sábado, 7 de abril de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
K.I.S.S.
Crianças são os seres mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, os mais escrotos que existem. Enquanto você é pequeno, pode passar por inúmeras situações de abuso, que veja só, são cometidas por outras crianças e, por isso, não há bem uma punição pelas merdas que podem fazer contra você.
A criança sofre por ser frágil e suscetível justamente pelas mãos de outra, que é igual a ela e que deveria ser tão frágil e suscetível quanto ela.
Quando tinha uns quatro ou cinco anos, imagine todo o discernimento que me habitava – nenhum –, estava eu na frente da escola em que “estudava” na época,
(vamos abrir aqui um gigantesco parêntese; com quatro ou cinco anos eu não estudava bosta nenhuma; a escola era só um depósito de crianças, que mesmo sendo a melhor escola, não passava de um lugar com “tias” rabugentas doidas para matar meia turma de pequenos animais; eu comia cola, via meninos tendo ataques de histeria por serem abandonados ali por suas mães pós-modernas que precisavam trabalhar, me sentia deslocada e feliz só de vez em quando, como sempre)
esperando que alguém fosse me buscar. Ficava lá na calçada, onde eram vendidas guloseimas por tiozinhos com ares de pedófilos; havia algo que eu achava muito interessante, mas que agora não tenho certeza se já comi ou não: puxa-puxa. Era um doce à base de calda de açúcar, que era bem grudento e quando você dava uma dentada, ele esticava, daí o nome; uma beleza para os dentes das crianças.
Além desse doce, havia, claro, pipoca. Acho que eu gostava de pipoca. Pipoca é bom. Talvez naquele dia eu estivesse com muita vontade de comer pipoca, porque umas crianças maiores estavam comendo a dita cuja por ali e um belo punhado caiu no chão, como sempre acontece quando alguém come milho estourado e eu, que era uma menininha, estava com vontade de comer, então não vi nada de errado em juntar do chão da calçada, colocar na boca, mastigar e, delícia (!), estava comendo o que queria.
Acontece que quem me viu fazer isso – a escola toda –, não encarou meu ato como eu e fizeram com que me sentisse a criatura mais imunda da face da terra por ter comido algo do chão. Riram de mim, me chamaram de suja e porca. Senti-me absolutamente humilhada, envergonhada, acuada. Uma tristeza só para uma menina tão pequena. Era só pipoca, eu era só uma criança, era só um chão sujo de calçada. Eu certamente não iria morrer por ter comido aquilo, visto que a pessoa “grandota” que aqui vos fala é bastante saudável – leia-se acima do peso.
É claro que hoje em dia não cato nenhuma comida que tenha caído no chão, a não ser que seja o chão da minha casa ou de algum lugar conhecido; é, certos hábitos não se perdem e com isso eu sempre aumento a imunidade do meu corpinho.
Mas pergunte se isso me marcou.
- Isso te marcou, Karla?
- Ô. Não é à toa que eu tenho 27 anos e ainda me lembro disso. Foi uma coisa de crianças que viram motivo para avacalhar com uma outra, igual a todas elas. Foi algo que aconteceu de um jeito despretensioso por parte delas talvez, mas que me deixou uma marca muito profunda porque eu não merecia aquilo, eu não tinha noção do que o que estava fazendo era errado e que por isso eu deveria ser alertada, não achincalhada, mas quem chamou a minha atenção foram mini-pessoas que também não sabiam que a forma que usaram para me abordar me causaria tanto mal.
Hoje tenho o entendimento de que carreguei essa história por ter sido ignorante e por ter sido vítima de outros ignorantes. Éramos todos crianças e escrever sobre isso me deixa mais leve por ver que consigo expressar esse incômodo de maneira saudável.
Agora, alguém me pergunte se eu metralharia cada um dos filhos da puta, caso os visse pela rua? Absolutamente. ;)
segunda-feira, 12 de março de 2012
Peidei, e agora?
O amor é lindo... Mas de que amor costumamos falar quando dizemos essa frase? Do amor que abre a porta do carro? que leva flores? que leva pra jantar? Esse é bem lindo, bem formal e cada dia mais raro de encontrar.
Tem também aquele bonito, que é o que dorme com você duas ou três vezes por semana, que às vezes leva uma cafezinho na cama, que manda mensagenzinhas em uma hora inesperada.
Tem aquele bem charmoso, que divide as contas com você, que prepara o almoço, que esquenta o seu pé no meio da noite.
Tem aquele sensual, que te faz sexo oral, pega você de jeito e te deixa boba só de ficar olhando.
Tudo é lindo, não é? Tudo é amor, então por que, por que, por que diabos as pessoas não admitem que suas relações avancem um passo a mais na intimidade através do compartilhamento de atitudes singelas e comuns a todos?
Para mim, não existe um relacionamento de verdade se meu namorado/marido não tem conhecimento de que eu peido, arroto, cago e mijo de porta aberta! E sim, é com essas denominações mesmo!
Ai, sempre a mesma história furada de "bons modos", "ninguém precisa saber o que eu faço no banheiro", "isso é porquice", "mulher não faz isso", "acaba com o encanto da relação" e blá blá blá.
Gente, vamos encarar os fatos:
Eu fui muito bem educada pela minha mãe, apesar de ter presenciado todos os tipos de necessidades fisiológicas dela. Vejam bem, ela me ensinou as regras e é importante você saber as regras, claro.
Mas é importante também que saibamos que uma coisa é a relação que temos com o outro que é o outro; aquele com quem não temos intimidade, com quem não temos convivência afetiva ou que não vive com o seu rabinho dentro da nossa casa.
Outra coisa totalmente diferente é a convivência que você tem com seu cônjuge. Uma pessoa com quem você decidiu compartilhar os melhores e os piores momentos da sua vida, sendo que mijar/cagar/peidar e outras coisas semelhantes sequer podem ser encaixadas como piores momentos, pois são apenas parte do dia a dia de qualquer ser que respire na face da terra.
Sua mãezinha, por exemplo, que deus a abençoe, limpou muito a sua bunda; aliás, tão incontáveis vezes que se duvidar, até hoje, quando você sente uma dor de barriga, pensa em ligar para ela. E é assim mesmo. As pessoas com quem você pode contar quando está na merda literalmente, geralmente são as pessoas com quem você vai poder contar para o resto da vida.
Não se trata de sentir cheiros; trata-se de intimidade, no seu estado mais "tcham" de ser. Não se trata de você fazer cara feia e ficar pensando "puta que pariu, ele/ela tá podre! morreu, mas ainda não foi enterrado!"; trata-se de você ter a liberdade para sentar no chão do banheiro enquanto o outro está cagando, e conseguir trocar altas ideias sobre um assunto qualquer, abstraindo o mau cheiro, porque não é disso que se trata a vida; de falar sobre o quanto a merda alheia fede. Afinal, acho que só valeria a pena discutir sobre isso no dia em que o cheiros exalados por mim forem de flores silvestres dos bosques longínquos que ficam além do arco-íris.
De que adianta você ter a relação mais "foda" do mundo, se quando você tem uma dor de barriga daquelas, em que as tripas se reviram, você empalidece e acha que vai ficar no trono pra sempre, você tem que manter o sorriso, correr para o banheiro, ligar a torneira e ficar cantando Macarena bem alto para que o seu digníssimo namorado não seja surpreendido por algum barulho de "peido metralhadora" e assim, descubra subitamente que o anjo de candura, delicadeza, educação e sensualidade que ele namora também peida, e pior, peida muito, e pior ainda, caga??? Diarreia??? Oh, meu deus!!! Pensei que mulheres direitas não fizessem isso! Cagar é coisa de puta!
Eu imagino que seja um choque muito grande mesmo, para qualquer relação, você descobrir que a pessoa que você ama, quando toma uma Coca-Cola bem gelada tenha vontade de arrotar e, veja você, às vezes arrota?! Um absurdo, não é mesmo? Quem faz isso? Vamos guardar esse tipo de reação absolutamente normal do nosso organismo dentro de nós mesmos, afinal, colocar pra fora é o cúmulo do que a civilidade rejeita.
