quinta-feira, 16 de junho de 2011

Ático

Subi lá em cima - pleonástico eu sei, mas é que não subi um ou dois andares, subi até láááá em cima, no topo.

Eu subi, e não tinha qualquer intenção de fazer besteira. Trabalhava naquele prédio, já havia cinco anos. Cinco anos indo quase todos os dias até o sétimo andar. Pegando o elevador com aquelas pessoas. Nunca simpatizei com nenhuma delas, mas dividíamos quase todos os dias a caixa claustrofóbica. Eu não ligo pra elevadores, já fiquei preso em alguns. Não dá tempo nem de peidar e o peido feder, porque o socorro sempre vem rápido.

Eu cheguei lá em cima depois de achar por alguns segundos que isso não aconteceria nunca. Quando você está acostumado a descer sempre no mesmo andar, e entra no elevador pra descer em um andar mais alto, parece que você não chega nunca.

Mas eu cheguei. Subi mais um lance de escadas até o ático. O vento batia forte, muito forte. O vento seco gelava meu rosto e me fazia sentir vontade de sair voando. Fui em direção ao parapeito, encostei nele e olhei pra baixo. Vinte e um andares de empresas, de pessoas, de insatisfação e de gente que se faz de louca. O ambiente de trabalho é sempre uma merda.

Olhei pra baixo e vi umas "formigas". Quis dar uma puta escarrada pra ver onde ia parar. Ninguém iria descobrir, mesmo assim confesso que esse clima de empresa, firma, serviço sempre me passou a impressão de que ainda estamos na escola, e que sempre vai haver dois tipos de filhos da puta querendo te foder: um superior pra te chamar a atenção e um "colega" pra te dedurar por qualquer coisa ou fazer fofoquinha.

Não sou sádico nem nada, mas só quem trabalha nesses lugares sabe o que é pensar em ir armado para a "companhia".

Que merda, acho que pior do que ter alguém mala é ter alguém que tem o desplante de se levantar da sua cadeira, ir até o banheiro e voltar de lá fedendo a desodorante barato. Fora o cheiro de desinfetante atalcado que emana do banheiro feminino.

Mas lá no ático, eu não era obrigado a passar por essas provações diárias. Eu, homem equilibrado, benquisto por todos, com o salário razoável e concernente com a função, olhei lá pra baixo de novo, repousei os braços no parapeito e a cabeça nos braços. Depois de mais um dia em que quase não tive tempo pra nada, depois de mais um dia repleto de atribuições, encheções e complicações, eu vi que mesmo tão cheio, meu dia era apenas vazio, vazio em toda a sua porra de rotina.

Eu chorei então. Chorei, solucei, sequei a salmoura das lágrimas na minha gravata. Chorei mais um pouco. Mentira, chorei tanto que nem o vento seco conseguia dar conta. Chorei compulsivamente.

Fiquei com a cara inchada, o nariz entupido. Então aproveitei e dei a escarrada que queria. Ela subiu quente e salgada pela minha goela. Me recompus e voltei ao sétimo andar.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

