quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O caminho da barriga

Não consigo dormir e isso é raro. Me sinto mal quando não consigo, porque isso é sinal de que já dormi demais horas antes; demais até pra mim que durmo como ursos hibernam no inverno frio. É ruim porque sinto que não estou indo pra onde deveria ir, pro meu caminho, pra profusão de símbolos que transbordam soltos na minha cabeça.

Quando eu era mais nova, com alguma regularidade, sonhava com ruas muito íngremes, tanto que me davam náuseas; às vezes eu tentava subi-las com um carro, mas o carro andava pra trás e eu entrava em desespero. Deviam ser os tempos fodidos da época. Agora, o que me invade com frequência são os sonhos  com estradas, muitas delas. Rodovias, caminhos-movimentados-sem-fim. Ando por marginais, vias-expressas, ladeiras e faço muitos retornos. Acho que isso quer dizer que ainda estou buscando o meu caminho, aquele feito sob medida pra mim, pro que eu busco e ainda não sei onde vai dar.

Em muitos deles eu paro em grandes supermercados e faço compras. Adoro mercados e posso passar horas pelos corredores. Os grandes, que têm tudo, são os meus favoritos. Dentro deles me sinto amparada, porque sempre gostei de me imaginar em cenários apocalípticos e os mercados me dão a sensação de que vou encontrar tudo o que preciso ali. Não se preocupe, aqui você está segura, eu penso. Acho que nisso está também o meu interior mulherzinha, dona-de-casa. Muitas pessoas odeiam ir ao mercado, acham verdadeiro suplício. Eu poderia ser a compradora oficial das famílias atarefadas, acho terapêutico um bom supermercado.

Acho também que gosto tanto hoje porque quando era menor, lá naquela cidade onde cresci, o mercado não era lá muito sortido e mesmo quando era, nem sempre podíamos comprar tudo o que era gostoso. Deve ser lombriga remanescente de tempos difíceis que ainda me habita. Acho que por isso sou gorda hoje; meu inconsciente ainda pensa que pode faltar, então quando surge a possibilidade de comer um bom prato, de gordura principalmente, ele deve ser bem servido, porque nunca se sabe quando veremos um igual novamente. A necessidade primordial sempre fala mais alto, mesmo quando já está sendo suprida.

Nisso, o lado com que pouco falo, vai falando comigo. Me deixa no corpo a mensagem do medo da falta e nos sonhos a busca pelo caminho que ainda não encontrei.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Te direi quem és

Dizem ainda hoje, mas isso já vem há alguns milhares de anos, que gatos são seres muito especiais; neutralizadores de más energias, deuses, protetores, superiores e afins. Apareceram na minha vida quando eu ainda era muito pequena e, mantêm-se nela até hoje, mas agora vistos sob uma ótica que minha cabeça sempre avoada nunca fora capaz de perceber, apesar da convivência diária com os pelos e miados... Eis que certa pessoa me diz um dia que os gatos que tenho aqui em casa não são nada além de um alter-ego meu; na verdade, dois; Marte e Marta, de acordo com ele são a representação dos meus lados masculino e feminino, bem aqui, passeando pela casa e esfregando o que sou na minha cara todos os dias, por quase dois anos, sem que percebesse que eles são como eu.

Depois do choque, vi como as coisas se encaixavam.

Marte, meu lado masculino, deus da guerra, colérico, negro como o que não tem fim, mal-humorado como os velhos mal-amados, impaciente, gordo e sedentário, faminto e calado, vingativo e isolado; destemperado, retraído e nunca muito acessível a ser amado, tocado e acolhido, a menos que parta dele próprio a vontade de assim o ser. Ele dorme o dia todo, como todos os gatos, mas seu sono imiscui-se ao meu, tornando a nossa fuga muito mais agradável através de seus pelos pretos que se soltam sobre o chão, sobre os tapetes e as cobertas.

Marta sou eu feminina e, mesmo nisso, há o Marte junto. Curioso é que pesquisando sobre Marta, descobri que esse é o nome de um animalzinho muito simpático, parente das doninhas e que faz parte do gênero Martes (!) e, vejam, vocês, assim como a parente selvagem que é curiosa e facilmente atraída por qualquer coisa que brilhe, assim também sou eu; do espalhafato, do brilho, da purpurina. Além desse bichinho, Marta também é um nome bíblico e de acordo com algumas fontes, quer dizer dona de casa, senhora da casa e esse significado não poderia ser mais propício para nós duas.

A gata é delgada, rajada e elegante. Tem olhos brilhantes e miado entusiasta. Anda pela casa atrás de todo mundo, especialmente da Ana, no que ouso dizer que a gata a vê como uma filha também, porque está sempre atenta ao que a menina faz. Além disso, fala como uma comadre sem papas na língua. Às, vezes, estamos nós humanos conversando, quando surge alguma pergunta derradeira, a qual a felina metida sempre  responde com um sonoro NÃO. Ela manda e desmanda, sempre afofando as cobertas, subindo nos meus ombros como um papagaio de pirata, ronronando nos pés da cama, exigindo comida nova e água fresca, confortando com seus olhos de ouro nossas cabeças que carregam o mundo dentro de si.

