sábado, 22 de outubro de 2011

Sobre ser mãe (vídeo)

Espero que vocês consigam entender tudo, porque eu chorei no meio do caminho...

http://www.youtube.com/watch?v=EoeWwQEIUs0

Kobrasol: diversão, a gente vê por aqui

Pouco antes da uma da manhã, estava eu sentada aqui, olhando pras paredes, quando decidi que teria uma noite feliz. Troquei de roupa ouvindo The time of my life, peguei uns trocados e saí, lépida e fagueira pelo bairro, disposta a bater papo com quem aparecesse. O problema é que fui andando, e não via ninguém. Rua deserta, esquina, nem uma alma; andei em direção à praça do vovô. Cheiro de maconha, barzinho aberto, comprei uma Coca. Continuei andando, passei pela avenida central e fui em direção ao prédio onde morei. Ninguém. Que coisa! Quando a gente quer conversar com alguém, nunca aparece um sujeito! Até que indo, indo, indo, vejo mais à frente um grupo de travestis. Passei por elas, pelo outro lado da rua, pensei um pouco e voltei. É aqui que vou começar a conversa!

Abordei-as com um "oi!" e elas "oi!" pra mim. E a loira virou pra morena e disse: "Ela parece aquela amapô que eu te falei". Daí, então, perguntei seus nomes. A loira, de 29 anos, olhos verdes, esguia, bonita e espevitada se chamava Bruna; a mais alta e mais nova, com 21 anos, era a Talita e a Gabriela estava tentando chegar num cliente quando eu perguntei a idade delas, então não sei quantos anos tinha, mas ela parecia ser a mais velha.

Elas me perguntaram o que eu fazia sozinha na rua àquela hora, e eu disse que estava passeando. Perguntaram onde estava o meu marido (hahaha) e eu disse que não tinha um, daí começaram o discurso da maneira mais engraçada que eu já vi. "Isso aí, não tem marido, não! Homem só serve pra incomodar." "Tem que usar e jogar no lixo, que nem latinha de refrigerante!". Eu ri.

Bruna tomava uma cerveja com canudinho e ficava se esfregando em uma placa, como se estivesse dançando . Adorei ela! A Talita era "casada" e o marido dela ficava do outro lado da rua, meio escondido pra não espantar a freguesia. Eu perguntei se ele não se incomodava dela estar ali, ao que ela me respondeu que não. Óbvio que não se incomodava, né Karla? Se ele se incomodasse, não deixaria ela fazer ponto enquanto ele comprava balinhas de canela pra depois nos oferecer gentilmente.

Gabriela era a mais ocupada de todas, pois cada carro que parava, ela ia ver se conseguia ganhar algum cliente, e olhe que pararam muitos carros! Um carinha passou do outro lado da rua, a pé, e a Bruna gritava, chamando-o, "Oh, tem cu mas também tem pombinha", apontando pra mim. Eu ria e ria mais um pouco! Perguntei a ela se o fato de eu ficar ali não as atrapalhava, e ela disse que não; só se fosse homem, porque segundo ela, se fosse um homem, os clientes não parariam, pensando que seriam roubados.

Fui chamada de "visita" por elas e a Talita provocava Bruna porque ela tinha um problema de dicção com os "erres". Curiosa que sou, perguntei quanto custava um programa. Oitenta reais no motel, cinquenta no carro e o boquete variava entre vinte e trinta reais, dependendo da cara do cliente. Disseram que os caras com os carros mais simples são os que pagam melhor, porque os que têm carros mais chiques só andam com cartões de crédito. Disseram que dormiam o dia todo pra aguentar à noite.

Despedi-me daquela esquina com cheiro adocicado dizendo que ia à padaria, mas que voltaria logo.

E foi na padaria que eu conheci o Seu Juca; um senhor negro que usava um terno puído, tinha olhos inocentes e gestos de abstêmio, apesar de nem um cheiro de bebida. Ele estava sentado na calçada e me pediu um real e cinquenta pra tomar um café. Dei-lhe dois reais e sentei ao seu lado. Perguntei o seu nome, disse o meu e começamos a conversar. Ele me perguntou de onde eu era; disse que daqui mesmo. Ele falou que conhecia o Kobrasol desde a época em que o Mc Donalds ainda nem existia, era um campo de futebol, e acho que foi nessa mesma época que eu morei aqui pela primeira vez; coisa de vinte e um anos atrás.

Disse que passou a adolescência em Curitiba e insistiu que o edifício Joelma, que pegou fogo anos atrás, ficava lá e não em São Paulo. Falamos sobre os nomes engraçados dos bairros de lá, como Bacaxeri. Falamos do clima e ele me perguntou se eu gostava de praia; sim, a da Solidão. Ele achou que eu morava no Bosque das Mansões, falou de um prédio bonito e envidraçado que ficava em frente à praça Tiradentes, e que havia um igual a ele em Joinville. Então nos despedimos e ele me estendeu a mão. Cumprimentei-o e disse que tinha sido um prazer conhecê-lo, e realmente foi.

Quando me levantei, começou uma baita briga na esquina, na "cachaçaria". Umas mulheres berravam no meio da rua e eu me afastei, indo em direção à esquina onde antes estavam as minhas novas conhecidas, mas elas haviam ido embora. Voltei pra avenida e a briga só tinha aumentado. Os gritos continuavam. Dois caras enormes e sem camisas estavam descontrolados. Eu parei, longe, pra ver o que estava havendo.

Alguém chamou alguém de macaco. A confusão continuou e continuou. As mulheres gritavam, mas já estavam do outro lado da rua, quando na frente do tal lugar, outras duas começaram a discutir e a se engalfinhar. Juntou-se um monte de gente e um cara foi socado e chutado até cair. Os vizinhos do lugar estavam todos nas janelas e mais de cem pessoas na rua, vendo, correndo pra apartar e acompanhando toda a celeuma.

Nisso, os carros que passavam em frente iam parando pra ver a briga, as motos passavam acelerando motores, fazendo muito barulho e o buzinaço começou. No meio de tudo, a histérica do começo da briga continuava gritando loucamente. Era o caos! Uns dez minutos depois, pela mão única da avenida, ouvi as sirenes de um carro da Polícia Militar. Os carros que estavam na frente subiram na calçada pra que a viatura passasse. Parou mais adiante, mas o tumulto continuou.

Um minuto depois, o que vinha já era um camburão que, acho, era de Operações Táticas, pois era o que estava escrito nele. Esse já veio bem mais agressivo, passando por cima da calçada a mil por hora. Parou rapidamente, e dele desceram três policiais com enormes porretes, armas pesadas que eu não saberia identificar, mas que certamente davam medo, e até com uma arma daquelas que servem pra lançar bombas de gás.

Guerra civil? Hehehe, quase. Logo os machões viraram cordeiros, as pessoas começaram a sair do tal muquifo feito formigas que saem do ninho depois de alguém enfiar uma vareta nele, e a louca lá continuava gritando (!!!).