sonhos da semana

Sonhei que não ia ao trabalho duas vezes no mesmo dia, pois eu dormia, e quando o despertador tocava meu expediente já estava pela metade, então não podia chegar tão atrasada. Por isso, precisava de um atestado médico pra apresentar na agência, e pensei em dizer que estava com diarreia. Até me via mentindo para o médico em seu consultório.
Em algum momento do sonho, eu morava em uma casa com um chão de madeira apodrecida, no qual eu pisava e ele ia afundando.
Em outro momento, havia um homem, com uma cara de estivador pesada! Ele tinha barba e parecia mal encarado. Ficava atrás de um balcão pra atender alguém, não sei no quê. Mas atrás desse homem e desse balcão havia o mar, e o mar batia nele, de uma maneira calma, com uma água verde e corrente. De repente a água parava, e havia peixes mortos de vários tamanhos, e agora a água parecia suja e fétida. No meio dos peixes que boiavam, havia um enorme e feio, e depois eu via uma mulher morta, tinha umas feições meio indígenas. Me assustava e saia correndo e gritando.
Hoje, novamente sonhei com o chão de madeira podre. Eu morava em uma casa toda de madeira, e o assoalho parecia firme, mas andando pra lá e pra cá, eu percebia que uma parte dele estava mole. Uma mulher gorda e simpática, com cabelos encaracolados e mãe de meninas gêmeas que estava por lá, vinha em minha direção com um toco, para cutucar o chão. Mexendo nele, ela conseguiu puxar a madeira velha. Era um pedaço grosso, com o seu meio amarelado, e eu olhava pr'aquilo com certo nojo.
Esses sonhos recorrentes com água e madeira... Fico pensando o que querem me dizer...
Em outro pedaço do sonho, eu estava sentada no chão, encostada na parede de algum lugar, com um grupo de amigos que de fato conheço. Ao meu lado, estava sentado um colega, o qual eu carinhosamente afagava sua cabeça, e sentia seus cabelos finos em minhas mãos. Recostado em mim, eu sentia um calor aconchegante, era quase um flerte.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Conversa de namorados

- Tudo pronto?
- Tudo.
- Eu pego você aí?
- Tanto faz. Se você quiser, eu posso te pegar.
- Não sei se fica bem... Apesar de que mais tarde nos pegaremos de todos os jeitos possíveis...
- Você não presta, né? E por que não fica bem? Por acaso tem algo de errado nisso, em você me pegar?
- Não, nada de errado, mas é que da última vez, você sabe... Fiquei um pouco constrangido com o que aconteceu...
- Bobagem! Isso acontece nas melhores famílias...
- Na minha nunca tinha acontecido. Será um sinal?
- Sinal de quê? De chuva? Tá frio, mas acho que não chove mais hoje.
- Sei lá... Você entendeu... Pode ser um sinal de que as coisas estão indo rápido demais...
- Rápido demais? Ainda acho que isso não é um sinal de chuva...
- Não falo da chuva. Falo da gente.
- Ah, a gente... Não tinha pensado nisso... Sabe no que eu pensei hoje?
- Em quê?
- Pensei em matar.
- Em se matar??? Oh, meu Deus, não diga isso nem de brincadeira!
- Mas eu não disse me matar, eu disse que pensei EM matar. Você não acha que algumas pessoas deveriam morrer?
- Ah tá... Sim, acho que algumas delas... Mas por que isso agora?
- Sei lá, me ocorreu... Uma coisa meio lei da selva, sabe?
- Sei... Mas acho que estávamos falando sobre nós...
- Ah, claro! Desculpa.
- Tudo bem. Você acha que eu deveria levar meu casaco marrom?
- Aquele bem grosso? Sim, acho. O frio está mesmo implacável, não?
- Até que agora à noite, sinto que está mais quente do que estava mais cedo.
- Não sei. Não saí à rua hoje, mas como aqui dentro é sempre gelado...
- Você está distante...
- Sim, estou distante de você, meu amor. Mas nada que dez minutos de carro não resolvam.
- Eu moro há mais de dez minutos de carro da sua casa.
- Eu sei. Mas em dez minutos dentro do carro podemos ficar tão "unidos"...
- Hehehe. Você é pior do que eu pensava...
- Pior? Pensei que você gostasse disso. Que todos gostassem.
- Eu gosto, e você consegue ser ainda mais surpreendente no frio.
- Claro, meu amor! Não deixemos cair na rotina o que o mal começou...
- Mal começou ou começou mal?
- Já disse que essas coisas acontecem. Relaxa que eu vou cuidar de você.
- Vai mesmo?
- Melhor do que qualquer mulher já cuidou antes.
- Assim me sinto mais seguro...
- E você deve se sentir assim mesmo. Segurança é tudo em um relacionamento. Escuta, eu te pego!
- Ok. Estou te esperando então.
- Beijos!
- Beijos, te amo.
- Tchau.