São essas mesmas pessoas que vão a um banheiro público e ficam intimidadas de dar uma bela mijadinha porque outras pessoas, que também entraram lá para isso, podem ouvir o som do xixi caindo na privada. Não é ridículo imaginar que tem gente que se ressente de mijar numa porra de um banheiro público, que por acaso foi feito para que as pessoas mijem e mijem e mijem de novo e também para que caguem lá quantas vezes sentirem vontade porque têm vergonha de que outras pessoas as ouçam fazendo isso, sendo que é algo que todo mundo faz nessa porra dessa vida várias vezes em um único dia???
Fico puta com toda essa hipocrisia! Espero que vocês tenham lido o parágrafo anterior não como se tivesse sido dito, mas sim gritado, ok?
As coisas que saem dos nossos corpinhos não são limpas, é verdade, por isso são excretadas, mas o fato de fazê-las não nos torna sujos ou sujeitos diminutos diante de ninguém. Ir ao banheiro não torna ninguém mais porco do que ninguém e o fato de você ter um relacionamento em que isso não é encarado como algo maior do que é, ao menos para mim, é fator de aproximação, no qual o outro sabe que eu o entendo e o respeito no que existe de mais básico em um ser humano, que é o seu aspecto fisiológico, que nem em um milhão de anos poderá ser mudado.
Se eu posso trocar fraldas, olhar pra cinco diferentes tipos de merda todos os dias e fazer isso ainda com um sorriso no rosto por saber que ela sai de dentro de um serzinho gracioso feito por mim; se faço isso pelos animais de estimação que tenho em casa, catando cocôs, por que não posso aceitar que a pessoa que amo e que escolhi para ficar comigo vai ao banheiro de porta aberta?
Falta de boas maneiras é não parar na faixa de pedestres, não dar bom dia, ter filhos que parecem o capeta em um restaurante ou não deixar que um idoso se sente no ônibus. Percebem a diferença entre intimidade e frescura?
Sim, porque para mim, isso não passa de uma frescura das brabas. Todo o romantismo e a magia do amor foram construídos ao longo de muitos anos, é verdade, mas isso não quer dizer que certos pontos de vista devam ser mantidos a qualquer custo. Pelo menos a minha visão sobre o amor é bem mais realista e portanto, acredito que mais romântica e menos superficial/iludida e por isso, devo dizer que me sinto bem feliz.
Quem estiver comigo, pode saber que conta com o meu apoio mesmo nos momentos cotidianamente malcheirosos da vida. Amar é aceitar e sublimar o que nos incomoda no outro para que o outro assim o faça conosco.
Tem também aquele bonito, que é o que dorme com você duas ou três vezes por semana, que às vezes leva uma cafezinho na cama, que manda mensagenzinhas em uma hora inesperada.
Tem aquele bem charmoso, que divide as contas com você, que prepara o almoço, que esquenta o seu pé no meio da noite.
Tem aquele sensual, que te faz sexo oral, pega você de jeito e te deixa boba só de ficar olhando.
Tudo é lindo, não é? Tudo é amor, então por que, por que, por que diabos as pessoas não admitem que suas relações avancem um passo a mais na intimidade através do compartilhamento de atitudes singelas e comuns a todos?
Para mim, não existe um relacionamento de verdade se meu namorado/marido não tem conhecimento de que eu peido, arroto, cago e mijo de porta aberta! E sim, é com essas denominações mesmo!
Ai, sempre a mesma história furada de "bons modos", "ninguém precisa saber o que eu faço no banheiro", "isso é porquice", "mulher não faz isso", "acaba com o encanto da relação" e blá blá blá.
Gente, vamos encarar os fatos:
Eu fui muito bem educada pela minha mãe, apesar de ter presenciado todos os tipos de necessidades fisiológicas dela. Vejam bem, ela me ensinou as regras e é importante você saber as regras, claro.
Mas é importante também que saibamos que uma coisa é a relação que temos com o outro que é o outro; aquele com quem não temos intimidade, com quem não temos convivência afetiva ou que não vive com o seu rabinho dentro da nossa casa.
Outra coisa totalmente diferente é a convivência que você tem com seu cônjuge. Uma pessoa com quem você decidiu compartilhar os melhores e os piores momentos da sua vida, sendo que mijar/cagar/peidar e outras coisas semelhantes sequer podem ser encaixadas como piores momentos, pois são apenas parte do dia a dia de qualquer ser que respire na face da terra.
Sua mãezinha, por exemplo, que deus a abençoe, limpou muito a sua bunda; aliás, tão incontáveis vezes que se duvidar, até hoje, quando você sente uma dor de barriga, pensa em ligar para ela. E é assim mesmo. As pessoas com quem você pode contar quando está na merda literalmente, geralmente são as pessoas com quem você vai poder contar para o resto da vida.
Não se trata de sentir cheiros; trata-se de intimidade, no seu estado mais "tcham" de ser. Não se trata de você fazer cara feia e ficar pensando "puta que pariu, ele/ela tá podre! morreu, mas ainda não foi enterrado!"; trata-se de você ter a liberdade para sentar no chão do banheiro enquanto o outro está cagando, e conseguir trocar altas ideias sobre um assunto qualquer, abstraindo o mau cheiro, porque não é disso que se trata a vida; de falar sobre o quanto a merda alheia fede. Afinal, acho que só valeria a pena discutir sobre isso no dia em que o cheiros exalados por mim forem de flores silvestres dos bosques longínquos que ficam além do arco-íris.
De que adianta você ter a relação mais "foda" do mundo, se quando você tem uma dor de barriga daquelas, em que as tripas se reviram, você empalidece e acha que vai ficar no trono pra sempre, você tem que manter o sorriso, correr para o banheiro, ligar a torneira e ficar cantando Macarena bem alto para que o seu digníssimo namorado não seja surpreendido por algum barulho de "peido metralhadora" e assim, descubra subitamente que o anjo de candura, delicadeza, educação e sensualidade que ele namora também peida, e pior, peida muito, e pior ainda, caga??? Diarreia??? Oh, meu deus!!! Pensei que mulheres direitas não fizessem isso! Cagar é coisa de puta!
Eu imagino que seja um choque muito grande mesmo, para qualquer relação, você descobrir que a pessoa que você ama, quando toma uma Coca-Cola bem gelada tenha vontade de arrotar e, veja você, às vezes arrota?! Um absurdo, não é mesmo? Quem faz isso? Vamos guardar esse tipo de reação absolutamente normal do nosso organismo dentro de nós mesmos, afinal, colocar pra fora é o cúmulo do que a civilidade rejeita.
São essas mesmas pessoas que vão a um banheiro público e ficam intimidadas de dar uma bela mijadinha porque outras pessoas, que também entraram lá para isso, podem ouvir o som do xixi caindo na privada. Não é ridículo imaginar que tem gente que se ressente de mijar numa porra de um banheiro público, que por acaso foi feito para que as pessoas mijem e mijem e mijem de novo e também para que caguem lá quantas vezes sentirem vontade porque têm vergonha de que outras pessoas as ouçam fazendo isso, sendo que é algo que todo mundo faz nessa porra dessa vida várias vezes em um único dia???
Fico puta com toda essa hipocrisia! Espero que vocês tenham lido o parágrafo anterior não como se tivesse sido dito, mas sim gritado, ok?
As coisas que saem dos nossos corpinhos não são limpas, é verdade, por isso são excretadas, mas o fato de fazê-las não nos torna sujos ou sujeitos diminutos diante de ninguém. Ir ao banheiro não torna ninguém mais porco do que ninguém e o fato de você ter um relacionamento em que isso não é encarado como algo maior do que é, ao menos para mim, é fator de aproximação, no qual o outro sabe que eu o entendo e o respeito no que existe de mais básico em um ser humano, que é o seu aspecto fisiológico, que nem em um milhão de anos poderá ser mudado.
Se eu posso trocar fraldas, olhar pra cinco diferentes tipos de merda todos os dias e fazer isso ainda com um sorriso no rosto por saber que ela sai de dentro de um serzinho gracioso feito por mim; se faço isso pelos animais de estimação que tenho em casa, catando cocôs, por que não posso aceitar que a pessoa que amo e que escolhi para ficar comigo vai ao banheiro de porta aberta?