Ela é simpática, sociável, leve e preocupada com o bem-estar de tudo o que a cerca. Se me deprimo, durmo; se durmo, sei que logo eles virão para me acompanhar na solidão. Se bagunçamos a casa, logo estão eles juntos a comer caixas, derrubar água e a correr sem parar com suas unhas tilintando pelo assoalho e tornando nossas noites ainda mais miseráveis. Se há portas fechadas, mandam os dois peludos que elas sejam abertas, aos seus interesses e necessidades. Se há frio, aconchegam-se em nossos colos ao seu bel prazer e se estamos receptivos ou se percebem a falta em nossos olhos, vêm como seres cheios de luz e compaixão e nos presenteiam com carinhos amoráveis de cabeça contra toda a nossa matéria. Liquefazem-se em pelos macios, como mãos aprazíveis que nos tocam não só a pele, mas também o coração, enchendo-nos de amor desinteressado, que é o amor mais puro que há, já sabem disso os humanos.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Da independência à proclamação da república

Tudo começou quando meus pais se separaram. Fomos lá para o fim da rua, morar no último prédio que havia. Isso foi no tempo em que eu tinha muitos vizinhos amigos e um hamster suicída; tempo em que eu morria de medo de dormir de frente para a parede e em que a minha mãe preparava bacon frito como aperitivo para mim e meu irmão, e nisso, lá se vão vinte e um anos.

Depois, fomos para a avenida principal, no tempo em que o mercado ficava ali, do lado do prédio em que fomos morar, e lembro até hoje da aventura de ter ido ao mercado para a minha mãe, com a ilustre missão de comprar fósforos. Embaixo desse prédio, havia uma sorveteria, onde tomávamos vacas pretas... Foi morando nesse lugar que sofri meu segundo pior acidente: a porta de vidro temperado da entrada quebrou em cima de mim quando fui abri-la; tenho as cicatrizes até hoje e ainda me lembro da madeira rosa de compensado colocada no lugar da porta até que chegasse uma nova. Lá, minha Barbie era casada com o Jaspion do meu irmão e também ia à guerra com os bonecos dele. Lá, meu irmão teve sua primeira crise de rebeldia, trancando-se no banheiro. Lá, eu tinha medo do Freddie Krueger e assisti pela primeira vez Hellraiser - tudo isso com menos de sete anos de idade!

Foi nesse lugar também que deixamos todas as nossas coisas com vizinhos, em gavetas alheias, e juntamos nossos trapos rumo ao norte. Até os seis anos de idade, tive uma infância feliz em São José, santo, pai de Jesus, carpinteiro... Feliz no Kobrasol.

Quatorze anos: restante da infância, adolescência e começo da idade adulta em terras caboclas - até uma filha índia consegui por lá - e me vejo de volta ao meu lugar. Manezinha da Ilha porque nasci lá, mas sou como meu pai, e não é São José, apesar de ter me acompanhado e ser o Padroeiro da cidade do norte, apesar de lá e aqui haver sua imagem; uma no meio do rio, pequena, tímida, em concreto, pintada de branco, colocando-se sobre as águas quando a maré sobe; a outra, grande, enorme, de metal, imponente no meio da praça que fica à beira-mar. Não é por causa desse pai que tanto amo essa cidade que tem nome de santo; é por causa do pai que me fez mesmo, daquele que nasceu na Colônia Santana e se criou lá, ali, aqui, nesses lados do continente que me alegram muito mais do que qualquer praia bonita do lado da Ilha da Magia. Meu lado bruxa, muito bem herdado de minha mãe, não faz questão de atravessar a ponte, porque ama mesmo é essa terra.

Então, que depois de quatorze anos, graças a meu pai de sangue, me vejo em casa novamente. A moradia que me deixou ficava aqui, nesse irmão Kobrasol que era novo e pequeno como eu, e que cresceu, casou-se e se multiplicou pela vizinhança. Voltei para cá, indo para a tal Dinarte Domingues. Não sei quem foi, não faço ideia. Sei que depois de quase três anos morando nesse desconhecido, tive minha independência emocional, indo para onde eu achava que cabia, na Sete de Setembro. A independência durou quase cinco anos e hoje me vejo indo para a Quinze de Novembro, proclamando minha república! Numa evolução de fatos históricos, que se encaixam em meus endereços, em meus momentos pessoais, na minha evolução.

Hoje é véspera de mudança, e destarte, deixei hoje toda a minha falta de criatividade de lado para manifestar todo o amor que sinto pelo lugar onde moro, digo, onde morei até agora, pois, a partir de amanhã, estarei em outro lugar, mas que fica ao seu lado, sendo o lugar que lhe deu origem, então não sinto que abandono meu irmão, sinto que me junto a seu pai, nosso.

Esta casinha, que apesar de ser uma apartamento, sempre será a minha casinha, tem agora só bagunça, caixas lacradas, sacos pretos, a carcaça de móveis e mais um pedaço da minha história. Hoje é a véspera de um dia cansativo e feliz, mas também triste porque sei que um pedacinho de mim está indo embora e não vai mais voltar.

Encerro com lágrimas nos olhos, um pequeno peso no coração e enormes expectativas pelo que virá.

Amor,

Karla


quinta-feira, 15 de março de 2012

K.I.S.S.

Crianças são os seres mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, os mais escrotos que existem. Enquanto você é pequeno, pode passar por inúmeras situações de abuso, que veja só, são cometidas por outras crianças e, por isso, não há bem uma punição pelas merdas que podem fazer contra você.

