Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.
Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.
Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.
Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?
Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?
Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.
Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.
Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.
Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.
Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.
Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.
Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...
Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.
Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.
Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.
Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.
Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.
Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.
Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.
Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.
Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.
Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.
Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.
A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Atrás da porta
Eu não sei o que ele tinha, mas seja lá o que fosse, tinha nascido com ele, acho que tinha nascido com ele. Um homem que já fora "normal" não aceitaria viver nas condições em que ele vivia. Mas o que eu sei da loucura dos outros? Se é que era loucura... Vou contar como era, mas antes preciso me inserir no meio disso, porque essa história não é minha, mas eu vi algo da história dele.
Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.
A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.
Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.
Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.
Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.
Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.
Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.
A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.
Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.
Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.
Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.
Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Cheiro feliz de meninice
Hoje, quando fui buscar a Ana na escola, senti o cheiro mais doce de todos; o cheiro do qual já falei antes, o da minha infância pretensamente feliz. Ele apareceu do nada, entranhou-se no meu nariz e eu comecei a ver na calçada por onde eu andava, as boas lembranças do que já foi.
Fiquei tão distraída pensando que esse cheiro tinha aparecido para mim como o prenúncio de coisas boas, que quase fui atropelada por um carro vermelho. Eu não olhei para atravessar a rua, como não olhava quando era criança.
Quando o carro me tomou de sobressalto, dancei no ar, de susto. Mesmo assim, o cheiro permaneceu. Fui e voltei com ele, e amanhã é o último dia de aula dela. Teremos férias, como quando eu era pequena.
Fiquei tão distraída pensando que esse cheiro tinha aparecido para mim como o prenúncio de coisas boas, que quase fui atropelada por um carro vermelho. Eu não olhei para atravessar a rua, como não olhava quando era criança.
Quando o carro me tomou de sobressalto, dancei no ar, de susto. Mesmo assim, o cheiro permaneceu. Fui e voltei com ele, e amanhã é o último dia de aula dela. Teremos férias, como quando eu era pequena.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
O amigo mais perigoso
Quando fomos apresentados pela primeira vez, ele nem era de verdade. Era um cilindro de madeira, coberto com um papel que imitava um cigarro, daqueles com filtro cor de caramelo. Não lembro como apareceu na nossa casa, nem como, tempos depois, ele sumiu, mas a primeira vez que peguei um cigarro, esse, que era de mentira, eu devia ter uns cinco anos.
Eu o levava no microônibus da escola, e o exibia para a minha coleguinha de poltrona, como se o fumasse de verdade, achava o máximo!
Essa é a primeira lembrança que eu tenho sobre cigarros, e sobre o fascínio que eles começaram a exercer sobre mim, e, imagino que sobre muitos dos que fumam hoje.
O curioso é que minha mãe nunca fumou, e meu pai, que eu saiba, fumava, mas depois que eu nasci, ele largara o vício sem recaídas. Não creio que cigarros tenham muito a ver com educação e exemplo, mas com o status que ele pode proporcionar, pelo menos no início, porque depois a relação fica tão íntima, que você e ele tornam-se inseparáveis, e o cigarro vira uma muleta para uma pessoa que não tem qualquer deficiência.
Mais tarde, ainda na infância, com uns dez anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, eu pegava folhas de caderno, dobrava-as, colava suas pontas e queimava-as, como se fosse cigarros acesos. Fazia, então, uns cinco cigarrinhos e fingia fumar na frente do espelho. Nas encenações, sozinha, com meu “cigarro” na mão, eu era sempre mais velha, e geralmente eu era um personagem com problemas emocionais, que fumava sob o pretexto de alguma grande preocupação com alguém que não existia. O cigarro era um elemento de glamour, que me tornava uma mulher mais interessante, mais misteriosa... Isso numa cabecinha de 10 anos.
Quando estava perto de fazer doze anos, uma tia minha que fumava, e que por isso, eu a achava super sofisticada, nos visitou, ficando uns dias conosco, e claro que ela fumava na nossa casa. Quando minha mãe e ela saíam, eu pegava as baganas de cigarro que ficavam no cinzeiro, as acendia, e fumava o filtro, então! Pois não sobrava mais do que meio centímetro de fumo naquilo, e essa provavelmente foi minha primeira experiência com cigarros, ou com o filtro deles.