Falta de boas maneiras é não parar na faixa de pedestres, não dar bom dia, ter filhos que parecem o capeta em um restaurante ou não deixar que um idoso se sente no ônibus. Percebem a diferença entre intimidade e frescura?
Sim, porque para mim, isso não passa de uma frescura das brabas. Todo o romantismo e a magia do amor foram construídos ao longo de muitos anos, é verdade, mas isso não quer dizer que certos pontos de vista devam ser mantidos a qualquer custo. Pelo menos a minha visão sobre o amor é bem mais realista e portanto, acredito que mais romântica e menos superficial/iludida e por isso, devo dizer que me sinto bem feliz.
Quem estiver comigo, pode saber que conta com o meu apoio mesmo nos momentos cotidianamente malcheirosos da vida. Amar é aceitar e sublimar o que nos incomoda no outro para que o outro assim o faça conosco.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Como morrer sem querer e como ficam os que ficam
Tinha médico às 10 da manhã; a casa estava uma zona há mais de uma semana, mas ela não percebia que isso era uma das poucas coisas que estava sob o seu controle, a organização e a manutenção da sua casa. Preferiu a internet, como muitos.
Tomou banho correndo, vestiu-se correndo, passou protetor solar correndo e correndo também, falou consigo mesma. Andava tendo conversas muito claras, em voz alta e não só dentro da cabeça, chamava sua própria atenção, se exigia, esperava ainda colocar em ação todas as coisas que se dizia. Continuou correndo quando foi abastecer o carro; não sabia mais se ele tinha gasolina ou não, porque a boia da bomba de combustível só funcionava quando queria, e nos últimos dias, ela não andava muito a fim de trabalhar.
Quando abasteceu o carro, já se avisou que o atraso era de sua única e exclusiva responsabilidade, então que deixasse de ser uma Zé-pressa e fizesse as coisas no tempo em que era capaz de fazê-las.
Foi pela Beira-mar, ouvia Statler Brothers, e como a vida é cheia de ironia, foi num muro, em que mais tarde as pessoas colocariam flores, que ela se espatifou. Apressada como o coelho de Alice, ela fez uma curva, pensou em fazê-la; não reduziu a marcha e foi direto em direção ao muro. Muito rápido. Instantâneo. Irreconhecível. Perda total para o carro, perda total para ela.
Agora é que o peito aperta. Enquanto via o muro se aproximar, enquanto não havia mais nada a se fazer, pensou em tudo. Viu 27 anos passarem diante de si. Percebeu finalmente o significado da palavra efêmero. Viu que não era nada. Viu o que era impermanência e entendeu de uma vez por todas que tudo pode mudar a qualquer momento. Uma corda bamba eterna. Roda gigante safada, que não só sobe e desce, mas que por vezes é equipada com um banco ejetor, e mesmo que você ache que está lá em cima, é lá de cima que você vai ser lançado. Dói mais.
Agora é que o peito aperta. Enquanto via o muro se aproximar, enquanto não havia mais nada a se fazer, pensou em tudo. Viu 27 anos passarem diante de si. Percebeu finalmente o significado da palavra efêmero. Viu que não era nada. Viu o que era impermanência e entendeu de uma vez por todas que tudo pode mudar a qualquer momento. Uma corda bamba eterna. Roda gigante safada, que não só sobe e desce, mas que por vezes é equipada com um banco ejetor, e mesmo que você ache que está lá em cima, é lá de cima que você vai ser lançado. Dói mais.
De viva, indo para um compromisso, à morta, esfacelada, com cacos de vidro no rosto, cabeça quebrada, sangue escorrendo por todos os buracos, ossos trincados, pele pendurada. Nunca mais um abraço, um beijo, um carinho. Era só a casca.
Tudo isso numa manhã de sol primaveril. Não é um paradoxo? O sol nunca para de brilhar, não importa o que aconteça em terra firme.
Carro no muro, game over pra ela. Os carros que vinham atrás, primeiro frearam bruscamente para que não batessem também, depois, descendo com pressa e temor pela gravidade do acidente, os motoristas vinham ver a morta. O tesão gerado por acidentes traz muitas reflexões para quem os assistem. Muitas perguntas, muita consternação. O que houve? Como aconteceu? Ela estava bêbada? Dirigia em alta velocidade? Perdeu o controle? Ela está morta? É, acho que está morta... Coitada, pobre da família...
Vinte minutos depois, chegam a ambulância, a polícia, os bombeiros e mais curiosos. Com alguma dificuldade, conseguem abrir a porta do carro. Ela, de cabeça caída pro lado, olha pro nada com as pupilas dilatadas de defunto. Morta? Sim, nem poderia ser diferente. Mais uma ironia para quem sempre achou que morreria em um acidente automobilístico. Assim foi.
Removeram-na. Saco preto, carro da polícia técnica. Ela já era estatística. Pegaram a bolsa, olharam o nome na identidade. Pegaram o telefone celular e começaram a olhar os números para que pudessem avisar alguém sobre a mais nova perda da família. Estava escrito na agenda “Casa” e ligaram. Lá, o telefone tocou à exaustão, e os gatos miaram sem saber da notícia. Ninguém. Tentaram o último número discado e ele atendeu. Acidente? Ele ainda estava dormindo... É que a morte é assim mesmo, chega sem avisar. Se você está vivo, pode empacotar a qualquer momento; para ela não tem tempo ruim ou bom, é tudo igual.
Sim, acidente. Você é da família? Precisamos falar com alguém da família. Sou namorado. Namorado não é família e ele sabia que nem namorado era, e se arrependeu, todo mundo se arrepende. Ah, burrice! A gente acha que a morte vem sempre amanhã, como a felicidade, como o fim de semana, mas ela sempre chega! E quando chega, pluft! Arrependimentos não resolvem nada. Nada.
Ele pensou imediatamente na menina, eram onze e meia, ela estava na escola, e naquele dia sua mãe não iria pegá-la, e nem em nenhum outro dia. Como dizer? Cadê minha mãe? Sozinha ela, sozinha com a menina. Todo mundo tem família e coisa e tal, mas era ela e a menina, sempre a menina e ela. Família de duas, como faz agora? Família de uma? Isso é família?
Tudo perdido, muito louco. Numa noite, mercado, carnes para o natal, planos indefinidos de natal aqui e ali, panetones que ela tanto gostava, chocolates envenenados pra ele, chinelo novo pra menina. Dorme, acorda e come coxinha. Lanche gorduroso do Beps na véspera da batida. Mas morreu em jejum, deixando o que mais estimava na vida, que era um pedaço seu de legado pra terra.
A menina deixada ao léu, cheia de comida em casa, mas sem a mãe preguiçosa pra cozinhar, pra brigar, pra deixar usar o computador. Ao menos ela já estava matriculada na escola para o ano que vem, mas a mãe não a veria mais. Oh vida que passa. O amanhã que nunca chega ou que chega rápido e sem aviso prévio. Leva, bagunça, empilha e deixa de lado.
Desestabilizadora a grande ceifadora.
P.S.: Não, eu não morri, nem estou pensando em morrer. Eu sempre reduzo nas curvas, mas gosto tanto de falar sobre ela, que me deu vontade de escrever. Você já se imaginou morrendo de repente e deixando tudo pra trás? Hoje, eu imaginei, mas é tão complicado pensar em quem fica... pensei na minha Ana, mas eu morta de repente, nada poderia fazer por ela, mas sei quem poderia cuidar dela. Se eu morrer de repente, cuidem dela!
P.S.²: Não, eu definitivamente não estou pensando em morrer, fiquem tranquilos, é só que a vida tem dessas coisas. Se alguém por aí também quiser que eu ajude em caso de falta por morte, estamos aí, é só deixar avisado. =)
P.S.³: Na verdade, estou bem feliz, porque o natal é uma época de luzes coloridas e comidas gostosas!