A paz (?) voltou a reinar  neste bairro que eu tanto amo, e eu vim pra minha casinha contar tudo isso a vocês.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Gracias!

Foram 134 acessos. Este humilde blog nunca tinha visto tanta gente num único dia.

Triste foi que, só para variar um pouco, quase ninguém comentou. Algumas pessoas deixaram comentários aqui e outras no Facebook.

Os pedidos não foram muitos, mas o que ganhou com a maioria esmagadora de dois (!!!!) votos foi A Besta.
E pra ele, eu já fiz um vídeo, mas a bateria da câmera acabou e está carregando agora... vai levar um tempinho então.

Os outros pedidos foram Eu Quero, Como Foi pra Mim, A Punheta de Todo Dia (não poderia faltar) e ... .

Esses eu vou colocando ao longo dos dias.

Adorei os comentários e por eles terem sido tão afetivos, continuarei escrevendo até que os meus dedos caiam. =P

Falando Sem Desculpas

Assistam e dêem sugestões, please!

http://www.youtube.com/watch?v=6WO4iSAchkw

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A quem me lê

Queridas pessoas que me lêem,

eu nunca fui muito esperta pra mexer em certas coisas, como neste blog.
Não sabia, por exemplo, que as estatísticas dele eram relativamente confiáveis. Só descobri isso uns poucos meses atrás.

Graças a elas, descobri também que o meu post mais acessado era este, e que as pesquisas por palavras-chave também traziam os punheteiros até aqui. Isso me leva a crer que os meninos não estão muito bons no esporte, o que é triste, pois se buscam informação por punheta, imagino que não saibam nem onde fica uma boceta, mãããs, falar sobre isso não é o objetivo deste post.

Prosseguindo, descobri também que pessoas de várias nações já me visitaram! =] Estados Unidos, Portugal, Alemanha, Angola, Holanda, Polônia, Rússia e Canadá. Só não fico mais feliz porque gente de qualquer parte do mundo bate punheta... =(

O fato é: se você se desprende, de seja lá o que for que estiver fazendo, para vir até aqui e ler o que eu tenho a dizer, então peço que, por favor, diga o que acha!

Há várias opções de elogios e também de ofensas, mas o silêncio é brochante...

Espero grandes colaborações, como:
"Nossa, não sei como você ainda não ganhou um Nobel de literatura."

"Você é tão boa que vou te citar no meu TCC."

"Você me entende como ninguém... casa comigo?"

Mas também aceito as críticas construtivas:
"Quem foi que disse que tem alguém interessado na sua vida de merda?"

"Você escreve pior do que eu."

"Por que ainda mantém essa joça ativa?"


Todas as opiniões são bem-vindas, mas é claro que eu prefiro as que enaltecem o meu talento esplendoroso e toda a minha fluidez textual. De qualquer forma, sintam-se impelidos a me dar um feedback. Ah, eu também adoraria escrever sobre algo sugerido por vocês. Motes me motivam, vejam só.

Com carinho e esperando milhões de comentários,

Cristina FernandeZ

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Na caçamba, o desejo e a vergonha

As noites não são mais as mesmas. Sinto todo o tipo de agonia. Se me cubro, sinto  calor; se me descubro, sinto frio. Reviro-me pelos sonhos macabros. Sonho muito, sonhos variados. Havia falta de água ou excesso dela numa escola. Andava pela rua, passava em uma farmácia e comprava incontáveis produtos, não sei ao certo o que eram, mas me eram muito agradáveis às vistas. Quando saía, à esquina, via um amontoado de gente que estava parada, mas não com o mesmo espanto que eu.

O meu espanto era de ver um camelo, sem os membros nem a cabeça, apodrecendo na calçada. O cheiro de carniça era insuportável, e perto dali havia uma caçamba de entulhos, na qual estavam a cabeça e os membros dele. Eu chegava perto com muita curiosidade; a cabeça estava toda estourada, com um enorme buraco onde deveria estar seu cérebro. Eu a pegava, olhava-a por dentro e então percebia duas ou três larvas verdadeiramente grandes naquele vazio sujo. Soltava-a com nojo, e não entendia por que aquelas pessoas estavam ali, como que apreciando os efeitos de um espetáculo de esquartejamento.

Mas eu também estava ali, eu também me encantei por toda a sujeira. A quem eu estava julgando? Aos outros ou a mim mesma por não aceitar o que via com naturalidade?

Era uma casca, uma casca com cor de caramelo, estufada. Era a morte na rua, com plateia e divertimento. Eu também queria me divertir. Se já está morto, que apreciemos então a beleza disso; a curiosidade pelo que ainda seremos, todos.

O dia A

O dedo está melhorando, mas ainda há pus e todo o aspecto nojento. Ele já deveria ter sarado, mas só notei a importância de usar um antisséptico depois de usá-lo. Achei que sararia sozinho, como das outras vezes, mas como essa espetada, especificamente, eu causei esperando grandes dores, foi o que eu tive.

Amanhã é o dia da purificação; tarôs e mapas de previsão me avisaram que ele chegaria, então vou ficar bem.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A besta

Desencravei a unha do dedão do pé direito e agora ele lateja. Não, não desencravei, eu descolei uma lasca de pele rente à unha. Há a inflamação. O pus com a carne viva. A área quente pulsa e dói, muito. Mas quantas vezes já fiz isso? O prazer da dor. Dor e prazer são a mesma coisa, não é? Isso faz dias e ainda dói, parece que está pior; forma-se a ferida, mas ela custa a cicatrizar. Antes que sare, ela incha, deforma.

Há dias eu tenho vontade de gritar, de me exorcizar. Vontade de sair correndo e berrar o mais alto que eu puder. Descobri tanto sobre mim nos últimos tempos e, antes que eu me restabeleça, vou ruir. Não tem mais nada que eu não consiga ver de podre em tudo o que eu sou.

Eu, eu, eu, é tudo sobre mim, o tempo todo. Está em toda parte a minha sujeira, me lembrando quem é que manda.

Se eu me odeio tão profundamente, como posso permitir que alguém me ame? Como posso permitir que alguém me veja de um jeito diferente? A gente é o que é, eu aprendi. E eu, o que sou?

Queria que sentissem pena de mim no fundo, mas eu não sou digna de nada disso. Culpar alguém? Quem, senão a mim mesma? Sabe quem sou eu?

Pensando agora, pode ser que todos já me conheçam, só que nunca tinha me dado conta.

Culpa? Não sinto mais. A gente é o que é, eu aprendi, mas não é o que foi. Ainda assim, carrega a merda toda como se fosse um pedaço da gente.

Eu fui uma putinha, daquelas asquerosas que você comia o quanto quisesse e sempre que precisasse descarregar toda a porra que havia em você, era só me procurar, eu estava sempre de pernas abertas. Puta escrota, vagabunda barata, que fazia cara de poucos amigos, mas estava sempre pronta pra foder.

Que me fodessem de qualquer jeito, era o que eu queria, e depois chorava em casa, sozinha porque ninguém me amava. Depois de adulta, me enchi de recalques, negando todas as putarias que já fizera. Coisa de puta, quase coisa de puta que vira crente.