Carreguei minha arma, coloquei-a no bolso do casaco e fui buscar meu amado. Eu vou cuidar dele, como nenhuma mulher cuidou antes.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

M & M

Dia dois de junho fará um ano que eles surgiram nas nossas vidas, no nosso pequeno apartamento. Queria que a Ana tivesse novamente o prazer da companhia de um bichinho de estimação, então entrei num site de adoção de animais, e foi lá que a vi pela primeira vez. Era rajada, um filhotinho, e chamava-se Fronha. Achei o nome uma graça, e ela tinha aqueles olhos enormes e o jeito serelepe que os pequenos sempre têm. Um mês de idade. Foi o primeiro filhote que vi na página e foi o que de imediato me chamou a atenção.

Mesmo assim, quis olhar os demais. Logo embaixo da sua foto, havia a de outro . Ele era pretinho, pequenino como ela, e chamava-se Espirro. Vendo mais fotos, vi que apareciam juntos. Eram da mesma ninhada, daí pensei que se fossem dois, um haveria de fazer companhia ao outro, e por isso, nunca estariam sozinhos.

Estava decidido. Adotaria os irmãos. Liguei para a moça que os acolhera e ela me contou a história deles. Disse que uma pessoa havia ligado para ela, avisando que se ela não ficasse com a ninhada, mataria todos. Ela apiedou-se dos pequenos e os acolheu.

Me disse todas as coisas que se diz para uma "mãe de primeira viagem", e ficou especialmente preocupada quando eu disse que morava em um apartamento sem redes de proteção. Deu o telefone e o endereço de uma clínica que os castraria por um preço camarada, e me deixou ciente de toda a responsabilidade que envolvia a adoção dos animaizinhos.

Eu consenti com tudo, disse que providenciaria as redes, que os levaria ao veterinário e que cuidaria deles com carinho.

No outro dia, à noite, ela chegou com eles. Vinham dentro de uma cestinha de vime e cheiravam a carro novo, por causa do banho a seco que haviam tomado. Eram tão pequenos que cabiam cada um em uma mão.

Assinei um termo, ouvi suas últimas recomendações, e naquele dia mesmo já tinha me preparado para recebê-los, comprando caixa de areia, areia, ração para filhotes, toca e tudo o mais.

Pronto, agora tínhamos um casal de gatinhos.



Eles eram graciosos, e a Ana caiu de amores pelos dois imediatamente, até o Bruno que não era muito de bichos, gostou deles.

Mostrei a eles a caixa de areia, com a qual tiveram instantânea identificação. Coisa de gato. E a primeira surpresa veio pela manhã. Quando acordamos, havia patinhas de cocô no sofá e em cima do meu notebook. Já batiazaram a casa e a caixa de areia com uma tremenda diarreia, resultado da troca de ração. Mas isso era de se esperar...

Decidido, então, que enquanto seus pequenos intestinos não estivessem acostumados à nova comida, eles domiriam na área de serviço para evitar maiores surpresas pela casa.

No terceiro dia, levamos os pequenos para que fossem esterelizados. Foram dentro de uma sacola de praia, sem grandes protestos. Entregamos as criaturinhas para o veterinário sob o olhar de "oh, eles são tão pequenos!" da secretária. Em menos de meia hora, estavam de volta na sacola, inconscientes, moles e com as linguinhas para fora, para evitar que sufocassem. Disse o veterinário que não deveríamos alimentá-los até o outro dia, e que dentro de algumas horas eles acordariam.