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Não sei por que, mas 10 x 7
Quando eu era pequena, às vezes tinha uma sensação que me incomodava muito; em alguns momentos, parecia que tudo à minha volta acelerava, tudo acontecia muito rápido, as pessoas, os movimentos, as coisas, tudo se mexia em uma velocidade maior e aquilo me dava uma enorme agonia, porque era como se eu estivesse devagar diante de tudo.
Outra coisa que me deixava desconfortável, mas que acontecia nos meus sonhos, é que, com certa frequência, sonhava com uma claridade tão forte que eu não conseguia abrir meus olhos; eles ardiam e a minha cabeça doía, e nos sonhos, eu ficava impaciente, porque dentro deles se passava considerável tempo, e eu era obrigada a andar com os olhos cerrados, me sentindo importunada pelo clarão.
Mas o ponto não é esse, o ponto é que hoje, andando pela rua, de repente senti como se todas as coisas tivessem um destaque maior dentro do ambiente, tudo. Duas vezes senti o cheiro da minha infância. Primeiro, senti o cheiro do meu pai, depois senti o cheiro de um chiclete paraguaio que mascava quando era menor. É incrível como a rua me leva a lugares que estavam guardados há muito tempo. Cruzei duas vezes, em dois pontos diferentes do bairro, com a mesma garota que usava tênis cor de violeta. Passei em frente a um salão de beleza e vi uma senhorinha que, apesar de toda a decrepitude estampada em si, tinha os cabelos emplastados de tinta, na tentativa de esconder todos os anos que já tinha vivido. Vi uma menina, parada, atrás de uma linha branca, feita no chão de uma das pracinhas daqui. Ela olhava pro nada e esperava o momento de cruzar aquela linha, quando sua mãe séria, veio e a levou. Ouvi o barulho ritmado de marteladas, e vi a água que escorria pela sarjeta. Tudo muito vivo, muito singular.
Ontem, depois de piscar, abri os olhos e não podia parar de rir; eu ria, ria, ria e não havia nada de engraçado, mas eu ri tanto que babei; ri descontrolada; ri e não conseguia falar. Do meu lado direito, tudo girava, e eu ria. Depois, fechei os olhos e um enorme leque de plástico transparente amarelo se colocou sobre o céu, ele cobria tudo, dava ares de verão, de calor ameno; eu mexia minha mão para um lado, e era pra lá que o leque cobria o céu; eu fazia isso para o outro lado, e o leque seguia minha mão. Eram as minhas mãos que controlavam o céu, e eu sentia toda a minha parte frontal formigar; me via em sonho. Então eles apareceram, meu pai e minha mãe, vieram em minha direção e falaram comigo carinhosamente, como se eu fosse uma criança, cada um deles tomava uma de minhas mãos e me levavam pra algum lugar que eles diziam ser bom. Por trás da parte que formigava, lá estava a minha consciência, me segurando, me impedindo de ser, dizendo que era tudo mentira. E, assim, acabou.
Ontem também, descobri que tenho uma prima que me lê, do lado paterno. Ela me procurou, disse que gostava do que eu escrevia, disse que se dava muito com meu pai, e que ele falava muito em mim. Em algum momento, antes de se perder em si mesmo, ele deve ter falado de mim, acho. Ela disse que ele ficaria orgulhoso, mas acho que não. Certamente ele ficaria chocado. Enfim, disse ela que se orgulhava de ser minha prima. Fiquei feliz por saber que uma pessoa, que eu sequer sabia que existia até ontem, se orgulha de mim. Tenho função no mundo?
Depois disso, recebi um e-mail com o convite para participar de uma constelação familiar, e no fim de semana conversamos sobre isso, não é? A primeira pessoa que me falou a respeito do assunto tem o mesmo nome da segunda pessoa que falou comigo sobre; uma é família, a outra é amiga. Isso é destino, coincidência ou conspiração? A gente, então, decidiu que vai se aventurar, se expor, e expurgar o que for possível.
E hoje, ah, hoje foi bonito. Hoje, vieram tantas coisas que as mãos dela ficaram quentes, fiz ela suar com o tanto de energia que entrou em mim. Ela viu nas minhas costas um lobo muito bonito e um delicado veadinho também. Li algo a respeito, e gostei dos significados. O lobo representa amor, relacionamentos saudáveis, fidelidade, generosidade e ensinamento. O veado denota delicadeza, sensitividade, graça, alerta, adaptabilidade, coração/espírito, gentileza. Oh sim, existe o bem em mim. E lembrei da cadela do vídeo, Mishca, linda, uivando, e lembrei do cachorro mais lindo que tivemos, nosso lobo, Zowie, querido devorador de gatos. Lobos são leais...
Mas nem tudo foi bom. Vi nitidamente uma briga. Nós dois em frente a um espelho. Me dava de dedo na cara, irado com a minha falta de compreensão, porque era inadmissível. Em frente a um espelho oval, apoiado em uma penteadeira, a mesma que vi no sonho em que eu era baleada no pescoço. O que se reflete nisso tudo? O que estamos projetando?
Ela me disse que há omissão, foi essa a palavra que ela ouviu de alguém. Há mais de uma pessoa dentro do corpo, e uma delas eu não conheço, porque ela se esconde, não se aceita, não se admite pra ninguém. Mas disse também que eu perceberei certas coisas nessa pessoa, e que os véus serão tirados dos meus olhos, e então, eu verei que não existe mais nada a agregar, e conseguirei me libertar do que me faz sofrer hoje.
Bolha de luz azul, bolha de luz violeta.
Ontem conheci alguém que me deixou feliz, porque pude conversar e dar um pouco do que tenho sido ensinada. Por isso agradeço, mas ainda acho que preciso de um gravador.
Outra coisa que me deixava desconfortável, mas que acontecia nos meus sonhos, é que, com certa frequência, sonhava com uma claridade tão forte que eu não conseguia abrir meus olhos; eles ardiam e a minha cabeça doía, e nos sonhos, eu ficava impaciente, porque dentro deles se passava considerável tempo, e eu era obrigada a andar com os olhos cerrados, me sentindo importunada pelo clarão.
Mas o ponto não é esse, o ponto é que hoje, andando pela rua, de repente senti como se todas as coisas tivessem um destaque maior dentro do ambiente, tudo. Duas vezes senti o cheiro da minha infância. Primeiro, senti o cheiro do meu pai, depois senti o cheiro de um chiclete paraguaio que mascava quando era menor. É incrível como a rua me leva a lugares que estavam guardados há muito tempo. Cruzei duas vezes, em dois pontos diferentes do bairro, com a mesma garota que usava tênis cor de violeta. Passei em frente a um salão de beleza e vi uma senhorinha que, apesar de toda a decrepitude estampada em si, tinha os cabelos emplastados de tinta, na tentativa de esconder todos os anos que já tinha vivido. Vi uma menina, parada, atrás de uma linha branca, feita no chão de uma das pracinhas daqui. Ela olhava pro nada e esperava o momento de cruzar aquela linha, quando sua mãe séria, veio e a levou. Ouvi o barulho ritmado de marteladas, e vi a água que escorria pela sarjeta. Tudo muito vivo, muito singular.
Ontem, depois de piscar, abri os olhos e não podia parar de rir; eu ria, ria, ria e não havia nada de engraçado, mas eu ri tanto que babei; ri descontrolada; ri e não conseguia falar. Do meu lado direito, tudo girava, e eu ria. Depois, fechei os olhos e um enorme leque de plástico transparente amarelo se colocou sobre o céu, ele cobria tudo, dava ares de verão, de calor ameno; eu mexia minha mão para um lado, e era pra lá que o leque cobria o céu; eu fazia isso para o outro lado, e o leque seguia minha mão. Eram as minhas mãos que controlavam o céu, e eu sentia toda a minha parte frontal formigar; me via em sonho. Então eles apareceram, meu pai e minha mãe, vieram em minha direção e falaram comigo carinhosamente, como se eu fosse uma criança, cada um deles tomava uma de minhas mãos e me levavam pra algum lugar que eles diziam ser bom. Por trás da parte que formigava, lá estava a minha consciência, me segurando, me impedindo de ser, dizendo que era tudo mentira. E, assim, acabou.