Eu acreditava em deus, mas agora que me mostraram que ele não existe, por que preciso fingir culpa por ser que eu sou? A gente tem de andar na linha, porque não existe deus, mas existem regras de civilidade, de convivência. Roubei namorados com os meus encantos de rameira, e em algum momento eles acreditaram que eu fosse uma ninfomaníaca; a vagabunda dos sonhos, com cara de mulher decente.

Me mostrava, então, fria, distante, com a libido de uma porta, enfiada dentro de uma concha, na qual mentalmente eu injuriava todos. Eu pedia para ser traída, depois pedia para não ser abandonada para que continuasse sendo traída. Ninguém me amava, não amava ninguém, mas não aceitava perder.

Quem mete no cu dos outros, em algum momento também toma, e eu tomei, ah, tomei gostoso...

Precisava do controle, da dominação, da paranoia que me lancinava e me fazia ter palpitações, dormir o dia inteiro, sonhar com coisas boas e ruins, e viver acordada coisas piores e inimagináveis. Eu queria o pacto, a certeza, mas não por amor, por posse, só para que pudesse continuar pisando os outros e comprovando que ninguém era decente, assim como eu não era.

Comprei pessoas também. Umas foram muito baratas. Vendiam-se por qualquer coisa, mas sempre queriam mais, e eu lhes dava o que queriam. Comprei conforto, proteção, companhia. Comprei o que o dinheiro podia comprar. Esperava devoção eterna, mas quem se rende ao dinheiro só funciona diante dele e os negócios sempre foram à parte.

Invejei pessoas, relações, coisas, atributos, inteligência, beleza, poder. Eu fui torpe, podre. Queria amor, ah, quantas vezes eu falei de amor, de comichões, de expectativas, tudo infundado e mentiroso. Nada disso existe, nem pode ser construído. É tudo um jogo de emoções efêmeras e baratas. Puro interesse. Meu e de todo mundo. Sempre se busca a troca, a via de duas mãos.

Quando se tem, acredita-se em amor. Quando não se tem, a culpa é sempre do outro que continua em busca do que não existe, assim como você. Alguns são falsamente preenchidos por essa sensação de amparo. Tudo mentira. Em breve aparecerá alguém melhor do que você jamais será, e adivinhem? O amor tão puro se vai.

Eu tô tão feliz, vou lembrar sempre daquela cara dizendo isso para mim. Você me ama? Amo. Você me ama? Amo. Mas vem cá, você me ama? Amo, caralho! Ah, tá, era só para saber, porque todo aquele papo de que eu te amava, passou. Sabe como é a vida, né? As coisas evanescem ainda mais rápido do que um peido.

Claro, evanescem fácil porque simplesmente não existem. Eu não acredito mais nisso. Sofro ainda. Por amor? Não, também não amava, só queria estar por cima, sempre por cima. Olhando por cima, pisando por cima, cuspindo por cima, gozando por cima.

Sempre o ego, respondendo a tudo. Antes de me purificar, preciso me esfacelar. Precisa não sobrar nada de bom, porque tudo é ruim.

Interesseira, dominadora, péssimas relações filiais, deslocamento infinito. Tentei fazer parte, sendo o que nunca fui. Já falei da vontade de sair gritando? Nem isso posso fazer, porque porra, pessoas normais não saem gritando pelas ruas, vomitando seus podres, tendo ataques nervosos, exaltando-se loucamente.

Pessoas normais não surtam, não quebram tudo, não enxergam que fazem parte da mesma escória que eu. Elas acumulam um monte de merda como eu, engolem cada pedacinho grotesco, ruminam, os pedaços descem, sobem, vão para um lado e para outro dentro de você, até que você regurgita tudo, em todo mundo. Até que você começa a fazer isso o tempo todo, com qualquer pessoa.

Até o momento em que qualquer mendigo da rua te olha com pena, por poder ver através de você o quão escroto e miserável você é.

Queria ser tomada de tapas, contida, babando, vociferando sem controle todas as minhas verdades absolutas. Vamos, me escutem! Eu sei do que estou falando! Minhas experiências foram as mais terríveis de todas, não porque foram de fato, mas porque foram as que eu tive a oportunidade de sentir.

A porra do inferno está por toda parte, mas o lugar onde ele mais queima é dentro de mim mesma.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Legião

Tenho medo de dormir. Fico com os olhos arregalados diante da luz do monitor; meu corpo não se aquieta e tenho medo de dormir. Medo porque sei que no meio da madrugada, meu coração vai dar pulos tão fortes que vou ter a sensação de que me salta à boca, e isso me desespera.

Sono até tenho, mas tenho medo de pensar. O Torpe sempre chega mostrando o pior, o mais escroto do que pode haver, e é ele que me faz tremer, que me descontrola. Quando ele já está sentadinho à mesa da cozinha em que fica a minha mente, e começa a me dizer todos os impropérios que uma tia velha, invejosa e frustrada diria, o Razoável sai lá de dentro, dos cafundós emaranhados de mim pra vir ver o que está acontecendo.

Quando o Razoável chega, começa a briga. Torpe e Razoável não se dão muito bem, e por bastante tempo o descontrole do primeiro sapateou no meu palquinho; fez e desfez; mandou mais do que filho escroto de pais quarentões de primeira viagem. Era o caos.

O que controla vivia numa letargia, a base de conformismo, dor de barriga, preguiça e fome. Ele ficava numa cama grande, gordinho, vendo a merda ficar cada dia mais fedida, mas sem se manifestar, porque o básico, afinal, ele tinha.

Mas agora Razoável percebeu que precisava de dieta, que a casa estava uma zona e que a porra do Torpe não poderia mais mandar na bagaça dessa maneira! E ele achou que seria fácil... Ledo engano, pois enquanto ele rolava nos lençóis macios do comodismo, Torpe aprontava sem parar, sem parar, sem parar. Possuído. Dê-me comida, dê-me sexo, dê-me amor. Dê-me. Dê-me mais. Dê-me agora!

Essas coisinhas quando se automatizam são como uma praga. A sorte é que o apaziguador contou com os chacoalhões muito úteis de alguém que nem morava naquela bagunça. Essa pessoa foi quem primeiro brigou feio com o Torpe; deixou-o ensandecido, com os olhos faiscantes de ódio, de contrariedade, de orgulho, soberba e arrogância. E quando essa pessoa fez isso, Torpe se sentiu tão atingido, tão humilhado ao ver que sua vontade de manipular não vingaria diante dele, que gritou muito alto. Chorou, esperneou e não cessava sua raiva. Foi tudo isso que fez Razoável levantar da caminha confortável e ir ver o que rolava naquele muquifo.

Apesar de a pessoa ter brigado com Torpe e tê-lo atingido em cheio, ela não podia entrar naquele domínio tão pessoal que é a mente de cada um, porque cabeças não se abrem literalmente, a menos que uma força muito grande seja exercida sobre elas, mas aí há grandes chances delas estourarem, quebrarem ou amassarem, e o objetivo não é esse.