A criança sofre por ser frágil e suscetível justamente pelas mãos de outra, que é igual a ela e que deveria ser tão frágil e suscetível quanto ela.

Quando tinha uns quatro ou cinco anos, imagine todo o discernimento que me habitava – nenhum –, estava eu na frente da escola em que “estudava” na época,

(vamos abrir aqui um gigantesco parêntese; com quatro ou cinco anos eu não estudava bosta nenhuma; a escola era só um depósito de crianças, que mesmo sendo a melhor escola, não passava de um lugar com “tias” rabugentas doidas para matar meia turma de pequenos animais; eu comia cola, via meninos tendo ataques de histeria por serem abandonados ali por suas mães pós-modernas que precisavam trabalhar, me sentia deslocada e feliz só de vez em quando, como sempre)

esperando que alguém fosse me buscar. Ficava lá na calçada, onde eram vendidas guloseimas por tiozinhos com ares de pedófilos; havia algo que eu achava muito interessante, mas que agora não tenho certeza se já comi ou não: puxa-puxa. Era um doce à base de calda de açúcar, que era bem grudento e quando você dava uma dentada, ele esticava, daí o nome; uma beleza para os dentes das crianças.

Além desse doce, havia, claro, pipoca. Acho que eu gostava de pipoca. Pipoca é bom. Talvez naquele dia eu estivesse com muita vontade de comer pipoca, porque umas crianças maiores estavam comendo a dita cuja por ali e um belo punhado caiu no chão, como sempre acontece quando alguém come milho estourado e eu, que era uma menininha, estava com vontade de comer, então não vi nada de errado em juntar do chão da calçada, colocar na boca, mastigar e, delícia (!), estava comendo o que queria.

Acontece que quem me viu fazer isso – a escola toda –, não encarou meu ato como eu e fizeram com que me sentisse a criatura mais imunda da face da terra por ter comido algo do chão. Riram de mim, me chamaram de suja e porca. Senti-me absolutamente humilhada, envergonhada, acuada. Uma tristeza só para uma menina tão pequena. Era só pipoca, eu era só uma criança, era só um chão sujo de calçada. Eu certamente não iria morrer por ter comido aquilo, visto que a pessoa “grandota” que aqui vos fala é bastante saudável – leia-se acima do peso.

É claro que hoje em dia não cato nenhuma comida que tenha caído no chão, a não ser que seja o chão da minha casa ou de algum lugar conhecido; é, certos hábitos não se perdem e com isso eu sempre aumento a imunidade do meu corpinho.

Mas pergunte se isso me marcou.

- Isso te marcou, Karla?

- Ô. Não é à toa que eu tenho 27 anos e ainda me lembro disso. Foi uma coisa de crianças que viram motivo para avacalhar com uma outra, igual a todas elas. Foi algo que aconteceu de um jeito despretensioso por parte delas talvez, mas que me deixou uma marca muito profunda porque eu não merecia aquilo, eu não tinha noção do que o que estava fazendo era errado e que por isso eu deveria ser alertada, não achincalhada, mas quem chamou a minha atenção foram mini-pessoas que também não sabiam que a forma que usaram para me abordar me causaria tanto mal.

Hoje tenho o entendimento de que carreguei essa história por ter sido ignorante e por ter sido vítima de outros ignorantes. Éramos todos crianças e escrever sobre isso me deixa mais leve por ver que consigo expressar esse incômodo de maneira saudável.

Agora, alguém me pergunte se eu metralharia cada um dos filhos da puta, caso os visse pela rua? Absolutamente. ;)

segunda-feira, 12 de março de 2012

Peidei, e agora?

O amor é lindo... Mas de que amor costumamos falar quando dizemos essa frase? Do amor que abre a porta do carro? que leva flores? que leva pra jantar? Esse é bem lindo, bem formal e cada dia mais raro de encontrar.

Tem também aquele bonito, que é o que dorme com você duas ou três vezes por semana, que às vezes leva uma cafezinho na cama, que manda mensagenzinhas em uma hora inesperada.

Tem aquele bem charmoso, que divide as contas com você, que prepara o almoço, que esquenta o seu pé no meio da noite.

Tem aquele sensual, que te faz sexo oral, pega você de jeito e te deixa boba só de ficar olhando.

Tudo é lindo, não é? Tudo é amor, então por que, por que, por que diabos as pessoas não admitem que suas relações avancem um passo a mais na intimidade através do compartilhamento de atitudes singelas e comuns a todos?

Para mim, não existe um relacionamento de verdade se meu namorado/marido não tem conhecimento de que eu peido, arroto, cago e mijo de porta aberta! E sim, é com essas denominações mesmo!

Ai, sempre a mesma história furada de "bons modos", "ninguém precisa saber o que eu faço no banheiro", "isso é porquice", "mulher não faz isso", "acaba com o encanto da relação" e blá blá blá.

Gente, vamos encarar os fatos:

Eu fui muito bem educada pela minha mãe, apesar de ter presenciado todos os tipos de necessidades fisiológicas dela. Vejam bem, ela me ensinou as regras e é importante você saber as regras, claro.

Mas é importante também que saibamos que uma coisa é a relação que temos com o outro que é o outro; aquele com quem não temos intimidade, com quem não temos convivência afetiva ou que não vive com o seu rabinho dentro da nossa casa.