Ontem também, descobri que tenho uma prima que me lê, do lado paterno. Ela me procurou, disse que gostava do que eu escrevia, disse que se dava muito com meu pai, e que ele falava muito em mim. Em algum momento, antes de se perder em si mesmo, ele deve ter falado de mim, acho. Ela disse que ele ficaria orgulhoso, mas acho que não. Certamente ele ficaria chocado. Enfim, disse ela que se orgulhava de ser minha prima. Fiquei feliz por saber que uma pessoa, que eu sequer sabia que existia até ontem, se orgulha de mim. Tenho função no mundo?
Depois disso, recebi um e-mail com o convite para participar de uma constelação familiar, e no fim de semana conversamos sobre isso, não é? A primeira pessoa que me falou a respeito do assunto tem o mesmo nome da segunda pessoa que falou comigo sobre; uma é família, a outra é amiga. Isso é destino, coincidência ou conspiração? A gente, então, decidiu que vai se aventurar, se expor, e expurgar o que for possível.
E hoje, ah, hoje foi bonito. Hoje, vieram tantas coisas que as mãos dela ficaram quentes, fiz ela suar com o tanto de energia que entrou em mim. Ela viu nas minhas costas um lobo muito bonito e um delicado veadinho também. Li algo a respeito, e gostei dos significados. O lobo representa amor, relacionamentos saudáveis, fidelidade, generosidade e ensinamento. O veado denota delicadeza, sensitividade, graça, alerta, adaptabilidade, coração/espírito, gentileza. Oh sim, existe o bem em mim. E lembrei da cadela do vídeo, Mishca, linda, uivando, e lembrei do cachorro mais lindo que tivemos, nosso lobo, Zowie, querido devorador de gatos. Lobos são leais...
Mas nem tudo foi bom. Vi nitidamente uma briga. Nós dois em frente a um espelho. Me dava de dedo na cara, irado com a minha falta de compreensão, porque era inadmissível. Em frente a um espelho oval, apoiado em uma penteadeira, a mesma que vi no sonho em que eu era baleada no pescoço. O que se reflete nisso tudo? O que estamos projetando?
Ela me disse que há omissão, foi essa a palavra que ela ouviu de alguém. Há mais de uma pessoa dentro do corpo, e uma delas eu não conheço, porque ela se esconde, não se aceita, não se admite pra ninguém. Mas disse também que eu perceberei certas coisas nessa pessoa, e que os véus serão tirados dos meus olhos, e então, eu verei que não existe mais nada a agregar, e conseguirei me libertar do que me faz sofrer hoje.
Bolha de luz azul, bolha de luz violeta.
Ontem conheci alguém que me deixou feliz, porque pude conversar e dar um pouco do que tenho sido ensinada. Por isso agradeço, mas ainda acho que preciso de um gravador.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Sobre ser mãe (vídeo)
Espero que vocês consigam entender tudo, porque eu chorei no meio do caminho...
http://www.youtube.com/watch?v=EoeWwQEIUs0
http://www.youtube.com/watch?v=EoeWwQEIUs0
Kobrasol: diversão, a gente vê por aqui
Pouco antes da uma da manhã, estava eu sentada aqui, olhando pras paredes, quando decidi que teria uma noite feliz. Troquei de roupa ouvindo The time of my life, peguei uns trocados e saí, lépida e fagueira pelo bairro, disposta a bater papo com quem aparecesse. O problema é que fui andando, e não via ninguém. Rua deserta, esquina, nem uma alma; andei em direção à praça do vovô. Cheiro de maconha, barzinho aberto, comprei uma Coca. Continuei andando, passei pela avenida central e fui em direção ao prédio onde morei. Ninguém. Que coisa! Quando a gente quer conversar com alguém, nunca aparece um sujeito! Até que indo, indo, indo, vejo mais à frente um grupo de travestis. Passei por elas, pelo outro lado da rua, pensei um pouco e voltei. É aqui que vou começar a conversa!
Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.
Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.
Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.
Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.
Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.
Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.
E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.
Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.
Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.
Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.
Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.
Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.
Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).
A paz (?) voltou a reinar neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.
Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.
Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.
Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.
Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.
Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.
Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.
E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.
Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.
Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.
Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.
Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.
Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.
Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).
A paz (?) voltou a reinar neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Gracias!
Foram 134 acessos. Este humilde blog nunca tinha visto tanta gente num único dia.
Triste foi que, só para variar um pouco, quase ninguém comentou. Algumas pessoas deixaram comentários aqui e outras no Facebook.
Os pedidos não foram muitos, mas o que ganhou com a maioria esmagadora de dois (!!!!) votos foi A Besta.
E pra ele, eu já fiz um vídeo, mas a bateria da câmera acabou e está carregando agora... vai levar um tempinho então.
Os outros pedidos foram Eu Quero, Como Foi pra Mim, A Punheta de Todo Dia (não poderia faltar) e ... .
Esses eu vou colocando ao longo dos dias.
Adorei os comentários e por eles terem sido tão afetivos, continuarei escrevendo até que os meus dedos caiam. =P
Triste foi que, só para variar um pouco, quase ninguém comentou. Algumas pessoas deixaram comentários aqui e outras no Facebook.
Os pedidos não foram muitos, mas o que ganhou com a maioria esmagadora de dois (!!!!) votos foi A Besta.
E pra ele, eu já fiz um vídeo, mas a bateria da câmera acabou e está carregando agora... vai levar um tempinho então.
Os outros pedidos foram Eu Quero, Como Foi pra Mim, A Punheta de Todo Dia (não poderia faltar) e ... .
Esses eu vou colocando ao longo dos dias.
Adorei os comentários e por eles terem sido tão afetivos, continuarei escrevendo até que os meus dedos caiam. =P
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
A quem me lê
Queridas pessoas que me lêem,
eu nunca fui muito esperta pra mexer em certas coisas, como neste blog.
Não sabia, por exemplo, que as estatísticas dele eram relativamente confiáveis. Só descobri isso uns poucos meses atrás.
Graças a elas, descobri também que o meu post mais acessado era este, e que as pesquisas por palavras-chave também traziam os punheteiros até aqui. Isso me leva a crer que os meninos não estão muito bons no esporte, o que é triste, pois se buscam informação por punheta, imagino que não saibam nem onde fica uma boceta, mãããs, falar sobre isso não é o objetivo deste post.
Prosseguindo, descobri também que pessoas de várias nações já me visitaram! =] Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola, Holanda, Polônia, Rússia e Canadá. Só não fico mais feliz porque gente de qualquer parte do mundo bate punheta... =(
O fato é: se você se desprende, de seja lá o que for que estiver fazendo, para vir até aqui e ler o que eu tenho a dizer, então peço que, por favor, diga o que acha!
Há várias opções de elogios e também de ofensas, mas o silêncio é brochante...
Espero grandes colaborações, como:
"Nossa, não sei como você ainda não ganhou um Nobel de literatura."
"Você é tão boa que vou te citar no meu TCC."
"Você me entende como ninguém... casa comigo?"
Mas também aceito as críticas construtivas:
"Quem foi que disse que tem alguém interessado na sua vida de merda?"
"Você escreve pior do que eu."
"Por que ainda mantém essa joça ativa?"
Todas as opiniões são bem-vindas, mas é claro que eu prefiro as que enaltecem o meu talento esplendoroso e toda a minha fluidez textual. De qualquer forma, sintam-se impelidos a me dar um feedback. Ah, eu também adoraria escrever sobre algo sugerido por vocês. Motes me motivam, vejam só.
Com carinho e esperando milhões de comentários,
Cristina FernandeZ
eu nunca fui muito esperta pra mexer em certas coisas, como neste blog.
Não sabia, por exemplo, que as estatísticas dele eram relativamente confiáveis. Só descobri isso uns poucos meses atrás.
Graças a elas, descobri também que o meu post mais acessado era este, e que as pesquisas por palavras-chave também traziam os punheteiros até aqui. Isso me leva a crer que os meninos não estão muito bons no esporte, o que é triste, pois se buscam informação por punheta, imagino que não saibam nem onde fica uma boceta, mãããs, falar sobre isso não é o objetivo deste post.