Razoável ouviu a discussão e só então percebeu que aquilo ali era trabalho dele. Ele agradecia imensamente à pessoa de bom coração e boa cabeça que o tinha despertado, mas dali em diante, a responsabilidade era só dele.

Cabia a ele domar, com toda sua pequenez, aquele enorme monstro que vivia de cabeça erguida, babando maldades e desejando ser satisfeito a qualquer custo.

E assim deve ser. Comigo, que começo agora a ter consciência de quem realmente sou, para que adiante, depois de matar meu Torpe e agradecer pelos serviços de Razoável, tenha a certeza de que sou muito mais do que o conflito de poder e dominação de dois lados dentro de um único corpo. Eu sou todos e ninguém ao mesmo tempo. Sou tudo e nada. Eu já sei disso, mas ainda não sinto.

Orai e vigiai.

Parei

Parei de fumar ontem e lembro dos cigarros constantemente. Joguei um maço deles, fechado, no lixo da cozinha, que já está cheio, e quando me bate uma fissura, penso em resgatá-lo pra poder dar uma tragada. Isso é burrice, sim ou claro?

Fumei durante onze anos, variando as quantidades e os malefícios. Sendo eu asmática, e sedentária até o último fio de cabelo, o que me restou foi sonhar com longas corridas, nas quais eu nunca me cansava e conseguia dar passadas enormes, pulos, quase uma decolagem em busca de um prazer tão simples quanto o de correr.

Eu não corria, eu morria subindo escadas e, graças a um ex-namorado hipocondríaco, hoje não consigo me ver sem uma bombinha de Aerolin e, com o tempo, a coisa só piorou; a casa fedia, meu carro fedia, eu nunca tinha dinheiro trocado, eu tinha tosses que duravam semanas e que me faziam parecer com o Mutley; eu tinha as pontas dos dedos manchadas, o hálito comprometido, as roupas defumadas, a cobrança da filha, as propagandas negativas, os olhares condenadores, a falta de ar, o pigarro... 

Acontece que eu não dava a mínima pra nada disso. Fumar era um gozo. Uma gozada boa e demorada no meio da chuva de ansiedade, preguiça, ira e alienação.

Fumar é bom pra caralho. Nunca vou negar isso. O ato é de reflexão, simbólico. Eu viajava no barulho do atrito que a pedrinha do isqueiro fazia para que a chama surgisse; eu contemplava a fumaça que serpenteava o ar; eu admirava as brasas que iam comendo o papel e o fumo com seu calor. Era um tesão.

Quem fuma sabe que uma boa conversa ou uma boa discussão exigem um cigarro antes que tudo comece, depois que tudo termine. Quando se acorda, depois que se come e depois que se é comida. Às vezes, cagando, mas sempre sempre sempre nos momentos de angústia, preocupação e sofrimento. Fumar é dramático.

O que não foi um tesão foi ir ao médico essa semana e descobrir que, depois de fazer um teste de capacidade pulmonar, a capacidade dos meus pulmões já está comprometida e que, para alguém da minha idade, o teste deveria ter um aproveitamento de cem por cento, e o meu não tinha. Também não foi nada excitante ouvir dele, enfaticamente, que pessoas que fumam desenvolverão algum tipo de enfermidade em virtude do vício, mas nem todas elas terão alguma doença relacionada aos pulmões; e ele disse, categoricamente, que se eu continuasse fumando teria bronquite crônica, e mais adiante, enfisema.

Não vou encher o saco de quem fuma ou dar lições de moral pra quem quer que seja, porque todos somos livres pra fazermos o que nos satisfaz, mas a pergunta que fica é: o que me satisfaz é realmente o prazer safado das baforadas que me trarão a ruína em algum momento? Será que de fato preciso me destruir de maneira inconsciente para que esse mesmo inconsciente continue fazendo a festa dentro de mim e me dominando?

Meu inconsciente é tão cheio de artimanhas, que me sugeriu que eu fosse até a lixeira e chafurdasse por ali em busca do maço jogado fora, então me imaginei fazendo isso e, obviamente, mandei meu lado torpe ir dormir. É claro que ele não foi, e fica no meu ouvido dizendo que os cigarros ainda estão lá, e que eu ainda estou com vontade fumá-los. Nessa hora, então, mando-o tomar no cu, e bem que ele gostaria disso, mas também não vai.

Fato é que não fui revirar o lixo, e que a única sujeira que estou tentando limpar é a que existe dentro de mim e que, em parte, também era alimentada pelos cigarros.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Como foi pra mim

Isto aconteceu enquanto eu morava naquela cidade, mas já não era mais criança; tinha dezesseis anos e estava no terceiro ano do ensino médio. Lembro que no sábado anterior ao que aconteceu, era dia 23 de junho do ano de 2001, um sábado, e eu tinha ido à festa junina do meu colégio.

Eu fazia o tipo porra-louca-rebelde e fui pra tal festa usando um vestido de cetim bordô estampado com caras de bichinhos fofos que eram cor de creme, estava de meia-arrastão e com meu inseparável All-Star preto; no pescoço, usava uma enforcadeira de metal; eu adorava fazer o tipo que chama a atenção, e chamava, de fato. Minha melhor amiga estava comigo e foi uma noite divertida. Lembro de ter invejado os cabelos escorridos de uma menina que estava lá. Lembro disso até hoje, sabe-se lá por que.

Não me lembro do que houve naquele domingo, dia 24, exatamente um mês antes do meu aniversário, mas lembro perfeitamente do que sonhei naquela noite, que viraria a segunda-feira.

No meu sonho, eu estava em casa, não era a minha casa de verdade, mas era na ocasião. Dois homens entravam lá pra roubá-la e atiravam em mim. Fui baleada duas vezes e um dos tiros me acertou no pescoço. Eu não sentia qualquer dor, e me via caindo no chão em câmera lenta. Já caída, sentia o sangue escorrer formando uma poça espessa; eu sentia um enorme alívio e desfalecia. Parecia uma libertação, como se eu tivesse morrido. Acordei, então, no que era o meu quarto, deitada em uma cama de casal e minha mãe estava sentada ao meu lado, numa cadeira. Em frente à cama havia uma grande penteadeira com um espelho oval; eu me levantei, fui em direção ao espelho e vi os pontos que haviam sido dados no meu pescoço.

Acordei com uma estranha sensação. Era segunda-feira, e na escola ainda comentei com algumas pessoas que tinha a impressão de que algo fora do comum aconteceria, e aconteceu.

Fui pra casa na hora do almoço, como em todos os outros dias. No meio da tarde, minha mãe me liga. Ela disse que estava indo pra casa e que tinha algo muito sério a me dizer. O seu tom me perturbou profundamente. Pensei em milhares de coisas, sendo que todas elas a envolviam. Pensei que ela iria me dizer que tinha aids, que tinha sido demitida, que tinha alguma outra doença gravíssima. Fiquei com o coração pesado de maneira que eu não sabia explicar.