Outra coisa totalmente diferente é a convivência que você tem com seu cônjuge. Uma pessoa com quem você decidiu compartilhar os melhores e os piores momentos da sua vida, sendo que mijar/cagar/peidar e outras coisas semelhantes sequer podem ser encaixadas como piores momentos, pois são apenas parte do dia a dia de qualquer ser que respire na face da terra.

Sua mãezinha, por exemplo, que deus a abençoe, limpou muito a sua bunda; aliás, tão incontáveis vezes que se duvidar, até hoje, quando você sente uma dor de barriga, pensa em ligar para ela. E é assim mesmo. As pessoas com quem você pode contar quando está na merda literalmente, geralmente são as pessoas com quem você vai poder contar para o resto da vida.

Não se trata de sentir cheiros; trata-se de intimidade, no seu estado mais "tcham" de ser. Não se trata de você fazer cara feia e ficar pensando "puta que pariu, ele/ela tá podre! morreu, mas ainda não foi enterrado!"; trata-se de você ter a liberdade para sentar no chão do banheiro enquanto o outro está cagando, e conseguir trocar altas ideias sobre um assunto qualquer, abstraindo o mau cheiro, porque não é disso que se trata a vida; de falar sobre o quanto a merda alheia fede. Afinal, acho que só valeria a pena discutir sobre isso no dia em que o cheiros exalados por mim forem de flores silvestres dos bosques longínquos que ficam além do arco-íris.

De que adianta você ter a relação mais "foda" do mundo, se quando você tem uma dor de barriga daquelas, em que as tripas se reviram, você empalidece e acha que vai ficar no trono pra sempre, você tem que manter o sorriso, correr para o banheiro, ligar a torneira e ficar cantando Macarena bem alto para que o seu digníssimo namorado não seja surpreendido por algum barulho de "peido metralhadora" e assim, descubra subitamente que o anjo de candura, delicadeza, educação e sensualidade que ele namora também peida, e pior, peida muito, e pior ainda, caga??? Diarreia??? Oh, meu deus!!! Pensei que mulheres direitas não fizessem isso! Cagar é coisa de puta!

Eu imagino que seja um choque muito grande mesmo, para qualquer relação, você descobrir que a pessoa que você ama, quando toma uma Coca-Cola bem gelada tenha vontade de arrotar e, veja você, às vezes arrota?! Um absurdo, não é mesmo? Quem faz isso? Vamos guardar esse tipo de reação absolutamente normal do nosso organismo dentro de nós mesmos, afinal, colocar pra fora é o cúmulo do que a civilidade rejeita.

São essas mesmas pessoas que vão a um banheiro público e ficam intimidadas de dar uma bela mijadinha porque outras pessoas, que também entraram lá para isso, podem ouvir o som do xixi caindo na privada. Não é ridículo imaginar que tem gente que se ressente de mijar numa porra de um banheiro público, que por acaso foi feito para que as pessoas mijem e mijem e mijem de novo e também para que caguem lá quantas vezes sentirem vontade porque têm vergonha de que outras pessoas as ouçam fazendo isso, sendo que é algo que todo mundo faz nessa porra dessa vida várias vezes em um único dia???

Fico puta com toda essa hipocrisia! Espero que vocês tenham lido o parágrafo anterior não como se tivesse sido dito, mas sim gritado, ok?

As coisas que saem dos nossos corpinhos não são limpas, é verdade, por isso são excretadas, mas o fato de  fazê-las não nos torna sujos ou sujeitos diminutos diante de ninguém. Ir ao banheiro não torna ninguém mais porco do que ninguém e o fato de você ter um relacionamento em que isso não é encarado como algo maior do que é, ao menos para mim, é fator de aproximação, no qual o outro sabe que eu o entendo e o respeito no que existe de mais básico em um ser humano, que é o seu aspecto fisiológico, que nem em um milhão de anos poderá ser mudado.

Se eu posso trocar fraldas, olhar pra cinco diferentes tipos de merda todos os dias e fazer isso ainda com um sorriso no rosto por saber que ela sai de dentro de um serzinho gracioso feito por mim; se faço isso pelos animais de estimação que tenho em casa, catando cocôs, por que não posso aceitar que a pessoa que amo e que escolhi para ficar comigo vai ao banheiro de porta aberta?

Falta de boas maneiras é não parar na faixa de pedestres, não dar bom dia, ter filhos que parecem o capeta em um restaurante ou não deixar que um idoso se sente no ônibus. Percebem a diferença entre intimidade e frescura?

Sim, porque para mim, isso não passa de uma frescura das brabas. Todo o romantismo e a magia do amor foram construídos ao longo de muitos anos, é verdade, mas isso não quer dizer que certos pontos de vista devam ser mantidos a qualquer custo. Pelo menos a minha visão sobre o amor é bem mais realista e portanto, acredito que mais romântica e menos superficial/iludida e por isso, devo dizer que me sinto bem feliz.

Quem estiver comigo, pode saber que conta com o meu apoio mesmo nos momentos cotidianamente malcheirosos da vida. Amar é aceitar e sublimar o que nos incomoda no outro para que o outro assim o faça conosco.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Como morrer sem querer e como ficam os que ficam

Tinha médico às 10 da manhã; a casa estava uma zona há mais de uma semana, mas ela não percebia que isso era uma das poucas coisas que estava sob o seu controle, a organização e a manutenção da sua casa. Preferiu a internet, como muitos.