Prosseguindo, descobri também que pessoas de várias nações já me visitaram! =] Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola, Holanda, Polônia, Rússia e Canadá. Só não fico mais feliz porque gente de qualquer parte do mundo bate punheta... =(
O fato é: se você se desprende, de seja lá o que for que estiver fazendo, para vir até aqui e ler o que eu tenho a dizer, então peço que, por favor, diga o que acha!
Há várias opções de elogios e também de ofensas, mas o silêncio é brochante...
Espero grandes colaborações, como:
"Nossa, não sei como você ainda não ganhou um Nobel de literatura."
"Você é tão boa que vou te citar no meu TCC."
"Você me entende como ninguém... casa comigo?"
Mas também aceito as críticas construtivas:
"Quem foi que disse que tem alguém interessado na sua vida de merda?"
"Você escreve pior do que eu."
"Por que ainda mantém essa joça ativa?"
Todas as opiniões são bem-vindas, mas é claro que eu prefiro as que enaltecem o meu talento esplendoroso e toda a minha fluidez textual. De qualquer forma, sintam-se impelidos a me dar um feedback. Ah, eu também adoraria escrever sobre algo sugerido por vocês. Motes me motivam, vejam só.
Com carinho e esperando milhões de comentários,
Cristina FernandeZ
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Na caçamba, o desejo e a vergonha
As noites não são mais as mesmas. Sinto todo o tipo de agonia. Se me cubro, sinto calor; se me descubro, sinto frio. Reviro-me pelos sonhos macabros. Sonho muito, sonhos variados. Havia falta de água ou excesso dela numa escola. Andava pela rua, passava em uma farmácia e comprava incontáveis produtos, não sei ao certo o que eram, mas me eram muito agradáveis às vistas. Quando saía, à esquina, via um amontoado de gente que estava parada, mas não com o mesmo espanto que eu.
O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.
Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?
Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.
O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.
Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?
Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.
O dia A
O dedo está melhorando, mas ainda há pus e todo o aspecto nojento. Ele já deveria ter sarado, mas só notei a importância de usar um antisséptico depois de usá-lo. Achei que sararia sozinho, como das outras vezes, mas como essa espetada, especificamente, eu causei esperando grandes dores, foi o que eu tive.
Amanhã é o dia da purificação; tarôs e mapas de previsão me avisaram que ele chegaria, então vou ficar bem.
Amanhã é o dia da purificação; tarôs e mapas de previsão me avisaram que ele chegaria, então vou ficar bem.
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
A besta
Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.
Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.
Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.
Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?
Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?
Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.
Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.
Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.
Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.
Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.
Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.
Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...
Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.
Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.
Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.
Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.
Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.
Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.
Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.
Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.
Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.
Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.
Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.
A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.
Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.
Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.
Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?
Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?
Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.
Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.
Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.
Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.
Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.
Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.
Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...
Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.
Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.
Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.
Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.
Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.
Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.
Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.
Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.
Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.
Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.
Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.
A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Legião
Tenho medo de dormir. Fico com os olhos arregalados diante da luz do monitor; meu corpo não se aquieta e tenho medo de dormir. Medo porque sei que no meio da madrugada, meu coração vai dar pulos tão fortes que vou ter a sensação de que me salta à boca, e isso me desespera.
Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.
Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.
O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.
Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!
Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.
Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.
Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.
Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.
E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.
Orai e vigiai.
Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.
Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.
O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.
Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!
Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.
Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.
Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.
Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.
E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.
Orai e vigiai.
Parei
Parei de fumar ontem e lembro dos cigarros constantemente. Joguei um maço deles, fechado, no lixo da cozinha, que já está cheio, e quando me bate uma fissura, penso em resgatá-lo pra poder dar uma tragada. Isso é burrice, sim ou claro?
Fumei durante onze anos, variando as quantidades e os malefícios. Sendo eu asmática, e sedentária até o último fio de cabelo, o que me restou foi sonhar com longas corridas, nas quais eu nunca me cansava e conseguia dar passadas enormes, pulos, quase uma decolagem em busca de um prazer tão simples quanto o de correr.
Eu não corria, eu morria subindo escadas e, graças a um ex-namorado hipocondríaco, hoje não consigo me ver sem uma bombinha de Aerolin e, com o tempo, a coisa só piorou; a casa fedia, meu carro fedia, eu nunca tinha dinheiro trocado, eu tinha tosses que duravam semanas e que me faziam parecer com o Mutley; eu tinha as pontas dos dedos manchadas, o hálito comprometido, as roupas defumadas, a cobrança da filha, as propagandas negativas, os olhares condenadores, a falta de ar, o pigarro...
Acontece que eu não dava a mínima pra nada disso. Fumar era um gozo. Uma gozada boa e demorada no meio da chuva de ansiedade, preguiça, ira e alienação.
Fumar é bom pra caralho. Nunca vou negar isso. O ato é de reflexão, simbólico. Eu viajava no barulho do atrito que a pedrinha do isqueiro fazia para que a chama surgisse; eu contemplava a fumaça que serpenteava o ar; eu admirava as brasas que iam comendo o papel e o fumo com seu calor. Era um tesão.
Quem fuma sabe que uma boa conversa ou uma boa discussão exigem um cigarro antes que tudo comece, depois que tudo termine. Quando se acorda, depois que se come e depois que se é comida. Às vezes, cagando, mas sempre sempre sempre nos momentos de angústia, preocupação e sofrimento. Fumar é dramático.
O que não foi um tesão foi ir ao médico essa semana e descobrir que, depois de fazer um teste de capacidade pulmonar, a capacidade dos meus pulmões já está comprometida e que, para alguém da minha idade, o teste deveria ter um aproveitamento de cem por cento, e o meu não tinha. Também não foi nada excitante ouvir dele, enfaticamente, que pessoas que fumam desenvolverão algum tipo de enfermidade em virtude do vício, mas nem todas elas terão alguma doença relacionada aos pulmões; e ele disse, categoricamente, que se eu continuasse fumando teria bronquite crônica, e mais adiante, enfisema.
Não vou encher o saco de quem fuma ou dar lições de moral pra quem quer que seja, porque todos somos livres pra fazermos o que nos satisfaz, mas a pergunta que fica é: o que me satisfaz é realmente o prazer safado das baforadas que me trarão a ruína em algum momento? Será que de fato preciso me destruir de maneira inconsciente para que esse mesmo inconsciente continue fazendo a festa dentro de mim e me dominando?
Meu inconsciente é tão cheio de artimanhas, que me sugeriu que eu fosse até a lixeira e chafurdasse por ali em busca do maço jogado fora, então me imaginei fazendo isso e, obviamente, mandei meu lado torpe ir dormir. É claro que ele não foi, e fica no meu ouvido dizendo que os cigarros ainda estão lá, e que eu ainda estou com vontade fumá-los. Nessa hora, então, mando-o tomar no cu, e bem que ele gostaria disso, mas também não vai.
Fato é que não fui revirar o lixo, e que a única sujeira que estou tentando limpar é a que existe dentro de mim e que, em parte, também era alimentada pelos cigarros.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Como foi pra mim
Isto aconteceu enquanto eu morava naquela cidade, mas já não era mais criança; tinha dezesseis anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Lembro que no sábado anterior ao que aconteceu, era dia 23 de junho do ano de 2001, um sábado, e eu tinha ido à festa junina do meu colégio.
Eu fazia o tipo porra-louca-rebelde e fui pra tal festa usando um vestido de cetim bordô estampado com caras de bichinhos fofos que eram cor de creme, estava de meia-arrastão e com meu inseparável All-Star preto; no pescoço, usava uma enforcadeira de metal; eu adorava fazer o tipo que chama a atenção, e chamava, de fato. Minha melhor amiga estava comigo e foi uma noite divertida. Lembro de ter invejado os cabelos escorridos de uma menina que estava lá. Lembro disso até hoje, sabe-se lá por que.
Não me lembro do que houve naquele domingo, dia 24, exatamente um mês antes do meu aniversário, mas lembro perfeitamente do que sonhei naquela noite, que viraria a segunda-feira.