Com quatorze anos, quando eu ia às boates, eu fumava também. Só por esporte, só para ajudar a manter o ambiente da casa noturna com a névoa típica advinda de gelo seco e cigarros. Era só aos finais de semana, e mesmo assim, muito de vez em quando, porque não era em toda festa de boate que eu podia ir com quatorze anos. Eu fumava porque achava legal, eu sequer sabia tragar... Guardava a fumaça na boca e soltava, era esse o processo.
Aprendi a fumar de fato aos dezesseis anos. Aprendi a tragar, beber, fumar maconha de vez em quando, e aprendi também um monte de coisas – merdas – que a gente faz quando quer fazer parte de um grupo, ser aceito, admirado. Hoje eu sei que o cigarro passava a impressão de que eu era descolada, “prafrentex”, sem limites, sem regras, e afinal, era isso que eu queria que pensassem de mim, e eu consegui.
Hoje eu não faço mais as merdas que fazia na adolescência, mas o meu cigarro ficou, continuou comigo, o cigarro me acalmou inúmeras vezes, fez eu me sentir mais confiante, mais interessante, mais tranqüila. Em resumo, eu pude contar com o cigarro quando eu estava totalmente sozinha, ele me era um alívio, e nunca reclamou de nada.
Fumo mais agora do que no início derradeiro, mas fumo muito menos que bastante gente. Sei que fumar é uma merda, que no fim das contas as únicas coisas que você ganha, além do apelido de chaminé, é um bafão, e roupas e cabelos com cheiro de boate durante a semana inteira, e não só nos finais dela, mas acredito que a culpa não seja do cigarro, e sim nossa, porque somos nós que os fumamos, e não o contrário.
Fumar não é atitude mais esperta que uma pessoa pode ter, isso é certo. Mas é certo também que é uma escolha, assim como todas as outras que fazemos na vida, e como as outras, fumar traz conseqüências. Enfim, continuo fumando, e mesmo sabendo que não é o melhor caminho, odeio gente que vem desfiar sermão sobre quem fuma.
Esse papo de fumante passivo, não polua o ar que eu respiro... Vão todos à merda!
Eu tenho asma, fumo desde os dezesseis anos e estou aí. Não estou dizendo isso como forma de me vangloriar, mas sim de mostrar que eu sei dos riscos, e sei há bastante tempo, e resolvi assumi-los, e isso não é da conta de ninguém. Então, se alguém vier falar sobre coisas que meus pulmões já estão pretos de saber... Caia fora!
Cada um na sua... Tem gente que trepa, tem gente que fuma, tem gente que come, tem gente que chora, tem gente que dorme, tem gente que finge, tem gente que bebe, tem gente que cheira... E tem gente que faz tudo isso ao mesmo, mas não necessariamente na mesma ordem. Tem gente que faz e finge que não faz... E isso é bem pior do que fazer e deixar que todo mundo fique sabendo...
Espero que a minha história sobre o cigarro tenha inspirado os adolescentes a começarem no vício o quanto antes... huauhuahuahua... Brincadeira!
Espero que cada um saiba o que faz, e que de preferência escolha para si o que for melhor, e não acho que o cigarro esteja na lista das boas opções, assim como fazer “merda”, porque fazer “merda” é de uma generalidade que se você fizer muitas, vai lembrar-se delas para sempre!
Chega de sábios conselhos da tia fumante que engravidou com dezoito anos.
Bai bai...
Eu o levava no microônibus da escola, e o exibia para a minha coleguinha de poltrona, como se o fumasse de verdade, achava o máximo!
Essa é a primeira lembrança que eu tenho sobre cigarros, e sobre o fascínio que eles começaram a exercer sobre mim, e, imagino que sobre muitos dos que fumam hoje.
O curioso é que minha mãe nunca fumou, e meu pai, que eu saiba, fumava, mas depois que eu nasci, ele largara o vício sem recaídas. Não creio que cigarros tenham muito a ver com educação e exemplo, mas com o status que ele pode proporcionar, pelo menos no início, porque depois a relação fica tão íntima, que você e ele tornam-se inseparáveis, e o cigarro vira uma muleta para uma pessoa que não tem qualquer deficiência.