Tomou banho correndo, vestiu-se correndo, passou protetor solar correndo e correndo também, falou consigo mesma. Andava tendo conversas muito claras, em voz alta e não só dentro da cabeça, chamava sua própria atenção, se exigia, esperava ainda colocar em ação todas as coisas que se dizia. Continuou correndo quando foi abastecer o carro; não sabia mais se ele tinha gasolina ou não, porque a boia da bomba de combustível só funcionava quando queria, e nos últimos dias, ela não andava muito a fim de trabalhar.

Quando abasteceu o carro, já se avisou que o atraso era de sua única e exclusiva responsabilidade, então que deixasse de ser uma Zé-pressa e fizesse as coisas no tempo em que era capaz de fazê-las.

Foi pela Beira-mar, ouvia Statler Brothers, e como a vida é cheia de ironia, foi num muro, em que mais tarde as pessoas colocariam flores, que ela se espatifou. Apressada como o coelho de Alice, ela fez uma curva, pensou em fazê-la; não reduziu a marcha e foi direto em direção ao muro. Muito rápido. Instantâneo. Irreconhecível. Perda total para o carro, perda total para ela.

Agora é que o peito aperta. Enquanto via o muro se aproximar, enquanto não havia mais nada a se fazer, pensou em tudo. Viu 27 anos passarem diante de si. Percebeu finalmente o significado da palavra efêmero. Viu que não era nada. Viu o que era impermanência e entendeu de uma vez por todas que tudo pode mudar a qualquer momento. Uma corda bamba eterna. Roda gigante safada, que não só sobe e desce, mas que por vezes é equipada com um banco ejetor, e mesmo que você ache que está lá em cima, é lá de cima que você vai ser lançado. Dói mais.

De viva, indo para um compromisso, à morta, esfacelada, com cacos de vidro no rosto, cabeça quebrada, sangue escorrendo por todos os buracos, ossos trincados, pele pendurada. Nunca mais um abraço, um beijo, um carinho. Era só a casca.

Tudo isso numa manhã de sol primaveril. Não é um paradoxo? O sol nunca para de brilhar, não importa o que aconteça em terra firme. 

Carro no muro, game over pra ela. Os carros que vinham atrás, primeiro frearam bruscamente para que não batessem também, depois, descendo com pressa e temor pela gravidade do acidente, os motoristas vinham ver a morta. O tesão gerado por acidentes traz muitas reflexões para quem os assistem. Muitas perguntas, muita consternação. O que houve? Como aconteceu? Ela estava bêbada? Dirigia em alta velocidade? Perdeu o controle? Ela está morta? É, acho que está morta... Coitada, pobre da família...

Vinte minutos depois, chegam a ambulância, a polícia, os bombeiros e mais curiosos. Com alguma dificuldade, conseguem abrir a porta do carro. Ela, de cabeça caída pro lado, olha pro nada com as pupilas dilatadas de defunto. Morta? Sim, nem poderia ser diferente. Mais uma ironia para quem sempre achou que morreria em um acidente automobilístico. Assim foi.

Removeram-na. Saco preto, carro da polícia técnica. Ela já era estatística. Pegaram a bolsa, olharam o nome na identidade. Pegaram o telefone celular e começaram a olhar os números para que pudessem avisar alguém sobre a mais nova perda da família. Estava escrito na agenda “Casa” e ligaram. Lá, o telefone tocou à exaustão, e os gatos miaram sem saber da notícia. Ninguém. Tentaram o último número discado e ele atendeu. Acidente? Ele ainda estava dormindo... É que a morte é assim mesmo, chega sem avisar. Se você está vivo, pode empacotar a qualquer momento; para ela não tem tempo ruim ou bom, é tudo igual. 

Sim, acidente. Você é da família? Precisamos falar com alguém da família. Sou namorado. Namorado não é família e ele sabia que nem namorado era, e se arrependeu, todo mundo se arrepende. Ah, burrice! A gente acha que a morte vem sempre amanhã, como a felicidade, como o fim de semana, mas ela sempre chega! E quando chega, pluft! Arrependimentos não resolvem nada. Nada.

Ele pensou imediatamente na menina, eram onze e meia, ela estava na escola, e naquele dia sua mãe não iria pegá-la, e nem em nenhum outro dia. Como dizer? Cadê minha mãe? Sozinha ela, sozinha com a menina. Todo mundo tem família e coisa e tal, mas era ela e a menina, sempre a menina e ela. Família de duas, como faz agora? Família de uma? Isso é família?

Tudo perdido, muito louco. Numa noite, mercado, carnes para o natal, planos indefinidos de natal aqui e ali, panetones que ela tanto gostava, chocolates envenenados pra ele, chinelo novo pra menina. Dorme, acorda e come coxinha. Lanche gorduroso do Beps na véspera da batida. Mas morreu em jejum, deixando o que mais estimava na vida, que era um pedaço seu de legado pra terra.

A menina deixada ao léu, cheia de comida em casa, mas sem a mãe preguiçosa pra cozinhar, pra brigar, pra deixar usar o computador. Ao menos ela já estava matriculada na escola para o ano que vem, mas a mãe não a veria mais. Oh vida que passa. O amanhã que nunca chega ou que chega rápido e sem aviso prévio. Leva, bagunça, empilha e deixa de lado. 