No meu sonho, eu estava em casa, não era a minha casa de verdade, mas era na ocasião. Dois homens entravam lá pra roubá-la e atiravam em mim. Fui baleada duas vezes e um dos tiros me acertou no pescoço. Eu não sentia qualquer dor, e me via caindo no chão em câmera lenta. Já caída, sentia o sangue escorrer formando uma poça espessa; eu sentia um enorme alívio e desfalecia. Parecia uma libertação, como se eu tivesse morrido. Acordei, então, no que era o meu quarto, deitada em uma cama de casal e minha mãe estava sentada ao meu lado, numa cadeira. Em frente à cama havia uma grande penteadeira com um espelho oval; eu me levantei, fui em direção ao espelho e vi os pontos que haviam sido dados no meu pescoço.
Acordei com uma estranha sensação. Era segunda-feira, e na escola ainda comentei com algumas pessoas que tinha a impressão de que algo fora do comum aconteceria, e aconteceu.
Fui pra casa na hora do almoço, como em todos os outros dias. No meio da tarde, minha mãe me liga. Ela disse que estava indo pra casa e que tinha algo muito sério a me dizer. O seu tom me perturbou profundamente. Pensei em milhares de coisas, sendo que todas elas a envolviam. Pensei que ela iria me dizer que tinha aids, que tinha sido demitida, que tinha alguma outra doença gravíssima. Fiquei com o coração pesado de maneira que eu não sabia explicar.
Quando ela chegou, me disse: "Teu pai morreu, ele se matou". Pronto, caí numa outra vida, paralela a tudo. Eu não sabia como reagir, não conseguia chorar, só não acreditava. Uma tia dela, que morava na ilha, tinha ligado pra ela e contado que naquele dia, de manhã, ele havia dado cabo da sua vida. A porra toda era inconcebível pra mim. Como assim meu pai morreu? Pior, como assim ele se matou? Era a notícia mais surreal que eu poderia receber. Pra mim, ele era um homem católico, dedicado ao trabalho e que condenaria qualquer pessoa que tivesse atitude semelhante, mas é claro que eu não fazia ideia de quem era o meu pai de verdade.
Aí, então, liguei pros meus irmãos, cobrando uma satisfação, pois a filha de longe não soube da morte do próprio pai pela família dele, soube por outros. Ouviu deles um telefone desligado na cara e a resposta de que haviam tido uma preocupação muito grande com a caçula. Ah sim, todos ficaram muito mexidos com o fato, mas a família, os tios de estirpe muito distinta, rica, fina e religiosa, tinham que enterrar de uma vez a vergonha que o filho mais novo lhes trouxera. Morreu em torno das sete horas da manhã e às cinco da tarde já estava sendo escondido no jazigo da família, junto com os seus pais e avós.
Que merda, eu não o via já havia seis anos e nunca mais o veria novamente.
Baixaram na nossa casa pessoas da federação espírita, lembro de um cara careca e barbudo, falando sobre a morte, tentando confortar e eu só tinha vontade de mandá-lo tomar no cu. Minha mãe teve os surtos de culpa tardia e se vitimou pela morte do homem que ela tinha passado a vida inteira detonando pra mim. Eu liguei pro carinha de quem eu era a fim na época, e que vivia me maltratando e me dando foras pra contar a novidade, esperando algum tipo de consolo. Ele, obviamente, não sabia o que dizer, mas eu queria ser apaziguada pela perda, procurando ânimo e pena, esperando que assim ele fosse me amar.
Usei a morte do meu pai, desde o primeiro dia pra que sentissem pena de mim, mas isso não deu muito certo. A noite já tinha aparecido quando eu achava que ia explodir se continuasse dentro de casa com todas aquelas pessoas estranhas dando condolências por um morto que já estava enterrado. Desembestei pela rua, e fui parar no prédio do meu cursinho, achando que conseguiria assistir à aula de física e esperando a piedade de quem estivesse por perto.
Não lembro quando foi que consegui chorar a morte dele, só sei que queria fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. Não fazia nem uma semana que ele tinha morrido e eu inventei de ir a uma festa, sob os protestos da minha mãe. Era muita falta de respeito minha sair pra me divertir quando eu deveria estar de luto. A festa era em uma casa grande; lembro da escuridão, da música alta, das muitas pessoas que estavam lá e lembro também que dentro de mim só havia um silêncio gigante. Eu estava lá, mas não estava.
Um mês depois, foi meu aniversário de dezessete anos, em casa, com bolo e salgadinhos pra dois amigos que me suportavam. Era uma vida de bosta. Não sentia nada, a ficha não tinha caído, ainda.
Meu pai foi um estranho pra mim, o tempo todo. As lembranças que eu tinha dele, em sua maior parte, eram ainda do tempo em que eu era uma meninota e ele me chamava de galega. Minhas lembranças eram de tristes conversas pelo telefone, nas quais eu tinha que fazer o que mais odiava em toda a vida, pedir.
Ele nunca disse que me amava, e a coincidência de tudo isso foi o sonho. No dia em que ele morreu, eu sabia que algo estranho aconteceria, eu tinha levado um tiro no pescoço, e foi se enforcando que ele teve paz. Sempre esperei que ele tivesse o mesmo alívio e sensação de libertação que eu tive, quando caí ensanguentada e leve no chão do meu sonho. Nossas vidas se tocaram e eu pude sentir, então, um pouco do que ele buscava.
Eu fazia o tipo porra-louca-rebelde e fui pra tal festa usando um vestido de cetim bordô estampado com caras de bichinhos fofos que eram cor de creme, estava de meia-arrastão e com meu inseparável All-Star preto; no pescoço, usava uma enforcadeira de metal; eu adorava fazer o tipo que chama a atenção, e chamava, de fato. Minha melhor amiga estava comigo e foi uma noite divertida. Lembro de ter invejado os cabelos escorridos de uma menina que estava lá. Lembro disso até hoje, sabe-se lá por que.
Não me lembro do que houve naquele domingo, dia 24, exatamente um mês antes do meu aniversário, mas lembro perfeitamente do que sonhei naquela noite, que viraria a segunda-feira.
No meu sonho, eu estava em casa, não era a minha casa de verdade, mas era na ocasião. Dois homens entravam lá pra roubá-la e atiravam em mim. Fui baleada duas vezes e um dos tiros me acertou no pescoço. Eu não sentia qualquer dor, e me via caindo no chão em câmera lenta. Já caída, sentia o sangue escorrer formando uma poça espessa; eu sentia um enorme alívio e desfalecia. Parecia uma libertação, como se eu tivesse morrido. Acordei, então, no que era o meu quarto, deitada em uma cama de casal e minha mãe estava sentada ao meu lado, numa cadeira. Em frente à cama havia uma grande penteadeira com um espelho oval; eu me levantei, fui em direção ao espelho e vi os pontos que haviam sido dados no meu pescoço.
Acordei com uma estranha sensação. Era segunda-feira, e na escola ainda comentei com algumas pessoas que tinha a impressão de que algo fora do comum aconteceria, e aconteceu.
Fui pra casa na hora do almoço, como em todos os outros dias. No meio da tarde, minha mãe me liga. Ela disse que estava indo pra casa e que tinha algo muito sério a me dizer. O seu tom me perturbou profundamente. Pensei em milhares de coisas, sendo que todas elas a envolviam. Pensei que ela iria me dizer que tinha aids, que tinha sido demitida, que tinha alguma outra doença gravíssima. Fiquei com o coração pesado de maneira que eu não sabia explicar.
Quando ela chegou, me disse: "Teu pai morreu, ele se matou". Pronto, caí numa outra vida, paralela a tudo. Eu não sabia como reagir, não conseguia chorar, só não acreditava. Uma tia dela, que morava na ilha, tinha ligado pra ela e contado que naquele dia, de manhã, ele havia dado cabo da sua vida. A porra toda era inconcebível pra mim. Como assim meu pai morreu? Pior, como assim ele se matou? Era a notícia mais surreal que eu poderia receber. Pra mim, ele era um homem católico, dedicado ao trabalho e que condenaria qualquer pessoa que tivesse atitude semelhante, mas é claro que eu não fazia ideia de quem era o meu pai de verdade.