Mais tarde, ainda na infância, com uns dez anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, eu pegava folhas de caderno, dobrava-as, colava suas pontas e queimava-as, como se fosse cigarros acesos. Fazia, então, uns cinco cigarrinhos e fingia fumar na frente do espelho. Nas encenações, sozinha, com meu “cigarro” na mão, eu era sempre mais velha, e geralmente eu era um personagem com problemas emocionais, que fumava sob o pretexto de alguma grande preocupação com alguém que não existia. O cigarro era um elemento de glamour, que me tornava uma mulher mais interessante, mais misteriosa... Isso numa cabecinha de 10 anos.
Quando estava perto de fazer doze anos, uma tia minha que fumava, e que por isso, eu a achava super sofisticada, nos visitou, ficando uns dias conosco, e claro que ela fumava na nossa casa. Quando minha mãe e ela saíam, eu pegava as baganas de cigarro que ficavam no cinzeiro, as acendia, e fumava o filtro, então! Pois não sobrava mais do que meio centímetro de fumo naquilo, e essa provavelmente foi minha primeira experiência com cigarros, ou com o filtro deles.
Com quatorze anos, quando eu ia às boates, eu fumava também. Só por esporte, só para ajudar a manter o ambiente da casa noturna com a névoa típica advinda de gelo seco e cigarros. Era só aos finais de semana, e mesmo assim, muito de vez em quando, porque não era em toda festa de boate que eu podia ir com quatorze anos. Eu fumava porque achava legal, eu sequer sabia tragar... Guardava a fumaça na boca e soltava, era esse o processo.
Aprendi a fumar de fato aos dezesseis anos. Aprendi a tragar, beber, fumar maconha de vez em quando, e aprendi também um monte de coisas – merdas – que a gente faz quando quer fazer parte de um grupo, ser aceito, admirado. Hoje eu sei que o cigarro passava a impressão de que eu era descolada, “prafrentex”, sem limites, sem regras, e afinal, era isso que eu queria que pensassem de mim, e eu consegui.
Hoje eu não faço mais as merdas que fazia na adolescência, mas o meu cigarro ficou, continuou comigo, o cigarro me acalmou inúmeras vezes, fez eu me sentir mais confiante, mais interessante, mais tranqüila. Em resumo, eu pude contar com o cigarro quando eu estava totalmente sozinha, ele me era um alívio, e nunca reclamou de nada.
Fumo mais agora do que no início derradeiro, mas fumo muito menos que bastante gente. Sei que fumar é uma merda, que no fim das contas as únicas coisas que você ganha, além do apelido de chaminé, é um bafão, e roupas e cabelos com cheiro de boate durante a semana inteira, e não só nos finais dela, mas acredito que a culpa não seja do cigarro, e sim nossa, porque somos nós que os fumamos, e não o contrário.
Fumar não é atitude mais esperta que uma pessoa pode ter, isso é certo. Mas é certo também que é uma escolha, assim como todas as outras que fazemos na vida, e como as outras, fumar traz conseqüências. Enfim, continuo fumando, e mesmo sabendo que não é o melhor caminho, odeio gente que vem desfiar sermão sobre quem fuma.
Esse papo de fumante passivo, não polua o ar que eu respiro... Vão todos à merda!
Eu tenho asma, fumo desde os dezesseis anos e estou aí. Não estou dizendo isso como forma de me vangloriar, mas sim de mostrar que eu sei dos riscos, e sei há bastante tempo, e resolvi assumi-los, e isso não é da conta de ninguém. Então, se alguém vier falar sobre coisas que meus pulmões já estão pretos de saber... Caia fora!
Cada um na sua... Tem gente que trepa, tem gente que fuma, tem gente que come, tem gente que chora, tem gente que dorme, tem gente que finge, tem gente que bebe, tem gente que cheira... E tem gente que faz tudo isso ao mesmo, mas não necessariamente na mesma ordem. Tem gente que faz e finge que não faz... E isso é bem pior do que fazer e deixar que todo mundo fique sabendo...