Desestabilizadora a grande ceifadora.


P.S.: Não, eu não morri, nem estou pensando em morrer. Eu sempre reduzo nas curvas, mas gosto tanto de falar sobre ela, que me deu vontade de escrever. Você já se imaginou morrendo de repente e deixando tudo pra trás? Hoje, eu imaginei, mas é tão complicado pensar em quem fica... pensei na minha Ana, mas eu morta de repente, nada poderia fazer por ela, mas sei quem poderia cuidar dela. Se eu morrer de repente, cuidem dela!

P.S.²: Não, eu definitivamente não estou pensando em morrer, fiquem tranquilos, é só que a vida tem dessas coisas. Se alguém por aí também quiser que eu ajude em caso de falta por morte, estamos aí, é só deixar avisado. =)

P.S.³: Na verdade, estou bem feliz, porque o natal é uma época de luzes coloridas e comidas gostosas! 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Não sei por que, mas 10 x 7

Quando eu era pequena, às vezes tinha uma sensação que me incomodava muito; em alguns momentos, parecia que tudo à minha volta acelerava, tudo acontecia muito rápido, as pessoas, os movimentos, as coisas, tudo se mexia em uma velocidade maior e aquilo me dava uma enorme agonia, porque era como se eu estivesse devagar diante de tudo.

Outra coisa que me deixava desconfortável, mas que acontecia nos meus sonhos, é que, com certa frequência, sonhava com uma claridade tão forte que eu não conseguia abrir meus olhos; eles ardiam e a minha cabeça doía, e nos sonhos, eu ficava impaciente, porque dentro deles se passava considerável tempo, e eu era obrigada a andar com os olhos cerrados, me sentindo importunada pelo clarão.

Mas o ponto não é esse, o ponto é que hoje, andando pela rua, de repente senti como se todas as coisas tivessem um destaque maior dentro do ambiente, tudo. Duas vezes senti o cheiro da minha infância. Primeiro, senti o cheiro do meu pai, depois senti o cheiro de um chiclete paraguaio que mascava quando era menor. É incrível como a rua me leva a lugares que estavam guardados há muito tempo. Cruzei duas vezes, em dois pontos diferentes do bairro, com a mesma garota que usava tênis cor de violeta. Passei em frente a um salão de beleza e vi uma senhorinha que, apesar de toda a decrepitude estampada em si, tinha os cabelos emplastados de tinta, na tentativa de esconder todos os anos que já tinha vivido. Vi uma menina, parada, atrás de uma linha branca, feita no chão de uma das pracinhas daqui. Ela olhava pro nada e esperava o momento de cruzar aquela linha, quando sua mãe séria, veio e a levou. Ouvi o barulho ritmado de marteladas, e vi a água que escorria pela sarjeta. Tudo muito vivo, muito singular.

Ontem, depois de piscar, abri os olhos e não podia parar de rir; eu ria, ria, ria e não havia nada de engraçado, mas eu ri tanto que babei; ri descontrolada; ri e não conseguia falar. Do meu lado direito, tudo girava, e eu ria. Depois, fechei os olhos e um enorme leque de plástico transparente amarelo se colocou sobre o céu, ele cobria tudo, dava ares de verão, de calor ameno; eu mexia minha mão para um lado, e era pra lá que o leque cobria o céu; eu fazia isso para o outro lado, e o leque seguia minha mão. Eram as minhas mãos que controlavam o céu, e eu sentia toda a minha parte frontal formigar; me via em sonho. Então eles apareceram, meu pai e minha mãe, vieram em minha direção e falaram comigo carinhosamente, como se eu fosse uma criança, cada um deles tomava uma de minhas mãos e me levavam pra algum lugar que eles diziam ser bom. Por trás da parte que formigava, lá estava a minha consciência, me segurando, me impedindo de ser, dizendo que era tudo mentira. E, assim, acabou.

Ontem também, descobri que tenho uma prima que me lê, do lado paterno. Ela me procurou, disse que gostava do que eu escrevia, disse que se dava muito com meu pai, e que ele falava muito em mim. Em algum momento, antes de se perder em si mesmo, ele deve ter falado de mim, acho. Ela disse que ele ficaria orgulhoso, mas acho que não. Certamente ele ficaria chocado. Enfim, disse ela que se orgulhava de ser minha prima. Fiquei feliz por saber que uma pessoa, que eu sequer sabia que existia até ontem, se orgulha de mim. Tenho função no mundo?

Depois disso, recebi um e-mail com o convite para participar de uma constelação familiar, e no fim de semana conversamos sobre isso, não é? A primeira pessoa que me falou a respeito do assunto tem o mesmo nome da segunda pessoa que falou comigo sobre; uma é família, a outra é amiga. Isso é destino, coincidência ou conspiração? A gente, então, decidiu que vai se aventurar, se expor, e expurgar o que for possível.

E hoje, ah, hoje foi bonito. Hoje, vieram tantas coisas que as mãos dela ficaram quentes, fiz ela suar com o tanto de energia que entrou em mim. Ela viu nas minhas costas um lobo muito bonito e um delicado veadinho também. Li algo a respeito, e gostei dos significados. O lobo representa amor, relacionamentos saudáveis, fidelidade, generosidade e ensinamento. O veado denota delicadeza, sensitividade, graça, alerta, adaptabilidade, coração/espírito, gentileza. Oh sim, existe o bem em mim. E lembrei da cadela do vídeo, Mishca, linda, uivando, e lembrei do cachorro mais lindo que tivemos, nosso lobo, Zowie, querido devorador de gatos. Lobos são leais...