Quando ela chegou, me disse: "Teu pai morreu, ele se matou". Pronto, caí numa outra vida, paralela a tudo. Eu não sabia como reagir, não conseguia chorar, só não acreditava. Uma tia dela, que morava na ilha, tinha ligado pra ela e contado que naquele dia, de manhã, ele havia dado cabo da sua vida. A porra toda era inconcebível pra mim. Como assim meu pai morreu? Pior, como assim ele se matou? Era a notícia mais surreal que eu poderia receber. Pra mim, ele era um homem católico, dedicado ao trabalho e que condenaria qualquer pessoa que tivesse atitude semelhante, mas é claro que eu não fazia ideia de quem era o meu pai de verdade.

Aí, então, liguei pros meus irmãos, cobrando uma satisfação, pois a filha de longe não soube da morte do próprio pai pela família dele, soube por outros. Ouviu deles um telefone desligado na cara e a resposta de que haviam tido uma preocupação muito grande com a caçula. Ah sim, todos ficaram muito mexidos com o fato, mas a família, os tios de estirpe muito distinta, rica, fina e religiosa, tinham que enterrar de uma vez a vergonha que o filho mais novo lhes trouxera. Morreu em torno das sete horas da manhã e às cinco da tarde já estava sendo escondido no jazigo da família, junto com os seus pais e avós.

Que merda, eu não o via já havia seis anos e nunca mais o veria novamente.

Baixaram na nossa casa pessoas da federação espírita, lembro de um cara careca e barbudo, falando sobre a morte, tentando confortar e eu só tinha vontade de mandá-lo tomar no cu. Minha mãe teve os surtos de culpa tardia e se vitimou pela morte do homem que ela tinha passado a vida inteira detonando pra mim. Eu liguei pro carinha de quem eu era a fim na época, e que vivia me maltratando e me dando foras pra contar a novidade, esperando algum tipo de consolo. Ele, obviamente, não sabia o que dizer, mas eu queria ser apaziguada pela perda, procurando ânimo e pena, esperando que assim ele fosse me amar.

Usei a morte do meu pai, desde o primeiro dia pra que sentissem pena de mim, mas isso não deu muito certo.  A noite já tinha aparecido quando eu achava que ia explodir se continuasse dentro de casa com todas aquelas pessoas estranhas dando condolências por um morto que já estava enterrado. Desembestei pela rua, e fui parar no prédio do meu cursinho, achando que conseguiria assistir à aula de física e esperando a piedade de quem estivesse por perto.

Não lembro quando foi que consegui chorar a morte dele, só sei que queria fazer de conta que aquilo não tinha acontecido. Não fazia nem uma semana que ele tinha morrido e eu inventei de ir a uma festa, sob os protestos da minha mãe. Era muita falta de respeito minha sair pra me divertir quando eu deveria estar de luto. A festa era em uma casa grande; lembro da escuridão, da música alta, das muitas pessoas que estavam lá e lembro também que dentro de mim só havia um silêncio gigante. Eu estava lá, mas não estava.

Um mês depois, foi meu aniversário de dezessete anos, em casa, com bolo e salgadinhos pra dois amigos que me suportavam. Era uma vida de bosta. Não sentia nada, a ficha não tinha caído, ainda.

Meu pai foi um estranho pra mim, o tempo todo. As lembranças que eu tinha dele, em sua maior parte, eram ainda do tempo em que eu era uma meninota e ele me chamava de galega. Minhas lembranças eram de tristes conversas pelo telefone, nas quais eu tinha que fazer o que mais odiava em toda a vida, pedir.

Ele nunca disse que me amava, e a coincidência de tudo isso foi o sonho. No dia em que ele morreu, eu sabia que algo estranho aconteceria, eu tinha levado um tiro no pescoço, e foi se enforcando que ele teve paz. Sempre esperei que ele tivesse o mesmo alívio e sensação de libertação que eu tive, quando caí ensanguentada e leve no chão do meu sonho. Nossas vidas se tocaram e eu pude sentir, então, um pouco do que ele buscava.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Atrás da porta

Eu não sei o que ele tinha, mas seja lá o que fosse, tinha nascido com ele, acho que tinha nascido com ele. Um homem que já fora "normal" não aceitaria viver nas condições em que ele vivia. Mas o que eu sei da loucura dos outros? Se é que era loucura... Vou contar como era, mas antes preciso me inserir no meio disso, porque essa história não é minha, mas eu vi algo da história dele.

Minha mãe namorava o irmão desse homem, e tínhamos voltado praquela cidade depois de quase um ano fora. Recém-chegados, ficamos na casa da mãe deles. Lá, moravam muitas pessoas. A matriarca, que cuidava de uma loja de muambas junto com a filha única, que era separada de algum marido mau-caráter e carregava três filhos pequenos nas costas; o patriarca fora de atividades, um senhor acamado há algum tempo e que já vivera a glória que almejava sendo delegado na cidade; um filho mais novo, solteiro e também policial, mas com uma índole duvidosa; o outro irmão, namorado da minha mãe, desparafusado e professor de História, como ela, e ser essas duas coisas é quase um sinônimo; a empregada espevitada e o homem que mencionei no início.

A família inteira tinha algo fora do comum, não no bom sentido, mas no sentido de perturbações emocionais; tantas que formavam uma nuvem pesada no ambiente meio decrépito do lugar em que viviam. Estavam todos juntos, protegiam-se uns aos outros, mas sequer sabiam do que faziam parte.

Não sei ao certo se ele era o primogênito ou o caçula, sei que tinha o nome do pai, e que por sua cara, passaria tranquilamente pelo filho mais moço. Ele vivia quase que numa masmorra. Na cozinha, bem em frente à mesa de refeições, havia uma porta de ferro, com uma pequena janela de vidro vedada. Era como a porta de uma solitária em um hospício, mas lá dentro as paredes não eram acolchoadas e nem ele vivia com uma camisa-de-força branca. Ele morava lá, nu, num ambiente sem janelas, sem luz, sem móveis; havia apenas uma rede. A única claridade que entrava lá, era através do vidro.

Às vezes, quando a empregada abria a porta para lhe dar de comer, ele fugia. Corria pelado pela casa, indomável. Quando isso acontecia, chamavam sua mãe, que era a única capaz de apaziguá-lo. Deixava o filho manso, quase em transe. Quando ele ficava nervoso, gritava, e os seus gritos abafados pelas paredes, pareciam uivos desesperados. Ela lhe fazia a barba, quando já estava muito grande. E frequentemente o quarto era lavado, pois fedia à merda e comida estragada.

Ele não falava. Não sei se porque não sabia, ou se porque desaprendera, já que naquela casa ninguém estava disposto a ouvi-lo. Quando ficava manso, soltavam-no e até lhe vestiam uma cueca ou algo como uma fralda, não lembro ao certo, e ele dava um passeio pela casa. Tinha o olhar débil e lascivo, e constantemente tocava sua genitália. Babava, ria, comia com as mãos. As pessoas da casa faziam gracejos, aos quais ele respondia com um riso de deboche. Ele era franzino, mas tinha força física, e acredito que ele usava isso a seu favor. Se ele ficasse fora de controle, o que poderia acontecer? Ele não era tratado como um retardado, era tratado como um bicho, e eu tinha medo dele.

