Sonhei que voava. Várias vezes tive esse sonho. Começo dando saltos leves e quando me dou conta, estou flutuando com graça; é a melhor sensação do mundo. Meus braços me norteiam e consigo sentir o ar suave percorrendo todo o meu corpo. Rodopio, dou cambalhotas, mas é tudo lento e sinto cada parte de mim sendo parte da matéria que não sou capaz de sentir como tangível.
Hoje, eu alçava voo em uma praia, em um fim de tarde febril e de céu azul acinzentado. Havia algumas pessoas ali e a garota de cabelos cacheados me olhou com admiração quando eu ascendi. Eu trajava um vestido preto, na altura dos joelhos, acinturado e de saia rodada; estava descalça. Fizeram-se pequenos redemoinhos de areia aos meus pés, e então essa areia tornou-se um rastro de purpurina dourada por onde eu ia passando.
Eu dava a mão a ela, queria tocá-la e trazê-la comigo para o ar, mas não consegui porque ela deveria ficar ali.
Agora me ocorreu que houve linda junção de elementos. A água da praia, a areia que é o chão, a terra; e o ar, que era onde eu, fogo, me propagava, como uma chama negra, feliz feliz feliz. Enquanto houver ar, me propagarei.
Há pouco vi uma coruja perto da praia. Nunca tinha visto uma coruja ao acaso. Ela era pequena, graciosa; olhou-me nos olhos e voou livre em direção a uma luz. Sincronicidade.
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segunda-feira, 30 de setembro de 2013
sábado, 29 de setembro de 2012
Balão leve e cheio
Nu, vem ele flutuando na nuvem escura, trazendo chuva para a tarde de prima Vera.
Escrevi esse versinho anteontem, à tarde, na cama, enquanto olhava pela janela as nuvens que passavam no céu. Acho que as nuvens mais bonitas são aquelas meio negras que passam em frente ao sol, tapando-o e deixando um branco muito glacial nas suas bordas. Quase me cegam, mas não tem como não olhar.
Olhei pela janela e quis escrever; não foi grande coisa, mas na hora em que li, fiquei feliz. Sabe feliz? Daí eu disse que escrever me deixava feliz, e foi como uma brasinha brilhando vermelha dentro do meu coração apertado. Eu senti que precisava escrever, seja lá o que fosse, mas não saiu mais nada.
Ontem, passei quase o dia todo dormindo, sonhando, e quando acordava sentia o corpo todo doer de ficar tanto tempo deitada. Uma insatisfação gigante dentro de mim, que me ocupa toda. Sinto que estou cada dia mais vazia, cada dia mais distante de ser quem eu já fui.
Acho que escrever me alivia, mas acho também que gosto muito de sofrer porque evito escrever com todas as minhas forças. Não tenho nada pra dizer pra ninguém, mas talvez só quem precise ouvir alguma coisa seja eu mesma, sobre mim mesma, sobre o que faço comigo todos os dias, levando essa vida nas costas que de tão vazia se torna um balão pesado de coisas ruins.
Eu já fui feliz, mas perdi a pista desse caminho aqui dentro. Uma dor, um peso gigante de angústia e ansiedade que não sei onde enfiar. Ando chorona, mais que de costume. Me entupindo de comida, novela, fofocas sobre pessoas estúpidas e filmes de terror péssimos.
Não fazem mesmo mais filmes de terror como antigamente, mas eu insisto em assisti-los, mesmo sabendo que serão uma porra de uma piada. Não sinto prazer de verdade com coisa nenhuma. Faço o que devo, enrolo no que posso e vou levando com a barriga que fica cada dia maior. Já disse que estou me enchendo de coisas externas pra tentar aplacar o me faz sentir vazia, né?
Só queria saber qual é o meu problema. Será que algum remédio me resolve? Será que uma surra dá conta de mim? Será que com o tempo passa ou vai piorar? Será? E choro.