Fomos para casa, e os colocamos dentro da toca. Lá, eles ficaram, até o momento em que, como pequenos gatos zumbis, foram acordando. Arrastavam-se e tombavam. Caídos ficavam, até tentarem se levantar novamente, com enorme dificuldade e muitos tremiliques. Assistimos àquilo num misto de pena - por eles - com muito escárnio. Era muito engraçado vê-los daqueles jeito, como que embriagados. Até vídeos temos, para a posteridade.

No dia seguinte, já pulavam e sassaricavam pela casa, como se não tivessem pontinhos de nylon nos seus corpinhos frágeis.

Logo as redes foram instaladas em todas as janelas, e eles já estavam habituados à nova vida.

Esqueci de dizer que os re-batizamos. Chamavam-se, agora, Marte e Marta.

Como todos os gatos, eles só atendem pelo nome quando lhes convêm, ou seja, quase nunca.

O Marte, na verdade, tinha um nome muito adequado à sua condição - Espirro -, visto que eu acredito que ele seja um gato asmático, com desvio de septo ou algo do gênero! Pois vejam vocês que o animal dorme de língua pra fora, com a boca meio aberta, e volta e meia espirra. Deve ser alergia aos pelos!

Cada um tem suas peculiaridades, e elas já vinham me pedindo que escrevesse a respeito, há algum tempo.

Os dois têm uma tara por Halls, sim, aquele do "alívio refrescante". Eu tenho os pacotinhos sempre comigo, e eles não podem vê-los, que abocanham os ditos e saem brincando com eles pela casa. Várias vezes já acordei e me deparei com vários drops jogados  pelo chão da sala. As embalagens estão sempre cheias de furos de dentes. Eles são tão caras de pau que chegam a fuçar a minha bolsa para roubá-los.

Outra coisa curiosa é o fetiche que a Marta tem pela estátua de São Francisco de Assis, de cerâmica, que tenho no hall de entrada do meu apartamento. Sempre que a porta está aberta, ela vai lá, se esfrega generosamente no santo e o lambe. Lambe como se ele fosse feito de peixe, lambe com devoção! Nunca vou entender o porquê disso...

Seu irmão também tem algumas preferências exóticas: adora "comer" cotonetes. Não que eles os coma de fato, nada disso, mas adora arrancar o algodão das pontas da haste e brincar com ela até que a enfie embaixo de algum móvel inacessível. Se ele vê o copinho onde eu guardo os cotonetes, com prazer, vai lá e pega um com a boca e, se pudesse, destroçaria uma caixa inteira deles! A Marta, por sua vez, é uma gata que faz neve com o papel higiênico do banheiro. Sim, neve! Produzida por suas garrinhas afiadas  e seus dentinhos pontiagudos. Porta do banheiro aberta é sinônimo de espetáculo natalino aqui em casa!

E eu fico quase louca!

Porque, é claro, além dessas peripécias, eles já aprontaram muitas outras! Louças quebradas, papéis roídos - eles são como cabras -, bolas de pelo pela casa, meu sofá e as quinas das camas, que são box, destruídos! Se tenho vontade de jogá-los pela janela pelo menos três vezes por semana? Oh, sim, tenho muita!

Mas assim como eles são umas pragas, são também extremamente amorosos, e não é só por interesse!

A Marta já enfiou as unhas nas minhas costas a ponto de sangrar feio. O Marte já meteu as unhas no meu seio e pescoço de um jeito que fiquei com as cicatrizes dos pequenos buracos, e a última dele fez com que parecesse que eu era uma viciada em drogas injetáveis, pois ele enfiou a garrinha bem na junção do meu braço com o antebraço. Mas ok, coisas da vida.

A Ana também, volta e meia, é vítima de uma brincadeira selvagem deles, com direito a unhas e dentinhos, mas nada grave.

A compensação para a selvageria dos felinos vem em forma de amor ronronante, de olhares compreensivos de dois gatinhos que se esfregam na gente, deitam sobre o nosso peito, aninham-se na nossa barriga, esfregam suas cabecinhas no nosso rosto incansavelmente; esfregam todo o seu corpinho peludo contra o nosso, e se a gente permitir, esfregam, carinhosamente, até suas "bundinhas peludas" na nossa cara!