Não sei se ele é vivo ainda hoje, porque faz quinze anos que presenciei o que contei aqui, mas mesmo na loucura e na debilidade em que ele vivia, imagino que ainda tinha algum desejo de ser visto como gente, e não como o monstro escondido no quartinho da cozinha. Eu não o conheci de verdade, talvez a mãe dele o tenha conhecido ou talvez, ainda, ela apenas soubesse como amansá-lo para parecer que não havia nada de errado ou de diferente dentro daquela casa. Desprezo no cuidado, aquele homem simplesmente não existia.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Limpar ou não limpar?

Nunca gostei dos serviços domésticos, apesar de saber fazer tudo dentro de casa. Aliás, qualquer macaco sabe fazer o serviço da casa. Cresci com a minha mãe me botando pra trabalhar. Ela sempre disse que só podia mandar quem sabia fazer; e isso é certo. Se você gosta que a sua casa pareça um brinco, tem que saber como deixá-la assim.

(Aliás, mesmo não gostando do trabalho sem fim que demanda uma casa, é importante saber fazê-lo. Acho um absurdo gente que não sabe lavar um talher sem deixá-lo ensebado ou que não sabe fazer um feijão com arroz sem fazer drama de que não tem talento pra cozinhar. A gente aprende fazendo e isso serve pra mulheres e homens. "É de menino que se torce o pepino" já diria o ditado. Se você não aprende essas coisas quando pequeno, aos poucos, e a necessidade de fazê-las, é provável que você cresça sendo uma bela bosta. Não adianta ser bom na escola e não saber onde fica a vassoura; não adianta viajar pelo mundo e não saber lavar a porra da sua calcinha; não adianta ser lindo e sarado se você não sabe passar as suas roupas, mas enfim...)

Desse jeito eu aprendi, mas a minha mãe era bem esperta porque enquanto ela fazia coisas mais leves como estender a roupa, meu irmão e eu limpávamos a casa. Ela sempre foi boa em mandar, principalmente em mandar que os outros fizessem coisas que ela era perfeitamente capaz de fazer sozinha; isso me dava nos nervos.

Mas com ela também aprendi a cozinhar, depois de muito feijão e arroz queimados por esquecimento. Ela ia trabalhar, me deixava cuidando da comida que ficava no fogo, eu ia assistir a Xuxa e fodia tudo. Comida torrada, cheiro de comida torrada pela casa e me batia o desespero! A esculhambação ia me tomar inteira ao meio-dia; mas porra, eu tinha uns oito, nove anos... É muita responsabilidade pra uma fedelha uma panela de pressão! Enfim, hoje eu cozinho decentemente e quem já provou minha comida, sabe que ela é boa.

Mas voltando à arrumação... Eu achava que ela era neurótica porque podia estar tudo arrumado, mas se tivesse um copo na pia a tempestade estava feita: "Ninguém me ajuda, essa casa tá sempre uma zona!", e pensava eu que quando eu tivesse a minha casa as coisas seriam diferentes.

Pois então, hoje tenho a minha casa e também sou neurótica; as coisas são iguais. Mas é que, puta que pariu, essa porra de serviço não acaba nunca! Casas deveriam ser limpas e lacradas e deveríamos viver num quarto anexo que seria um chiqueiro.

Eu arrumo tudo, limpo tudo, tiro o pó, aspiro, passo o pano, lavo a louça, guardo a louça, levo o lixo pra fora, coloco a roupa pra lavar, estendo a roupa, recolho a roupa, dobro a roupa e a coloco no cesto pra passar, limpo a caixa de areia dos gatos, limpo privadas, pias, espelhos... Acontece que eu moro na minha casa e é isso que estraga tudo.

No mesmo dia aparece mais louça pra lavar e o chão já começa a ficar sujo de novo. É pelo de gato, meu cabelo que cai sem medida, os gatos que derrubam a tigela de água deles e fazem uma lambança diária na cozinha... É uma merda de trabalho ingrato... E tudo pra quê?

Se arrumo, tudo aparece de novo de qualquer jeito; se não arrumo, a cagada toda vai se acumulando de uma maneira que me deixa doida! Odeio arrumar a casa, mas adoro ter a casa arrumada. Às vezes baixa em mim o espírito da dona de casa perfeita e eu arrumo até as gavetas, jogo quilos de lixo fora, papelada de anos, arrumo o guarda-roupas; mas na maior parte do tempo, queria tacar fogo em tudo e sair correndo.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu, escritora

Não sei quando foi que comecei a escrever, não me dei conta do que fazia. Já tive diários quando era menina, mas não era muito assídua na tarefa de falar sobre o meu cotidiano. Depois que cresci, a verdade é que nunca me imaginei em nenhuma profissão muito significativa. A primeira coisa que quis ser foi arqueóloga, não sei por que cargas d’água. Fui crescendo e passei por várias delas... Professora, médica, veterinária, vendedora, atriz, diplomata... Acabei me formando em Letras, e essa formação não me dá ao menos um nome; “No que você se formou mesmo?” – Me formei em Letras, sou letrada? Acho que não. Das aspirações profissionais da infância passei a algumas outras que me traziam frustração: ser dona de casa, desempregada, sem perspectivas porque puta que pariu (!) não sei o que me deleita! Não sei do que gosto!


Escrever, então, pensei, poderia ser uma boa... Mas sobre o que eu escreveria? Não sou imaginativa como os grandes escritores que criam personagens densos com histórias conflituosas e desfechos bem pensados. Achei que seria uma ideia escrever sobre mim, sobre as minhas vivências, sobre as minhas parcas impressões acerca do mundo, mas vendo agora que não sei sequer o que me excita na vida, descubro que sou uma farsa. Mas isso também é mentira porque já sei disso há tempos, e escrever realmente me faz feliz.

O problema é que nunca acreditei em mim, porque sempre tive os outros como referência, os outros que são melhores do que eu. Sempre que acreditei um pouco mais no meu potencial, bastava que olhasse pro lado pra ver que havia alguém acima, e isso me fazia cair. Caio todos os dias por não conseguir ver em mim mesma tudo o que tenho de único.

A autoajuda vem agora: ninguém é melhor do que eu posso ser; somos únicos em tudo. Eu busco referências ao lado que me desestabilizam, como se elas só servissem pra provar que não sou capaz de fazer o que quero. Esqueço, com isso, que eu também sou referência pra alguém. Alguém me lê, me acha boa e me visita todos os dias esperando que eu tenha escrito algo novo.