Mas nem tudo foi bom. Vi nitidamente uma briga. Nós dois em frente a um espelho. Me dava de dedo na cara, irado com a minha falta de compreensão, porque era inadmissível. Em frente a um espelho oval, apoiado em uma penteadeira, a mesma que vi no sonho em que eu era baleada no pescoço. O que se reflete nisso tudo? O que estamos projetando?


Ela me disse que há omissão, foi essa a palavra que ela ouviu de alguém. Há mais de uma pessoa dentro do corpo, e uma delas eu não conheço, porque ela se esconde, não se aceita, não se admite pra ninguém. Mas disse também que eu perceberei certas coisas nessa pessoa, e que os véus serão tirados dos meus olhos, e então, eu verei que não existe mais nada a agregar, e conseguirei me libertar do que me faz sofrer hoje.


Bolha de luz azul, bolha de luz violeta.


Ontem conheci alguém que me deixou feliz, porque pude conversar e dar um pouco do que tenho sido ensinada. Por isso agradeço, mas ainda acho que preciso de um gravador.

sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre ser mãe (vídeo)

Espero que vocês consigam entender tudo, porque eu chorei no meio do caminho...

http://www.youtube.com/watch?v=EoeWwQEIUs0

Kobrasol: diversão, a gente vê por aqui

Pouco antes da uma da manhã, estava eu sentada aqui, olhando pras paredes, quando decidi que teria uma noite feliz. Troquei de roupa ouvindo The time of my life, peguei uns trocados e saí, lépida e fagueira pelo bairro, disposta a bater papo com quem aparecesse. O problema é que fui andando, e não via ninguém. Rua deserta, esquina, nem uma alma; andei em direção à praça do vovô. Cheiro de maconha, barzinho aberto, comprei uma Coca. Continuei andando, passei pela avenida central e fui em direção ao prédio onde morei. Ninguém. Que coisa! Quando a gente quer conversar com alguém, nunca aparece um sujeito! Até que indo, indo, indo, vejo mais à frente um grupo de travestis. Passei por elas, pelo outro lado da rua, pensei um pouco e voltei. É aqui que vou começar a conversa!

Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.

Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.

Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.

Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.

Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.

Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.

E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.

Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.

Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.

Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.

Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.

Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.

Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).

A paz (?) voltou a reinar  neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Gracias!

Foram 134 acessos. Este humilde blog nunca tinha visto tanta gente num único dia.

Triste foi que, só para variar um pouco, quase ninguém comentou. Algumas pessoas deixaram comentários aqui e outras no Facebook.

Os pedidos não foram muitos, mas o que ganhou com a maioria esmagadora de dois (!!!!) votos foi A Besta.
E pra ele, eu já fiz um vídeo, mas a bateria da câmera acabou e está carregando agora... vai levar um tempinho então.

Os outros pedidos foram Eu Quero, Como Foi pra Mim, A Punheta de Todo Dia (não poderia faltar) e ... .

Esses eu vou colocando ao longo dos dias.

Adorei os comentários e por eles terem sido tão afetivos, continuarei escrevendo até que os meus dedos caiam. =P

Falando Sem Desculpas

Assistam e dêem sugestões, please!

http://www.youtube.com/watch?v=6WO4iSAchkw

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A quem me lê

Queridas pessoas que me lêem,

eu nunca fui muito esperta pra mexer em certas coisas, como neste blog.
Não sabia, por exemplo, que as estatísticas dele eram relativamente confiáveis. Só descobri isso uns poucos meses atrás.

Graças a elas, descobri também que o meu post mais acessado era este, e que as pesquisas por palavras-chave também traziam os punheteiros até aqui. Isso me leva a crer que os meninos não estão muito bons no esporte, o que é triste, pois se buscam informação por punheta, imagino que não saibam nem onde fica uma boceta, mãããs, falar sobre isso não é o objetivo deste post.

Prosseguindo, descobri também que pessoas de várias nações já me visitaram! =] Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola, Holanda, Polônia, Rússia e Canadá. Só não fico mais feliz porque gente de qualquer parte do mundo bate punheta... =(

O fato é: se você se desprende, de seja lá o que for que estiver fazendo, para vir até aqui e ler o que eu tenho a dizer, então peço que, por favor, diga o que acha!

Há várias opções de elogios e também de ofensas, mas o silêncio é brochante...

Espero grandes colaborações, como:
"Nossa, não sei como você ainda não ganhou um Nobel de literatura."

"Você é tão boa que vou te citar no meu TCC."

"Você me entende como ninguém... casa comigo?"

Mas também aceito as críticas construtivas:
"Quem foi que disse que tem alguém interessado na sua vida de merda?"

"Você escreve pior do que eu."

"Por que ainda mantém essa joça ativa?"


Todas as opiniões são bem-vindas, mas é claro que eu prefiro as que enaltecem o meu talento esplendoroso e toda a minha fluidez textual. De qualquer forma, sintam-se impelidos a me dar um feedback. Ah, eu também adoraria escrever sobre algo sugerido por vocês. Motes me motivam, vejam só.

