Sinto o ímpeto de escrever depois de falar com ela. De
repente é como se me referisse a uma parte de mim que é anterior à minha
existência. Porque é; eu sou uma extensão dela, de muito do que há nela, mas
não sou ela e ela não sou eu. Ainda assim é como se eu buscasse saber mais de
mim mesma sabendo dela. É como se ela fosse a minha causa primordial de
angústia; a grande origem de tudo. A minha origem e de tudo o que sinto.
Mas saber disso não torna o vínculo sagrado ou imaculado; ao
contrário, é caótico, desrespeitoso, atropelado. Não sei por que me lembrei de
que, quando criança, acreditava que tinha uma missão especial na terra; eu
acreditava que faria a diferença na vida das pessoas e essa crença me tornava
uma criança otimista. Via a vida com brilho, como um mistério de novela que,
mesmo passando por capítulos tortuosos, tinha a certeza de que o bom ainda
estava por vir; o melhor viria no final e o fim nunca era amargo. O amargor era
só no caminho.
Depois de adulta, uma colega na universidade me disse que
não somos especiais e foi como se um véu tivesse sido tirado dos meus olhos.
Até o início dos vinte anos eu ainda acreditava que era especial, que seria
espacial, que vinha de outro lugar que me fazia diferente de todos os demais
porque era assim que me sentia; deslocada, não pertencente.
Talvez minha mãe não tenha me ensinado esse senso de
pertencimento, se é que isso é algo que se ensine ou que se aprenda. Não sei.
Sei que nos momentos de maior instabilidade pelos quais passei, e sem qualquer
tipo de carapaça que pudesse me proteger, eu era naturalmente uma otimista.
Contraditoriamente, quando a vida se ajeitou nos âmbitos práticos, me vi desesperançosa.
Acho que foi quando deixei que minha menina morresse. Parecia que o final feliz
tinha chegado e que ela não era mais necessária na minha realidade. Acontece
que deixá-la ir me fez vazia, adulta e cética.
Nessa época, eu sequer me dei conta de que a vida não tinha
qualquer sentido, mas via tudo o que parecia ser bom perder o propósito. Às
vezes, eu pensava “por que acordar de manhã, me levantar, escovar os dentes e
fazer tudo o que preciso se no fim de tudo eu vou morrer?”. “Qual é o sentido de me
esforçar pra qualquer coisa se no final tudo será perdido?”. Essas perguntas me
rondavam e pareciam determinantes para a minha imobilidade, mas são lembranças
de um tempo que vivi e em que eu não tinha consciência do que estou pensando
agora.
Pensei agora que mudei, ainda bem. Mas na minha posição de
só saber de mim, me pergunto se ela também seria capaz de mudar. Estranhei a
forma como se deu o telefonema. Comedida, quase doce, apaziguadora. Não me
pediu desculpas e não sei já pediu alguma vez. Minha memória emula uma
apologia, mas não sei se aconteceu de fato, se uma parte de mim tenta
humanizá-la, enquanto a outra não concebe que ela consiga pedir desculpas por
qualquer coisa.
De verdade ou não, me imagino indo a sua casa e em algum
momento, causado por uma discussão cujo motivo não sei, vejo ela vindo em minha
direção com uma faca, me acertando, furando minha pele, eu sangrando muito,
desfalecendo, sentindo toda a minha vida passar diante de meus olhos, enquanto
não entendo por que ela me odeia tanto; vendo minha existência escorrer de meu
corpo como o sangue pulsando para fora, sem o contorno do corpo para lhe dar
sentido.
Penso que pensar que minha mãe seria capaz de me matar pode ser, na verdade, um desejo meu de morrer. Se de alguma forma, ela também sou eu, não seria algo como um suicídio por outras mãos? Penso que eu poderia avançar sobre ela, em legítima defesa, dando eu cabo de sua vida, e então não seria uma forma de matar a angústia da minha existência?
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