Alguém espera ouvir de mim algo que faça uma mínima diferença em sua vida. Eu posso tocar as pessoas; posso ser uma distração em meio ao trabalho, posso ser ridicularizada, posso me tornar uma lembrança agradável ou desconcertante, posso xingar e lavar a alma de alguém e posso também fazer alguém chorar, porque eu sou depravada, mas também sei ser dramática, melancólica, doce e adulta. Eu posso fazer com que você se veja através de mim.

A gente consegue fazer a diferença na vida de várias pessoas, todos os dias e, talvez, a graça de tudo esteja nisso. Estamos sempre marcando as pessoas que cruzam os nossos caminhos. Elas nos deixam marcas e deixamos impressões nelas também. É tudo muito óbvio, mas eu gosto de pensar nisso, e decidi que, mesmo que o meu alcance seja limitado, deixarei a minha marca escrevendo.

sábado, 6 de agosto de 2011

Infância IV

Naquela cidade, a menina conheceu sabores diferentes. Nunca simpatizou com o açaí, apesar de todos em sua casa terem gostado do fruto. As batedeiras ficavam espalhadas por todos os cantos, e na hora do almoço, havia filas para comprar aquele sumo, que era a base alimentar de grande parte da população. Do fino ou do grosso, colocado em sacos plásticos e comprado aos litros, tomavam acompanhado de charque, camarão, farinha demandioca, que lá era amarela e grossa - deliciosa-, com farinha de tapioca, tamuatá ou puro, aquele era o fruto que dava a leseira depois de comê-lo, melhor dizendo, depois de tomá-lo.

Os camarões do rio também eram gostosos, e vendidos pelas ruas em carrocinhas, a preços módicos. A menina não gostava muito do cheiro, mas o sabor... Ela aprendeu a gostar de peixe frito, de palmito de jussara, de macaxeira e de mingau de tapioca. Mas nunca conseguiu sentir nem o cheiro da maniçoba, tão apreciada por aquela gente; tacacá, também, não engolia.

Os sabores das comilanças eram geralmente realçados por uma pimentinha que a menina conhecia bem, mas não era porque gostava; conhecia o ardor da pimenta-de-cheiro desde os oito anos, quando uma vez, numa briga com o irmão, ele por vingança cruel de criança, esfregou-lhe uma dessas na boca da pequena. Naquele dia, de boca inchada e sem jeito de parar de arder, viu que nunca provaria seu molho amarelo.

Naquela cidade, a menina aprendeu a dançar carimbó, ouvindo Pinduca. Lá também aprendeu o que é brega, o ritmo musical, que tocava nos bares, nas rádios, nas casas dos vizinhos, a qualquer hora do dia ou da noite. Com esse som, os casais dançavam colados, rodopiavam e suavam de um jeito safado e, irremediavelmente, contagiante. Ela não gostava da música, mas não havia como não aprender ao menos as suas letras, visto que estavam por toda a parte.

Mas lá, naquele lugar, ela descobriu músicos talentosíssimos, que cantavam a região com todas as belezas que ela tinha, e ainda tem. Com nostalgia, a menina se despede do relato de hoje, com Osmar Júnior cantando o Norte.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sobre as pessoas que caem

Você anda distraído pela rua, não vê um pequeno buraco, pisa em falso, torce o pé e empacota no chão. Se ninguém o vê, dá graças; se há muitas pessoas por perto, é quase certo que não nenhuma delas vai ajudá-lo a se levantar, mas que elas rirão, apontarão para você e o acharão um idiota por ter caído, pode ter certeza.

Nunca achei engraçado ver alguém caindo, nem quando criança, e crianças podem ser bem escrotas ao verem alguém no chão, mas isso nada mais é do que o reflexo da educação que receberam de seus pais. A falta de educação e de solidariedade ficam claras quando o assunto é uma queda.

Fato é que todo mundo cai. Se você tem pernas, anda por aí, descalço ou de salto alto, pode cair. Você pode escorregar e cair de bunda; pode tropeçar nos seus próprios calcanhares e cair de joelhos. O cóccix sente o impacto e seu traseiro pode doer por semanas. Seus joelhos podem ficar ralados e com hematomas, e o mesmo acontece com as suas mãos, que o amparam. Suas mãos impedem que você caia de cara no chão e que quebre os dentes ou o nariz; suas mãos também impedem que se faça um corte no seu queixo.

São as suas mãos que o impulsionam para que você se levante do chão e para que, mais à frente, possa cair de novo. Pode ser que haja alguém do seu lado, em quem você possa se apoiar para não cair, mas também pode ser que você caia e leve essa pessoa para o chão consigo. Pode ser ainda que só você caia, e que ela o ajude a se levantar e a passar logo pela multidão, de cabeça erguida.

Você, em algum momento da sua vida, vai cair; é questão de tempo. As pessoas caem por diversas razões. Elas caem porque andam distraídas e a queda vem para despertá-las; elas caem por medo de cair e também por excesso de autoconfiança. Você pode cair andando em um terreno plano; subindo ou descendo um lance de escadas; pode cair do alto de você mesmo.

Caímos sempre, todos os dias, e cair no meio de uma rua movimentada nos remete a uma vergonha tão intensa, que só gostaríamos de ter caído em um buraco negro, que nos tragasse e nos levasse para longe do riso alheio, porque cair é mais do que apenas perder o equilíbrio; cair é ficar exposto, vulnerável. Cair é ficar pronto para ser chutado, pisado, levado por quem passa.

Melhor é quando caímos sozinhos e podemos rir de nós mesmos; podemos praguejar o chão, nossos sapatos, os degraus, os buracos, as poças que nos fazem escorregar ou mesmo os nossos pés, por não terem visto que o tombo era iminente.

Hoje choveu o dia todo. Ainda chove, na verdade. Saí de casa de botas com solado de borracha, mas eles não puderam me conter. No piso molhado, em algum milésimo de segundo aconteceu: senti meu pé torcer e quando vi, já estava no chão. O joelho direito ardia pelo atrito com o jeans. Xinguei tudo ao mesmo tempo e levantei. Fui andando, mas pelo rabo dos meus olhos, vi as caras maledicentes de quem tinha presenciado o meu tombo. Eu não olhei para trás.

Depois, analisei os estragos. Palmas das mãos doloridas e  pretas do chão sujo; joelhos ralados e instantaneamente roxos. Acontece. Amanhã caio de novo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Infância III

Naquela cidade, a menina aprendeu sobre o amor e sobre as perdas. Lá, ela enterrou um irmão que esperou por nove meses pra nascer; que nasceu num dia e morreu no outro. Ela nunca viu seu rostinho pequeno, apesar dele ter tido um nome. Ela nunca o conheceu, mas sentiu todo o pesar de sua mãe por tê-lo perdido.

Por vários dias, depois de ter voltado do hospital, a menina viu sua mãe no choro sofrido de quem perdeu uma cria; com os seios empedrados e com febre por não poder alimentar seu bebê. Ela via aquilo e não entendia a dimensão da dor, da separação depois da longa espera por ficar juntos, por conhecer de fato quem se carregou no ventre, pela convivência e aprendizado que nunca viriam.