Espero que a minha história sobre o cigarro tenha inspirado os adolescentes a começarem no vício o quanto antes... huauhuahuahua... Brincadeira!
Espero que cada um saiba o que faz, e que de preferência escolha para si o que for melhor, e não acho que o cigarro esteja na lista das boas opções, assim como fazer “merda”, porque fazer “merda” é de uma generalidade que se você fizer muitas, vai lembrar-se delas para sempre!
Chega de sábios conselhos da tia fumante que engravidou com dezoito anos.
Bai bai...
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Nostalgia
Ando nostálgica...
Quanto mais o tempo passa, mais procuro recordações que me lembram tempos felizes, diferentes... Não que os dias presentes sejam ruins, são de independência e aspirações, mas se acaso tivesse consciência da efemeridade dos momentos passados, talvez fossem eles mais aproveitados...
Ontem fez oito anos que meu pai morreu... numa segunda-feira à tarde eu soube, e ele já estava sendo enterrado. Quantas perdas a vida nos reserva? Com o tempo perdemos tudo, até mesmo as recordações...
Olho para uma de minhas únicas fotos quando pequena, vestido branco, de chapéu - eu adorava chapéus - e de sapatos vermelhos... ainda lembro de ser brava e voluntariosa já naquela época... meu rosto na foto é confuso, como a vida.
O que nos nos reserva o tempo? Cura de mágoas, de arrependimentos... Definitavamente crescemos com nossos erros, aperfeiçoamos nossas escolhas... Olhamos para trás e rimos ou choramos, ainda assim, vamos vivendo.
Além da nostalgia, a melancolia tem me acompanhado, o choro fácil, a emoção repentina... Tudo tem afetado o corpo que envelhece a cada dia... Orgulho das melhores coisas - Ana -, saudades das relações mais difíceis - com a minha mãe - ainda procurando o sentido do rumo que a vida toma... Saudades dos tempos em que todos éramos felizes, pelo menos momentaneamente, juntos, todos nós, juntos, mesmo aqueles que não fazem mais parte da vida atual porque quem em algum momento fez parte disso tudo, de toda a história, sabe que certas coisas ficam para sempre... ou talvez não...
O ombro amigo, o conselho dado e recebido, as conversas intermináveis, gargalhadas pela madrugada, cinzeiros repletos, ruas de cima, descobertas, desilusões, brigas e adolescência, choros e birras, escândalos e discussões, abraços e soluços, paciência, muita paciência...
Crescer de repente, ter alguém que depende inteiramente de você, que te cobra, que te irrita, mas que você ama infinitamente, e sempre chora quando vê que está crescendo...
Apesar de não saber quem eu sou, ainda, sei que tudo, tudo pelo que passei, com quem passei, como passei, quando passei, tudo isso me fez melhor... mas ainda há tanto chão, tanto caminho, tanto pelo que viver que me sinto cansada...
Cansada, mas a gente continua, para alguém que fez parte disso, a gente continua, de um jeito que talvez nunca saibamos, porque o impacto e a presença que temos nas vidas de algumas pessoas pode ser enorme e marcante, um pequeno momento, um gesto simples, algumas palavras fazem com que nos tornemos eternos para alguém...
O que aprendemos, o que ensinamos, mesmo que através de nossos erros, sempre há uma lição, uma ideia, uma intenção, pois não escrevemos apenas a nossa história, também fazemos parte da história de muitos... mesmo que um dia isso se perca, houve um momento em que pensávamos que duraria para sempre.
Quanto mais o tempo passa, mais procuro recordações que me lembram tempos felizes, diferentes... Não que os dias presentes sejam ruins, são de independência e aspirações, mas se acaso tivesse consciência da efemeridade dos momentos passados, talvez fossem eles mais aproveitados...
Ontem fez oito anos que meu pai morreu... numa segunda-feira à tarde eu soube, e ele já estava sendo enterrado. Quantas perdas a vida nos reserva? Com o tempo perdemos tudo, até mesmo as recordações...
Olho para uma de minhas únicas fotos quando pequena, vestido branco, de chapéu - eu adorava chapéus - e de sapatos vermelhos... ainda lembro de ser brava e voluntariosa já naquela época... meu rosto na foto é confuso, como a vida.