Aí, então, liguei pros meus irmãos, cobrando uma satisfação, pois a filha de longe não soube da morte do próprio pai pela família dele, soube por outros. Ouviu deles um telefone desligado na cara e a resposta de que haviam tido uma preocupação muito grande com a caçula. Ah sim, todos ficaram muito mexidos com o fato, mas a família, os tios de estirpe muito distinta, rica, fina e religiosa, tinham que enterrar de uma vez a vergonha que o filho mais novo lhes trouxera. Morreu em torno das sete horas da manhã e às cinco da tarde já estava sendo escondido no jazigo da família, junto com os seus pais e avós.
Que merda, eu não o via já havia seis anos e nunca mais o veria novamente.
Baixaram na nossa casa pessoas da federação espírita, lembro de um cara careca e barbudo, falando sobre a morte, tentando confortar e eu só tinha vontade de mandá-lo tomar no cu. Minha mãe teve os surtos de culpa tardia e se vitimou pela morte do homem que ela tinha passado a vida inteira detonando pra mim. Eu liguei pro carinha de quem eu era a fim na época, e que vivia me maltratando e me dando foras pra contar a novidade, esperando algum tipo de consolo. Ele, obviamente, não sabia o que dizer, mas eu queria ser apaziguada pela perda, procurando ânimo e pena, esperando que assim ele fosse me amar.
Usei a morte do meu pai, desde o primeiro dia pra que sentissem pena de mim, mas isso não deu muito certo. A noite já tinha aparecido quando eu achava que ia explodir se continuasse dentro de casa com todas aquelas pessoas estranhas dando condolências por um morto que já estava enterrado. Desembestei pela rua, e fui parar no prédio do meu cursinho, achando que conseguiria assistir à aula de física e esperando a piedade de quem estivesse por perto.
Não lembro quando foi que consegui chorar a morte dele, só sei que queria fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. Não fazia nem uma semana que ele tinha morrido e eu inventei de ir a uma festa, sob os protestos da minha mãe. Era muita falta de respeito minha sair pra me divertir quando eu deveria estar de luto. A festa era em uma casa grande; lembro da escuridão, da música alta, das muitas pessoas que estavam lá e lembro também que dentro de mim só havia um silêncio gigante. Eu estava lá, mas não estava.
Um mês depois, foi meu aniversário de dezessete anos, em casa, com bolo e salgadinhos pra dois amigos que me suportavam. Era uma vida de bosta. Não sentia nada, a ficha não tinha caído, ainda.
Meu pai foi um estranho pra mim, o tempo todo. As lembranças que eu tinha dele, em sua maior parte, eram ainda do tempo em que eu era uma meninota e ele me chamava de galega. Minhas lembranças eram de tristes conversas pelo telefone, nas quais eu tinha que fazer o que mais odiava em toda a vida, pedir.
Ele nunca disse que me amava, e a coincidência de tudo isso foi o sonho. No dia em que ele morreu, eu sabia que algo estranho aconteceria, eu tinha levado um tiro no pescoço, e foi se enforcando que ele teve paz. Sempre esperei que ele tivesse o mesmo alívio e sensação de libertação que eu tive, quando caí ensanguentada e leve no chão do meu sonho. Nossas vidas se tocaram e eu pude sentir, então, um pouco do que ele buscava.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Atrás da porta
Eu não sei o que ele tinha, mas seja lá o que fosse, tinha nascido com ele, acho que tinha nascido com ele. Um homem que já fora "normal" não aceitaria viver nas condições em que ele vivia. Mas o que eu sei da loucura dos outros? Se é que era loucura... Vou contar como era, mas antes preciso me inserir no meio disso, porque essa história não é minha, mas eu vi algo da história dele.
Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.
A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.
Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.
Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.
Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.
Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.
Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.
A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.
Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.
Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.
Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.
Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Limpar ou não limpar?
Nunca gostei dos serviços domésticos, apesar de saber fazer tudo dentro de casa. Aliás, qualquer macaco sabe fazer o serviço da casa. Cresci com a minha mãe me botando pra trabalhar. Ela sempre disse que só podia mandar quem sabia fazer; e isso é certo. Se você gosta que a sua casa pareça um brinco, tem que saber como deixá-la assim.
(Aliás, mesmo não gostando do trabalho sem fim que demanda uma casa, é importante saber fazê-lo. Acho um absurdo gente que não sabe lavar um talher sem deixá-lo ensebado ou que não sabe fazer um feijão com arroz sem fazer drama de que não tem talento pra cozinhar. A gente aprende fazendo e isso serve pra mulheres e homens. "É de menino que se torce o pepino" já diria o ditado. Se você não aprende essas coisas quando pequeno, aos poucos, e a necessidade de fazê-las, é provável que você cresça sendo uma bela bosta. Não adianta ser bom na escola e não saber onde fica a vassoura; não adianta viajar pelo mundo e não saber lavar a porra da sua calcinha; não adianta ser lindo e sarado se você não sabe passar as suas roupas, mas enfim...)
(Aliás, mesmo não gostando do trabalho sem fim que demanda uma casa, é importante saber fazê-lo. Acho um absurdo gente que não sabe lavar um talher sem deixá-lo ensebado ou que não sabe fazer um feijão com arroz sem fazer drama de que não tem talento pra cozinhar. A gente aprende fazendo e isso serve pra mulheres e homens. "É de menino que se torce o pepino" já diria o ditado. Se você não aprende essas coisas quando pequeno, aos poucos, e a necessidade de fazê-las, é provável que você cresça sendo uma bela bosta. Não adianta ser bom na escola e não saber onde fica a vassoura; não adianta viajar pelo mundo e não saber lavar a porra da sua calcinha; não adianta ser lindo e sarado se você não sabe passar as suas roupas, mas enfim...)
Desse jeito eu aprendi, mas a minha mãe era bem esperta porque enquanto ela fazia coisas mais leves como estender a roupa, meu irmão e eu limpávamos a casa. Ela sempre foi boa em mandar, principalmente em mandar que os outros fizessem coisas que ela era perfeitamente capaz de fazer sozinha; isso me dava nos nervos.
Mas com ela também aprendi a cozinhar, depois de muito feijão e arroz queimados por esquecimento. Ela ia trabalhar, me deixava cuidando da comida que ficava no fogo, eu ia assistir a Xuxa e fodia tudo. Comida torrada, cheiro de comida torrada pela casa e me batia o desespero! A esculhambação ia me tomar inteira ao meio-dia; mas porra, eu tinha uns oito, nove anos... É muita responsabilidade pra uma fedelha uma panela de pressão! Enfim, hoje eu cozinho decentemente e quem já provou minha comida, sabe que ela é boa.
Mas voltando à arrumação... Eu achava que ela era neurótica porque podia estar tudo arrumado, mas se tivesse um copo na pia a tempestade estava feita: "Ninguém me ajuda, essa casa tá sempre uma zona!", e pensava eu que quando eu tivesse a minha casa as coisas seriam diferentes.
Pois então, hoje tenho a minha casa e também sou neurótica; as coisas são iguais. Mas é que, puta que pariu, essa porra de serviço não acaba nunca! Casas deveriam ser limpas e lacradas e deveríamos viver num quarto anexo que seria um chiqueiro.
Eu arrumo tudo, limpo tudo, tiro o pó, aspiro, passo o pano, lavo a louça, guardo a louça, levo o lixo pra fora, coloco a roupa pra lavar, estendo a roupa, recolho a roupa, dobro a roupa e a coloco no cesto pra passar, limpo a caixa de areia dos gatos, limpo privadas, pias, espelhos... Acontece que eu moro na minha casa e é isso que estraga tudo.
No mesmo dia aparece mais louça pra lavar e o chão já começa a ficar sujo de novo. É pelo de gato, meu cabelo que cai sem medida, os gatos que derrubam a tigela de água deles e fazem uma lambança diária na cozinha... É uma merda de trabalho ingrato... E tudo pra quê?
Se arrumo, tudo aparece de novo de qualquer jeito; se não arrumo, a cagada toda vai se acumulando de uma maneira que me deixa doida! Odeio arrumar a casa, mas adoro ter a casa arrumada. Às vezes baixa em mim o espírito da dona de casa perfeita e eu arrumo até as gavetas, jogo quilos de lixo fora, papelada de anos, arrumo o guarda-roupas; mas na maior parte do tempo, queria tacar fogo em tudo e sair correndo.
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