Naquela cidade, a menina acompanhou o sofrimento dela tantas outras vezes, como quando ela perdeu o amigo tão querido. Ele era bonito, tinha os olhos claros, e ela guardava uma foto 3x4 em que ele parecia um jesus borrado. Ele era tão novo pra morrer, mas se foi em um acidente brutal de motocicleta. Nas estradas do interior, cheias de cascalho, ele derrapou. Chegou a ser levado pro hospital com vida, mas tinha perdido um braço, e dizem, que pela enorme ferida do braço amputado, podiam ver seu coração.

Não é assim que se esperava ver o coração de um rapaz tão bom e católico. Ele não acreditava no além, e várias vezes depois de sua morte, a mãe da menina sonhou com ele; remoía-se de culpa por ele ter partido brigado com ela, mas essa foi só uma das muitas culpas que ela carregou pelo tempo em que viveu naquele lugar.

A menina também sentia culpa. A primeira grande culpa que sentiu foi pela morte do pequeno cachorro de pelo encardido que tinham. Ele era adorado pelas pessoas da casa, mas um dia, a menina esqueceu o portão aberto, até que um homem gordo bateu à sua porta perguntando-lhe se o cachorrinho de pelos encaracolados não era dela, ao que ela respondeu "sim", e foi quando o homem disse que ele estava na esquina, morto. Havia sido atropelado. Ela correu, chorando. Viu-o mole, o sangue tingiu seu pelo de tapete, seu pequeno focinho preto, molhado e sujo de areia, não fungaria mais nada.

Foi a primeira vez que perdeu alguém e sentiu enorme culpa por isso. Fora a responsável pela morte de um ser e isso era terrível. A menina não tinha nem dez anos ainda, e já era responsável por tirar do convívio dos seus um dos seus.

Naquela cidade, a menina tivera incontáveis gatos e cachorros, que tiveram incontáveis ninhadas de animaizinhos que foram amados e queridos por todos os cantos das muitas casas em que ela morou. Depois de um tempo, um de seus quintais tornou-se um verdadeiro cemitério de animais. Os bichinhos morriam, atropelados ou por doenças que os faziam cagar sangue. O cheiro daquela merda, era o cheiro da morte, da doença que não tem volta, que aniquila. E ela chorava sobre eles, e depois seu irmão mais velho os enterrava no fundo do quintal, em meio às árvores e folhas caídas.

Logo a menina percebeu que quando a morte aparecia, seres humanos e animais eram iguais. O cachorro do vizinho, atropelado por um caminhão caçamba, e deixado no asfalto com seu crânio esmagado e seus lindos olhos azuis saltados das órbitas, era igual à criança atropelada pelo ônibus na frente da escola; igual à mulher que andava de bicicleta e que também fora atropelada por um ônibus.

As doenças matavam os bichos, assim como matavam as pessoas, os amigos de sua mãe, com caras assustadoramente cadavéricas, dentro de caixões baratos. Amigos morriam afogados, com seus buchos inchados e línguas pra fora, olhos saltados como os de sapos-boi que quacham sob as casas de palafita daquela cidade.

domingo, 17 de julho de 2011

Infância II

Naquela cidade, a menina cresceu ouvindo histórias de rasgas mortalhas que eram prenúncio da morte de pessoas próximas. Ouvia isso da avó de um vizinho. A velha negra era muito boa com as lendas que envolviam a floresta, o rio e os seres bizarros. Ela falava sobre visagens e sobre a cobra Sofia, uma cobra gigante que engoliria uma ilha que ficava ali por perto, caso a estátua de São José fosse arrancada de onde estava. E a estátua estava fincada no chão do rio, sobre uma pilastra, ao lado do trapiche que ficava na beira do rio.

Maré alta, maré baixa, todo mundo conseguia ver São José. E quando a maré estava baixa, tão baixa que se podia andar naquele chão, garotos se juntavam para jogar o que eles chamavam de futelama. Havia pedaços de madeira cravados no solo que faziam as vezes de traves, e todo mundo que jogava, saía de lá coberto da lama meio marrom, meio cinza.

Naquela cidade, a menina morou duas vezes no mesmo cortiço, e o cortiço ficava perto da catedral, e atrás dessa catedral, havia um prédio enorme que fora muito anos atrás um hospital psiquiátrico, e depois uma escola. Ele estava fechado e era administrado pela Igreja. Seu irmão, arteiro que era, uma vez entrou lá pra explorar o que meninos de doze anos exploram. Entrou não sabia como, junto com um vizinho, e fazendo barulhos lá dentro entre carteiras velhas, acabou chamando a atenção do padre. "Quem está aí? Não gosto de assombrações!". Ele saíra de lá depois de assustar o pobre pároco.

Juntavam-se em bando, sob a luz do poste que ficava no meio-fio daquela travessa, para conversar e brincar com toda a molecada que circundava o lugar. "Ô, Giiiilson!!!", chamava a mãe de um deles, e logo todas as mães berravam em coro, porque já estava na hora ir pra casa.

Ali também, havia uma casa de dois pisos, que estava em construção eterna, com uma montanha de areia na sua frente. Durante a semana, a menina e seus vizinhos pulavam e rolavam sobre aquela areia como cachorros que gostam de deixar seu cheiro nos lugares por onde passam. Nos fins de semana, com a construção fechada, pegavam enormes caixas de papelão e levavam para dentro da casa. Instalavam-se nelas e faziam de conta que estavam em uma nave espacial ou em um avião. As conversas eram de "gente grande", porque pilotar uma nave não era coisa pra crianças.

Ali, naquele monte de areia, não havia só areia, e também não havia só cocô de cachorro. Havia tábuas, com pregos virados para cima, e num deles, no meio da brincadeira, a menina fincou-lhe o pé. Aiii, o prego entrou inteiro, bem ao lado do dedão! Atravessou o chinelo de borracha, e daí só se via dor, sangue e areia; aquela sujeira típica de machucados infantis. Naquela ocasião não precisou de pontos, mas a anti-tetânica foi indispensável; o prego estava enferrujado, claro.

Naquela cidade estupidamente quente, em épocas de chuva, apareciam baratas cascudas, mas não eram simples baratas. Eram baratas do tamanho de mãos adultas, com cascos que pisados, não eram destroçados como os das baratinhas domésticas que se vêem por aí. Pior de tudo é que elas voavam... Pior ainda é que elas surgiam aos montes. Quando a menina acordava de manhã para ir para a escola, no caminho via duas grandes variedades de coisas pelo chão. Mangas e caroços de mangas, porque lá havia inúmeras mangueiras, e as baratas. Podiam ser varridas, pisadas. Tinha-se que escolher onde pisar, porque elas estavam por toda a parte; e mortas. A menina nunca soube porque elas amanheciam mortas, mas era assim que amanheciam. À noite voavam, picavam, aterrorizavam-na e, de manhã, estavam mortas. Eram como um pesadelo de verdade, que durante o dia podia ser visto, mas não fazia mal a ninguém.

E não é porque só fazia parte da imaginação dela, que não poderia lhe fazer mal, ou bem.