Passei a tarde toda chorando pro meu analista e ele disse que não tinha problema d'eu chorar ali com ele, mas nem lencinhos ele tem pra oferecer, então fico toda ranhenta na sessão, mas o que importa é que posso chorar. Será que é só dor que tem em mim? Tem que ser muita dor pra saírem tantas lágrimas, mas se alguém me pergunta por que eu tô chorando, não sei dizer.
Quase explodo de tanto sentir tudo e não sentir nada. Vida de merda a que eu carrego dentro de mim; e pode ser que amanhã tudo mude e que eu não sinta mais nada disso e esteja dando pulinhos por aí.
Escrevi esse versinho anteontem, à tarde, na cama, enquanto olhava pela janela as nuvens que passavam no céu. Acho que as nuvens mais bonitas são aquelas meio negras que passam em frente ao sol, tapando-o e deixando um branco muito glacial nas suas bordas. Quase me cegam, mas não tem como não olhar.
Olhei pela janela e quis escrever; não foi grande coisa, mas na hora em que li, fiquei feliz. Sabe feliz? Daí eu disse que escrever me deixava feliz, e foi como uma brasinha brilhando vermelha dentro do meu coração apertado. Eu senti que precisava escrever, seja lá o que fosse, mas não saiu mais nada.
Ontem, passei quase o dia todo dormindo, sonhando, e quando acordava sentia o corpo todo doer de ficar tanto tempo deitada. Uma insatisfação gigante dentro de mim, que me ocupa toda. Sinto que estou cada dia mais vazia, cada dia mais distante de ser quem eu já fui.
Acho que escrever me alivia, mas acho também que gosto muito de sofrer porque evito escrever com todas as minhas forças. Não tenho nada pra dizer pra ninguém, mas talvez só quem precise ouvir alguma coisa seja eu mesma, sobre mim mesma, sobre o que faço comigo todos os dias, levando essa vida nas costas que de tão vazia se torna um balão pesado de coisas ruins.
Eu já fui feliz, mas perdi a pista desse caminho aqui dentro. Uma dor, um peso gigante de angústia e ansiedade que não sei onde enfiar. Ando chorona, mais que de costume. Me entupindo de comida, novela, fofocas sobre pessoas estúpidas e filmes de terror péssimos.
Não fazem mesmo mais filmes de terror como antigamente, mas eu insisto em assisti-los, mesmo sabendo que serão uma porra de uma piada. Não sinto prazer de verdade com coisa nenhuma. Faço o que devo, enrolo no que posso e vou levando com a barriga que fica cada dia maior. Já disse que estou me enchendo de coisas externas pra tentar aplacar o me faz sentir vazia, né?
Só queria saber qual é o meu problema. Será que algum remédio me resolve? Será que uma surra dá conta de mim? Será que com o tempo passa ou vai piorar? Será? E choro.
Passei a tarde toda chorando pro meu analista e ele disse que não tinha problema d'eu chorar ali com ele, mas nem lencinhos ele tem pra oferecer, então fico toda ranhenta na sessão, mas o que importa é que posso chorar. Será que é só dor que tem em mim? Tem que ser muita dor pra saírem tantas lágrimas, mas se alguém me pergunta por que eu tô chorando, não sei dizer.
Quase explodo de tanto sentir tudo e não sentir nada. Vida de merda a que eu carrego dentro de mim; e pode ser que amanhã tudo mude e que eu não sinta mais nada disso e esteja dando pulinhos por aí.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Na caçamba, o desejo e a vergonha
As noites não são mais as mesmas. Sinto todo o tipo de agonia. Se me cubro, sinto calor; se me descubro, sinto frio. Reviro-me pelos sonhos macabros. Sonho muito, sonhos variados. Havia falta de água ou excesso dela numa escola. Andava pela rua, passava em uma farmácia e comprava incontáveis produtos, não sei ao certo o que eram, mas me eram muito agradáveis às vistas. Quando saía, à esquina, via um amontoado de gente que estava parada, mas não com o mesmo espanto que eu.
O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.
Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?
Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.
O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.
Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?
Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.
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