Eles são inteligentes, sacanas a adoram aprontar. Quando sabem que fizeram algo errado, saem derrapando de tanto que correm. Sua lutas e brincadeiras são uma atração à parte! Nem preciso dizer que a Marta quase sempre leva a pior e que, às vezes, eu preciso apartá-los. Eles não são muito de miar, mas se comunicam que é uma beleza. Estão quase sempre juntos, e quando não estão, um mia para chamar o outro. Um dá banho no outro, coisa, aliás, que fazem frequentemente. Dormem juntos e comem juntos e, obviamente, quando pode, o Marte rouba a comida da Marta, coisa de gordo.

São abusados e, se eu deixar, viram senhores da minha cama. Mas já andei cortando as asinhas deles...



Esses animais são um espetáculo! Destroem a casa durante a noite, se matam brincando na sala, mas todos os dias, quando eu abro a porta do meu quarto, eles estão ali, esperando... Por comida é claro!

Sempre ficam no banheiro comigo enquanto eu tomo banho. Deitam sobre o tapete em frente ao box, e depois que eu saio, recebo da Marta lambidas nas pernas. Depois disso, eles entram no box, tomam a água quente que vai se esvaindo pelo ralo e procuram atentamente por mosquitinhos, para exercitarem seu lado predador.

Apesar de terem uma pancinha dependurada, em virtude de serem esterelizados, e apesar de o Marte ser um gato obeso com cara de deboche, eles mandam ver nas baratas que de vez em quando aparecem por aqui. A Marta, com seu porte mais delgado, e com a barriga mais cuti cuti que Deus já fez pra um gato, também é uma boa caçadora de insetos.

Aliás, a Martinha é uma gatinha doente. Ela tem leucemia, doença que eu não fazia ideia que poderia acometer felinos até descobrir que ela tinha essa tal coisa. Ficou sem comer, sem tomar água... - me lembrem que eles também têm fetiche pela água da privada, não para beber, mas adoram enfiar as patas lá dentro e sair pela casa fazendo arte molhada! - Achei que fosse perdê-la.

Em dois dias, ela estava anêmica. Foi internada, fez transfusão de sangue e tudo! Exames, comida especial. Chegou na clínica totalmente caidinha. Depois de ter um sanguinho novo no corpo, estava histérica! Quando viu a mim e à Ana, miava pedindo para que lhe tirassem daquele lugar.

Depois de dois dias fora de casa, depois de eu ter ficado mais de 700 reais mais pobre, depois de ter ido chorando para o trabalho, e de ver minha filha chorando compulsivamente, achando que a gatinha mais amiga dela, aquela que tanto a amava e demonstrava todo esse amor repousando calmamente sobre ela todas as vezes que ela assim queria, depois de achar que a criaturinha não resistiria, ela se recuperou. É certo que não sabemos por quanto tempo ela se manterá bem, mas faz quase três meses que ela está serelepe quebrando tudo por aqui com seu irmão meliante e dentuço.

Ia me esquecendo de contar que o Marte tem um fraco por bebidas alcoólicas. Ele toma cerveja, e eu não descobri isso oferecendo a ele, não. Foi pura casualidade. Lata aberta numa reunião de amigos por aqui, e lá foi o gato ver o que tinha na dentro. Adorou o líquido que ficava nas bordinhas... Ia atrás de outras para beber mais. Até queria vê-lo bêbado, mas poderia ser letal, então melhor não levá-lo para o mau caminho...

