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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Na rua, por aí, na vida

Acordei com um guardinha me cutucando com o cacetete, ele batia de leve nas minhas costas e dizia: “Vai andando, vagabundo! Lugar de mendigo não é aqui!”. Eu nem olhei pra ele, porque sabe como é, “vagabundo” não tem muita voz, mas eu já fui gente, feito vocês; já tive trabalho, mulher, família...
Às vezes a vida da gente toma um rumo que ninguém sabe porque tomou, e nem culpo Deus porque não foi ele que me deu a bebida na mão. Bebida é uma coisa séria... Lembro que quando eu trabalhava, não ganhava muito, mas pra cachacinha eu sempre tinha um trocado, e quando não tinha, nem esquentava que os amigos da birita pagavam pra mim num dia, e eu pagava pra eles noutro.
O bar ficava perto do trabalho, que não ficava muito longe de casa. De vez em quando a mulher aparecia lá e me enchia de cascudos na frente de todo mundo. Eu amava ela demais, daí nem fazia nada, nunca relei um dedo nela! Deus é testemunha! Mas ela perdeu pra branquinha... que não me dava cascudo, e fazia eu esquecer da vida de merda que eu levava.
A bebida me fez perder o emprego, a mulher, os amigos tudo foram-se embora. O pessoal gosta de cachaceiro que faz social, só no fim de semana, e comigo era todo dia! Toda hora... não tem que agüente isso, mas eu só descobri depois que tinha perdido tudo.
Me afundei de vez quando ela me botou pra fora. Minha finada mãezinha não podia me ajudar; meu pai tava num asilo, porque meus irmãos jogaram ele lá, e se eles jogaram meu pai num asilo, imagina se eles iam pelo menos se dar o trabalho de fazer a mesma coisa comigo?
Filho eu não tive, e agradeço. Viver não é fácil, inda mais com vício, inda mais sem um horizonte pra apreciar... eu não ia querer envergonhar meu filho do jeito que eu me envergonho sozinho. Viver na rua é ainda mais difícil do que só viver. A gente acostuma a pedir esmola, e a gastar o que ganha com cachaça, mas pelo menos eu não uso nada de droga ruim.
A gente aprende a não ligar pra higiene, a mijar em qualquer canto, a pedir banheiro pra lavar o rosto e tomar um banho de gato; a gente aprende a viver só com uma roupa; a dormir no relento, no banco de uma praça, se cobrindo com papelão... daí é que a gente vai ficando invisível pra todo mundo, e com isso a gente não acostuma! Eu sei que eu fedo, mas eu continuo existindo, meu fedor prova isso! Não adianta fechar o vidro do carro ou passar reto na rua, porque eu continuo existindo, e marcando meu território onde eu posso, porque a rua não é de ninguém.
Na rua não tem camaradagem, não! Tem os pilantras que ficam tentando roubar você. Só tive um amigo na rua, o Mequetrefe, era um cachorro que fedia tanto quanto eu, acho que por isso ele veio atrás de mim, uma vez que eu tava passando perto do mercado público, nunca mais a gente se largou. Aquele era amigo! Passava fome junto comigo, e por isso, às vezes eu não tomava uma pra dar uma comida qualquer pra ele. A gente dividia lanche de padaria, resto de comida de restaurante, até lixo a gente comia quando a coisa apertava.
No dia que ele morreu... (pausa)... no dia que ele foi atropelado por um caminhão... (pausa)... eu chorei muito! Ele tava andando no cantinho da rua, mas o caminhão não teve pena! Deu nele, passou por cima do bichinho, ele nem viu nada! Foi direto pro paraíso dos animais, e eu espero que ele teja bem feliz lá, do mesmo jeito que eu espero ir pra lá logo, porque aqui, nós dois somos invisível.
Mas eu acho que eu vou pro inferno, já que eu sou bêbado, vagabundo, larguei a vida boa que Deus tinha me dado, e nunca mais quis voltar pra ela por causa da cachaça... Nem sei se é desculpa minha de medo de olhar pra trás... Começar tudo de novo dá muito trabalho... e a cachaça é tão boa...

sexta-feira, 27 de março de 2009

Por que as ruas são privadas de totós?