Com carinho e esperando milhões de comentários,

Cristina FernandeZ

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Na caçamba, o desejo e a vergonha

As noites não são mais as mesmas. Sinto todo o tipo de agonia. Se me cubro, sinto  calor; se me descubro, sinto frio. Reviro-me pelos sonhos macabros. Sonho muito, sonhos variados. Havia falta de água ou excesso dela numa escola. Andava pela rua, passava em uma farmácia e comprava incontáveis produtos, não sei ao certo o que eram, mas me eram muito agradáveis às vistas. Quando saía, à esquina, via um amontoado de gente que estava parada, mas não com o mesmo espanto que eu.

O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.

Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?

Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.

O dia A

O dedo está melhorando, mas ainda há pus e todo o aspecto nojento. Ele já deveria ter sarado, mas só notei a importância de usar um antisséptico depois de usá-lo. Achei que sararia sozinho, como das outras vezes, mas como essa espetada, especificamente, eu causei esperando grandes dores, foi o que eu tive.

Amanhã é o dia da purificação; tarôs e mapas de previsão me avisaram que ele chegaria, então vou ficar bem.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A besta

Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.

Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.

Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.

Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?

Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?

Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.

Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.

Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.

Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.

Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.

Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.

Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...

Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.

Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.

Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.

Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.

Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.

Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.

Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.

Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.

Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.

Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.

Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.

A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Legião

Tenho medo de dormir. Fico com os olhos arregalados diante da luz do monitor; meu corpo não se aquieta e tenho medo de dormir. Medo porque sei que no meio da madrugada, meu coração vai dar pulos tão fortes que vou ter a sensação de que me salta à boca, e isso me desespera.

Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.

Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.

O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.

Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!

Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.

Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.

Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.

Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.

E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.

Orai e vigiai.

Parei

Parei de fumar ontem e lembro dos cigarros constantemente. Joguei um maço deles, fechado, no lixo da cozinha, que já está cheio, e quando me bate uma fissura, penso em resgatá-lo pra poder dar uma tragada. Isso é burrice, sim ou claro?

Fumei durante onze anos, variando as quantidades e os malefícios. Sendo eu asmática, e sedentária até o último fio de cabelo, o que me restou foi sonhar com longas corridas, nas quais eu nunca me cansava e conseguia dar passadas enormes, pulos, quase uma decolagem em busca de um prazer tão simples quanto o de correr.

Eu não corria, eu morria subindo escadas e, graças a um ex-namorado hipocondríaco, hoje não consigo me ver sem uma bombinha de Aerolin e, com o tempo, a coisa só piorou; a casa fedia, meu carro fedia, eu nunca tinha dinheiro trocado, eu tinha tosses que duravam semanas e que me faziam parecer com o Mutley; eu tinha as pontas dos dedos manchadas, o hálito comprometido, as roupas defumadas, a cobrança da filha, as propagandas negativas, os olhares condenadores, a falta de ar, o pigarro... 

Acontece que eu não dava a mínima pra nada disso. Fumar era um gozo. Uma gozada boa e demorada no meio da chuva de ansiedade, preguiça, ira e alienação.

Fumar é bom pra caralho. Nunca vou negar isso. O ato é de reflexão, simbólico. Eu viajava no barulho do atrito que a pedrinha do isqueiro fazia para que a chama surgisse; eu contemplava a fumaça que serpenteava o ar; eu admirava as brasas que iam comendo o papel e o fumo com seu calor. Era um tesão.

Quem fuma sabe que uma boa conversa ou uma boa discussão exigem um cigarro antes que tudo comece, depois que tudo termine. Quando se acorda, depois que se come e depois que se é comida. Às vezes, cagando, mas sempre sempre sempre nos momentos de angústia, preocupação e sofrimento. Fumar é dramático.

O que não foi um tesão foi ir ao médico essa semana e descobrir que, depois de fazer um teste de capacidade pulmonar, a capacidade dos meus pulmões já está comprometida e que, para alguém da minha idade, o teste deveria ter um aproveitamento de cem por cento, e o meu não tinha. Também não foi nada excitante ouvir dele, enfaticamente, que pessoas que fumam desenvolverão algum tipo de enfermidade em virtude do vício, mas nem todas elas terão alguma doença relacionada aos pulmões; e ele disse, categoricamente, que se eu continuasse fumando teria bronquite crônica, e mais adiante, enfisema.

Não vou encher o saco de quem fuma ou dar lições de moral pra quem quer que seja, porque todos somos livres pra fazermos o que nos satisfaz, mas a pergunta que fica é: o que me satisfaz é realmente o prazer safado das baforadas que me trarão a ruína em algum momento? Será que de fato preciso me destruir de maneira inconsciente para que esse mesmo inconsciente continue fazendo a festa dentro de mim e me dominando?

Meu inconsciente é tão cheio de artimanhas, que me sugeriu que eu fosse até a lixeira e chafurdasse por ali em busca do maço jogado fora, então me imaginei fazendo isso e, obviamente, mandei meu lado torpe ir dormir. É claro que ele não foi, e fica no meu ouvido dizendo que os cigarros ainda estão lá, e que eu ainda estou com vontade fumá-los. Nessa hora, então, mando-o tomar no cu, e bem que ele gostaria disso, mas também não vai.

Fato é que não fui revirar o lixo, e que a única sujeira que estou tentando limpar é a que existe dentro de mim e que, em parte, também era alimentada pelos cigarros.