O que nos nos reserva o tempo? Cura de mágoas, de arrependimentos... Definitavamente crescemos com nossos erros, aperfeiçoamos nossas escolhas... Olhamos para trás e rimos ou choramos, ainda assim, vamos vivendo.
Além da nostalgia, a melancolia tem me acompanhado, o choro fácil, a emoção repentina... Tudo tem afetado o corpo que envelhece a cada dia... Orgulho das melhores coisas - Ana -, saudades das relações mais difíceis - com a minha mãe - ainda procurando o sentido do rumo que a vida toma... Saudades dos tempos em que todos éramos felizes, pelo menos momentaneamente, juntos, todos nós, juntos, mesmo aqueles que não fazem mais parte da vida atual porque quem em algum momento fez parte disso tudo, de toda a história, sabe que certas coisas ficam para sempre... ou talvez não...
O ombro amigo, o conselho dado e recebido, as conversas intermináveis, gargalhadas pela madrugada, cinzeiros repletos, ruas de cima, descobertas, desilusões, brigas e adolescência, choros e birras, escândalos e discussões, abraços e soluços, paciência, muita paciência...
Crescer de repente, ter alguém que depende inteiramente de você, que te cobra, que te irrita, mas que você ama infinitamente, e sempre chora quando vê que está crescendo...
Apesar de não saber quem eu sou, ainda, sei que tudo, tudo pelo que passei, com quem passei, como passei, quando passei, tudo isso me fez melhor... mas ainda há tanto chão, tanto caminho, tanto pelo que viver que me sinto cansada...
Cansada, mas a gente continua, para alguém que fez parte disso, a gente continua, de um jeito que talvez nunca saibamos, porque o impacto e a presença que temos nas vidas de algumas pessoas pode ser enorme e marcante, um pequeno momento, um gesto simples, algumas palavras fazem com que nos tornemos eternos para alguém...
O que aprendemos, o que ensinamos, mesmo que através de nossos erros, sempre há uma lição, uma ideia, uma intenção, pois não escrevemos apenas a nossa história, também fazemos parte da história de muitos... mesmo que um dia isso se perca, houve um momento em que pensávamos que duraria para sempre.
domingo, 1 de março de 2009
Vida de modelar
Ah, as casinhas de massinha de modelar...
Comecei com elas na 6ª série, sem querer. Eu tinha alguma atividade na escola que pedia que fizéssemos um dado, de qualquer material, e o levássemos para a aula. Pensei que seria legal fazer um dado de massinha, mas como não tinha em casa, fui comprá-la.
Desde pequena adorava as massinhas Play Doh, que na época chamávamos de super massa. Eu já tivera alguns potes, e com essa massinha já pudera sentir o gosto (literalmente, porque como boa criança, uma vez provei um pedacinho: é salgada!) de manuseá-la e criar o que quisesse, e eu já fui muito criativa! Vocês verão!
Então... com a nostalgia que esse agradável “brinquedo” me trazia, fui atrás de um pote modelar meu dado. Encontrei um pote de 1kg! Era um sonho! Era branca! Com tudo aquilo poderia fazer meu dado e ainda sobraria muito para que eu usasse do jeito que me apetecesse!!!
Peguei quantidade que equivalia a um ovo de galinha, modelei meu dado, fiz os pontinhos que correspondiam aos números e levei-o para a escola.
Cada um dos alunos mostrou os eu, e depois todos ficariam expostos na sala por alguns dias. Não preciso dizer que no outro dia meu dado já não tinha o formato “cubístico”, característico de todos os dados. Ele estava tão amassado que mais parecia massa de pão “descansando antes de ir para o forno”.
Eu fiquei triste, puta na verdade, porque meu dado criativo virara um chiclete mastigado, mas pensando nisso hoje, e é bem provável que eu não tenha pensado na época, mas aquela não havia sido mesmo uma boa idéia...
Fim da história do dado!
Mas eu chego agora na parte que me agrada de verdade! O que eu fiz com o resto da massinha!
Ah, fiz grandes casa, famílias grandes e felizes em seus carros, que projetados por mim, nada mais eram do que banheiras com divisórias...
