando vejo minhas fotos antigas ou recentes, em todas percebo um semblante muito parecido. Tirando as poucas em que eu rio, na maior parte delas eu tenho uma cara emburrada, ou um olhar triste... pareço sempre distante, distraída.
Vejo-me nelas e penso: por que eu estava com essa cara? Talvez não fosse por nada... é provável que tudo estivesse bem, mas ainda sim eu sinto, lá bem no fundo que eu sou uma daquelas pessoas infelizes... daquelas que não encontraram o seu lugar, porque elas simplesmente não fazem parte de lugar algum.
É claro que eu gozo em alguns momentos, mas são momentos... cada vez mais percebo que minha essência é triste e solitária. Prefiro ficar sozinha, em silêncio. Gosto de cantar, de ouvir minha voz desafinada... Às vezes tenho uma overdose de solidão, e requisito os amigos, que são tão poucos a ponto de contá-los em uma só mão e ainda me restarem dedos...
Parece egoísta dizer que requisito meus amigos, como se quando eu não precisasse deles, dispensasse-os, mas é porque esse é meu ritmo. As pessoas que me cercam fazem parte da minha vida, e eu da vida delas, e nem por isso ficamos umas em função das outras. Quer dizer, por vezes ficamos, mas uma mão lava a outra, e por isso somos amigos.
O caso é que apesar de ter uma vida estável, ainda não consegui me decifrar, mas há quem ache que conhece tudo a meu respeito. Dentro de mim há um enorme abismo, de coisas sobre as quais eu não gosto de falar, há planos e projetos que não me sinto capaz de realizar, sinto-me freqüentemente deslocada, pensando que EU não faço parte da realidade assim como os outros.
Ao mesmo tempo em que não me preocupo, procuro aprovação, mas acho que na verdade é minha própria aprovação que busco. Aquela que vem da minha consciência e que diz: Isso Karla, você está no caminho certo, não dê atenção ao que nada lhe acrescenta. Vá em frente, você pode!
Infelizmente minha alma milenar ainda não consegue ser tão independente, pelo menos nessa vida. Mas quem sabe com algum trabalho, eu consiga me tornar um pouco mais “alegre”, mas não para os outros, porque para os outros eu até sou extravagante, mas para mim mesma, para o meu “deleite pessoal”, um dia espero poder dizer que apesar dos revezes que acontecem dentro de mim, e não na minha vida em si, eu consiga manter o equilíbrio e não me deixe cair muito abaixo de onde as pessoas pisam.
E sei bem o que a falta de equilíbrio me causa... Tudo fica muito escuro... assim, de um dia para o outro, você olha para o lado e todos os sentidos construídos por você se foram. Você não tem idéia de onde possam estar nesse momento, mas o Escuro parece tão confortável... ele não exige nada de você, nada. Apenas entregue-se...
Mas hoje em dia, até que há uma lâmpada fluorescente na minha vida. É certo que de vez em quando ela dá umas piscadelas, mas não voltou a se apagar, então no futuro espero não sentir culpa pelo que não é minha culpa, e espero também me amar mais e me desfazer do que sei que não me traz nada. Porque a vida é feita de trocas, de relações de interesse mesmo que inconscientemente, mas continuamos a nos agredir todos os dias aceitando situações que nenhum bem nos fazem, que nada nos trazem de bom, e esquecemos de ser egoístas quando o melhor a fazer seria sê-lo.
A partir de agora, serei egoísta e não me violentarei mais insistindo no que não me diz respeito, é bom relacionar-se com pessoas com as quais a gente ria, em quem se confie, converse, planeje, chore, aconselhe, acalente, abrace, comemore... Enfim, que haja um elo de compreensão, e que desejemos ao outro tudo o que de melhor queremos a nós mesmos.
Escrito em: 11/07/07
Vejo-me nelas e penso: por que eu estava com essa cara? Talvez não fosse por nada... é provável que tudo estivesse bem, mas ainda sim eu sinto, lá bem no fundo que eu sou uma daquelas pessoas infelizes... daquelas que não encontraram o seu lugar, porque elas simplesmente não fazem parte de lugar algum.
É claro que eu gozo em alguns momentos, mas são momentos... cada vez mais percebo que minha essência é triste e solitária. Prefiro ficar sozinha, em silêncio. Gosto de cantar, de ouvir minha voz desafinada... Às vezes tenho uma overdose de solidão, e requisito os amigos, que são tão poucos a ponto de contá-los em uma só mão e ainda me restarem dedos...
Parece egoísta dizer que requisito meus amigos, como se quando eu não precisasse deles, dispensasse-os, mas é porque esse é meu ritmo. As pessoas que me cercam fazem parte da minha vida, e eu da vida delas, e nem por isso ficamos umas em função das outras. Quer dizer, por vezes ficamos, mas uma mão lava a outra, e por isso somos amigos.
O caso é que apesar de ter uma vida estável, ainda não consegui me decifrar, mas há quem ache que conhece tudo a meu respeito. Dentro de mim há um enorme abismo, de coisas sobre as quais eu não gosto de falar, há planos e projetos que não me sinto capaz de realizar, sinto-me freqüentemente deslocada, pensando que EU não faço parte da realidade assim como os outros.
Ao mesmo tempo em que não me preocupo, procuro aprovação, mas acho que na verdade é minha própria aprovação que busco. Aquela que vem da minha consciência e que diz: Isso Karla, você está no caminho certo, não dê atenção ao que nada lhe acrescenta. Vá em frente, você pode!
Infelizmente minha alma milenar ainda não consegue ser tão independente, pelo menos nessa vida. Mas quem sabe com algum trabalho, eu consiga me tornar um pouco mais “alegre”, mas não para os outros, porque para os outros eu até sou extravagante, mas para mim mesma, para o meu “deleite pessoal”, um dia espero poder dizer que apesar dos revezes que acontecem dentro de mim, e não na minha vida em si, eu consiga manter o equilíbrio e não me deixe cair muito abaixo de onde as pessoas pisam.
E sei bem o que a falta de equilíbrio me causa... Tudo fica muito escuro... assim, de um dia para o outro, você olha para o lado e todos os sentidos construídos por você se foram. Você não tem idéia de onde possam estar nesse momento, mas o Escuro parece tão confortável... ele não exige nada de você, nada. Apenas entregue-se...
Mas hoje em dia, até que há uma lâmpada fluorescente na minha vida. É certo que de vez em quando ela dá umas piscadelas, mas não voltou a se apagar, então no futuro espero não sentir culpa pelo que não é minha culpa, e espero também me amar mais e me desfazer do que sei que não me traz nada. Porque a vida é feita de trocas, de relações de interesse mesmo que inconscientemente, mas continuamos a nos agredir todos os dias aceitando situações que nenhum bem nos fazem, que nada nos trazem de bom, e esquecemos de ser egoístas quando o melhor a fazer seria sê-lo.
A partir de agora, serei egoísta e não me violentarei mais insistindo no que não me diz respeito, é bom relacionar-se com pessoas com as quais a gente ria, em quem se confie, converse, planeje, chore, aconselhe, acalente, abrace, comemore... Enfim, que haja um elo de compreensão, e que desejemos ao outro tudo o que de melhor queremos a nós mesmos.
Escrito em: 11/07/07
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