Acho literalmente uma merda, uma falta de respeito de quem tem seu lindo cãozinho, deixá-lo cagar nas ruas. Na verdade, o problema não é a merda em si, mas o fato de ela ficar justamente na calçada. Qual é o problema dessa gente?

Todos os dias, ao levar a Ana para a escola, deparamo-nos com merdas para todos os gostos! Maiores, menores, mais pastosas... Os aromas então... São aquela delícia! Hoje, por exemplo, tinha até uma nova pedida: vômito de cachorro! Sei que era de cachorro porque o vômito era composto de ração.

Mas a culpa não é dos companheiros peludos. Adoro cachorros! Apesar de admitir que a falta de convivência com eles acabou me tornando medrosa, principalmente quando se trata de exemplares de grande porte, mesmo que sejam inofensivos.

O problema são os donos, porcos relaxados, porcos imundos! Se as senhorinhas já estão muito velhas para se abaixarem e catarem as cagadas de seus animaizinhos, que não os levem para o passeio! Porra, é foda ter que caminhar na CALÇADA, que foi criada com essa finalidade, de ser um lugar seguro para os "passantes passarem" sem serem admoestados por carros ou outro tipo de veículo, mas ela é ao mesmo tempo uma zona de guerra, pois há minas para todos os lados!!!

Se você não for atento, pode pisar numa que vai acabar com o seu bom-humor!

Levem seus cachorro para cagar em terrenos baldios, mas melhor do que isso, juntem os charutos "das crianças", ou melhor ainda, se você gosta ou não se importa se o seu cachorrinho está emporcalhando as ruas, deixe que ele comece a cagar dentro da sua casa, em cima da sua cama quem sabe, eu não me importaria... hehe

Falando em charutos, hoje uma surpresa!

Fazia tempo que não via um despacho, mas ao desviar de uma merdinha seca, que ontem ainda tinha o frescor das manhãs, hoje vi numa sarjeta dois charutos, e ainda bem inocente pensei: "Nossa, são charutos? Quem deixaria cair dois charutos no chão e iria embora?" Daí me toquei que perto dos charutos havia uma garrafa de plástico de cachaça vagabunda e um copo quebrado.

Não bastam as merdas caninas, ainda temos que conviver com despachos de pessoas que não têm competência para conseguir alguma coisa, e por isso recorrem a essas ridículas "saídas".

Beijinhos de merda para vocês, e que a pomba-gira nos abençoe! ;)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Passeio Noturno

Em uma aula de linguística ou gramática, não lembro ao certo, a professora nos mandou ler dois contos de Rubem Fonseca: Passeio Noturno e Passeio Noturno II. Ambos são ótimos! - para quem gosta de um estilo mais macabro, digamos.
Depois de lidos, deveríamos escrever a nossa versão dos contos, uma espécie de continuação.
E esta é a minha:

Finalmente é sexta-feira, e eu, como bom trabalhador mereço descanso. Mas não aquele descanso em si, falo daquele outro tipo, daquele que me relaxa mais do que uma dose de uísque ou uma massagem nos pés.
Quero relaxar, e lembro que a filial do inferno fica na minha casa. Meus filhos não se lembram da minha existência a menos que precisem de dinheiro - tenho certeza que devem usar drogas ou no mínimo já devem ter participado de alguma orgia -, e minha esposa passa tanto tempo embriagada, dopada com calmantes ou assistindo a novelas irritantes, que creio, não fazemos sexo há pelo menos dois meses, e da última vez, oh céus! Foi como praticar necrofilia, pois a desgraçada está mais frígida do que um bife de vaca em freezer de açougue.
Eu poderia matar toda a minha família, oh sim, eu poderia. Tenho esse direito! Sou o provedor de tudo. Desde as calcinhas rendadas até os remédios de tarja preta que deixam minha mulher como um zumbi. Mas não, como um bom pai, preservando nosso nome e a tradição familiar, somos felizes! Pelo menos é o que acredita quem vê de fora, e o que importa são as aparências.
Mas dizia eu que queria descansar, e chegando em casa, o panorama é o de sempre. Já nem me lembro mais quando foi a última vez em que vi minha mulher com outro traje que não fosse uma camisola. Nem sei mais se meus filhos têm todos os dentes na boca, se não se perderam em alguma briga, ou se minha filha já abortou um filho indesejado, ou se teve uma doença venérea e, por vingança não infectou todos os seus parceiros.
Sou um pai desatualizado da realidade de minhas crianças... crianças... são apenas sanguessugas... algumas pessoas têm cachorros, você tem adoráveis filhos! A felicidade é constante.
Vendo todo aquele ambiente receptivo, a necessidade de relaxar aumenta, e novamente convido minha esposa para dar uma volta de carro, mesmo sabendo que ela não iria comigo nem até a cozinha. Com sua negativa, dou um longo suspiro de alívio, jogo a gravata sobre a cama, troco a roupa usada o dia inteiro por uma bermuda, camiseta e tênis. A noite está agradável, e antes mesmo de sair de casa, já sei para que lado da cidade rumar.
Tiro o carro da garagem, desço para apreciar por um momento o "gatinho' que adorna seu capô, e percebo que há uma pequena mancha de sangue seco da noite anterior. Oh homem! Que descuido! Desse jeito logo seu carro atrairá moscas varejeiras, afoitas por um pedaço de carne pendurado no paralama... realmente um descuido. Apanho dentro do carro uma toalinha, dou-lhe uma cuspidela e esfrego gentilmente sobre a mancha, que logo desaparece e novamente faz a pintura reluzir sob a luz do poste.
Agora sim, pronto para a caçada!
Saio em direção ao sul da cidade, lá as ruas são escuras e ermas. E hoje, estranhamente, apesar de ser véspera de fim de semana, estas ruas estão ainda mais desertas e ainda mais lúgubres, o que a mim só causa excitação, pois quanto maior é a demora em encontrar a presa certa, mais estimulado me sinto a continuar.
Passo por uma, duas, três ruas, até que na quarta surge alguém. Que sorte! Pelo menos era o que parecia, até eu ver a pessoa direito. Como já estava com os faróis apagados, acendo-os e o que vejo me deixa profundamente atordoado. Era uma mulher, andava capenga das duas pernas. Parecia se arrastar constantemente, levava embrulho semelhante ao da mulher que atropelei outro dia, e estava pintada de sangue como ela, depois de ter ido parar no muro. Não! Não! Não! Não pode ser! Eu a matei, não há dúvidas! Consegui até ouvir seus ossos se partindo contra meu carro!
Acelerei, mas não foi em sua direção. Segui reto, acreditando que de lá seguiria para casa e beberia para relaxar, talvez já tivesse ido longe demais, precisava de outras formas de entretenimento. Era isso.
Tentando me controlar - tudo isso é fruto de todo o estresse e pressão que sofro naquela maldita companhia -, vou seguindo até chegar em uma outra região mais movimentada. Lá senti-me mais seguro, não fosse pelo fato de eu olhar para o banco do carona e ver Ângela, isso me fazia crer que logo eu estaria compartilhando os remédios de minha esposa. A maldita piranha estava com a cabeça rachada, sem a mandíbula, braços quebrados como todo o resto do corpo, e ainda por cima pingando sangue no meu banco de couro! Orgulhei-me pela qualidade do serviço, mas também quase urinei nas calças de tanto medo da criatura bizarra, que certamente fora morta por mim ainda ontem!
O pavor aumentou ainda mais quando ela virou-se para mim e com o olho direito quase saindo da órbita, deu uma piscada mórbida e balbuciou que agora era a minha vez. Freei bruscamente no meio da rua, eram 23h27. Desci do carro abruptamente e o ônibus que vinha em direção contrária à pista em que eu estava me levou... Levou-me sem parada para o inferno. O baque foi grande. O torpor tomou conta de mim, mas ainda pude ver que minha cabeça subia e batia no asfalto diversas vezes, pois ficou presa à roda do ônibus, até se esfacelar por completo, e toda minha massa encefálica ficar espalhada pela pista, junto com as minhas vísceras esmagadas e minha pele esticada como um balão estourado em festa de criança.
Parece que amanhã não terei um dia terrível na companhia.