Eu pegava livros da minha mãe que tivessem capas-duras, e que suas contra-capas fossem lisas, sem nada escrito nelas. E era sobre estes livros que eu fazia as plantas baixas das casinhas (até hoje adoro ver plantas baixas de imóveis). Fazia a divisória dos cômodos, era a engenheira, e não havia nada que não pudesse ser feito. As casinhas não tinham paredes, e o que determinava se se trataria de uma mansão ou de uma casa de dois quartos, era o tamanho do livro, ou livros, porque às vezes eu juntava dois deles.
Meus dois dicionários da Xuxa (quem tem a minha idade deve lembrar-se deles) viraram uma mansão enorme! Criava a pequena mobília: sofás, poltronas, tapetes, esculturas, pias, camas, cadeiras, mesas, criados-mudos, cobertas, travesseiros, banheiras, almofadas, televisores, vídeos-cassete (na época), aparelhos de som, livrinhos, cômodas, penteadeiras, guarda-roupas, berços, carrinhos de bebê... e cada cômodo tinha um estilo diferente. Ah, também havia banquetas e o balcão em “L” da cozinha.
Ninguém além de mim diria que o pequeno quadradinho era uma televisão, ou que a pequena caixinha aberta com uma alcinha era o carrinho de bebê, mas era, e era tudo meu. Particularmente meu. Era meu pequeno mundo de modelar.
E era tudo branco. Apenas os membros da família eram coloridos. Eles não tinham forma humana. Pareciam gotas, sendo que a parte mais gordinha era achatada para que eles ficassem “em pé”, hehe! Eles eu pintava com canetinha hidrocor.
Azul-marinho era o pai, o filho era azul-claro. A mãe era vermelha, a filha, rosa, e o bebê era de alguma cor clarinha que lembrasse se tratar de um bebê (o que no fundo, era impossível). Reparem aqui que as cores azul para menino e vermelho para menina seguiam os padrões da “normalidade”, na época em que eu achava que não poderia ser diferente. A cor que é de um não poderia ser de outro, com risco de que suas características sexuais fossem afetadas por elas. Eu mudei, mas há ainda quem pense, com veemência, assim –hehe.
Eram a minha família perfeita, com a vida perfeita, sempre perturbada por algum pequeno conflito causado por algum outro homem-gota sem rosto, braços ou pernas. Mas eram os pequenos inconvenientes pelos quais até mesmo uma família perfeita deveria passar de vez em quando.
Depois que essa massinha criou sobre si pequenos cristais, perdeu toda a sua maciez por estar exposta, o que a deixava quebradiça e impossível de modelar novamente, eu a substituí por massinhas coloridas e mais populares, que nunca secavam.
Daí minhas casinhas tornaram-se coloridas, minhas piscina em formato de lago ficou azul, fiz árvores com folhas em dois tons de verde, e florzinhas que decoravam os jardins! Tudo colorido! Misturava cores e tinha mais variedade, novos personagens e situações.
Eu sempre representava a “mamãe”, aquela super-perfeita! Que era amiga dos filhos, boa esposa, feliz, bem-educada, boa amiga, bem sucedida, trabalhava fora, cozinhava bem , tinha bom gosto, era linda... Quando me cansava disso, desmontava a mansão e criava uma casa menor, para uma “mulher independente, jovem e sem filhos”.
Eu era Deus no meu mundinho de mentira. Eu modelava as pessoas, os lugares. Eu criava as situações e os problemas, porque não daria para ser sempre feliz, e seu eu enjoasse de cuidar da casa perfeita que tinha tudo que eu não tinha – e não falo só dos bens materiais, mas do sossego e da sensação de carinho e aconchego de uma família feliz – ; se eu cansasse de brincar que era amada por aquela família de propaganda de margarina que eu não tinha; se eu não quisesse mais ser aquela personagem super-independente que não devia nada a ninguém, tudo bem, eu poderia.
Poderia misturar tudo de volta, ou poderia simplesmente voltar para a vida da menina de 11, 12 anos que usava a criatividade para modelar o que ela, quando menina, acreditava que seria uma grande possibilidade de futuro.
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