A última dos irmãos foi essa semana. Cedo, a Ana me acorda dizendo que há penas pela sala e cozinha. Abro a porta, vejo penas pretas, pluminhas... Muitas delas... Não tenho nada com penas em casa... Então imagino que tenham "brincado" com um passarinho... Mas não vejo passarinho algum. Temos que sair. Trabalho, escola, compromissos. A casa fica como está. À  noite, o Marte dá a deixa, deitando no chão e enfiando a pata o máximo que pode embaixo de um móvel da sala. Quando eu chamo a atenção dele ele, no susto, tira a patinha, e junto com ela vem mais um pluminha, e eu penso: "Puta que pariu, achei o passarinho!". E não deu outra.

Puxei o móvel, e lá estava ele, pequeno, duro, meio depenado... Mistério resolvido. Embaixo do móvel também estavam umas quatro ou cinco embalagens de Halls... A brincadeira acaba para eles quando enfiam os "brinquedos" em lugares que suas patinhas não alcançam...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Nel Mezzo del Camim

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.


Olavo Bilac


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Solidão

Pensei na praia, na forte claridade; o céu azul, o vento fresco que vinha como um pequeno sussurro... Deitada na areia, com o chapéu sobre o meu rosto, sentia os minúsculos grãos dando leves batidinhas contra minha pele. Pelas frestas da palha, conseguia vê-la brincando no riozinho que passava em frente a mim.
O silêncio do mar é inebriante.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O tema preferido

A morte sempre foi uma inspiração à minha escrita. Falar sobre ela, sobre o apodrecimento da matéria é algo que me excita e, ao mesmo tempo, me mostra como somos frágeis diante de qualquer coisa.
Nosso corpo funciona magnificamente, até que ele padece. Basta cair de mau jeito e bater a cabeça, pronto, você pode ter um traumatismo craniano e sangrar até morrer. Se você tiver uma diarreia ou uma gripe muito forte e não se cuidar, pode acabar morrendo.
Somos tão frágeis quanto formigas. A qualquer momento podemos ser esmagados pela vida, pelo tempo, pelas nossas atitudes e escolhas.
Particularmente, gosto das mortes brutas. A ânsia ao ver um corpo transformado numa massa sangrenta é algo repulsivo, mas que traz enorme reflexão e vazio. Corpos mutilados, estripados, aniquilados, degolados mostram que não somos nada.
Por muito tempo tive um sonho repetitivo em que duas moças eram atropeladas por um carro e seus corpos não eram mais do que um amontoado de carne grudada ao asfalto. Via com detalhes as formas asquerosas de seus órgãos estourados , a carne vermelha; cabeças esmagadas, olhos saltados, cabelos junto a secreções e ossos esmigalhados. Perdi a conta de quantas vezes as vi. Havia repulsa, mas havia algo maior que eu não saberia descrever, mas que a morte delas queria me mostrar.

Depois desse sonho, tive um outro, igualmente incômodo, mas que envolvia muito mais gente. Sonhava que estava às voltas do hospital da cidade onde cresci, e quando lá entrava, nossa! Era como um açougue, pois havia corpos por todos os lados, que haviam sofrido as mais diversas dores. Havia sangue pelo chão, enfermeiros que pareciam não ligar para a situação, e os corpos amontoados em salas esparsas que eu podia ver, andando pelos corredores do lugar.
Sinto angústia por sonhar com isso, mas não tenho medo. Estão mortos. Apesar disso, quando via que o sonho ia se encaminhar novamente para o hospital que eu já vira outras vezes, me indagava por que estava sonhando com aquilo de novo. Não tenho respostas.
Às vezes me imagino morta da forma mais aterradora que eu possa... Tenho a impressão de que uma morte estúpida e grosseira é muito mais real do que aquela que acontece num leito de hospital. Pra ela ser de verdade, os bombeiros têm que catar você do asfalto com a ajuda de uma pá, e reclamar um pro outro: “Odeio meu trabalho”.
Morrer faz sujeira, pois somos imundos por dentro, somos apenas um monte de excremento ambulante, até que viremos novamente excremento embaixo da terra, ou de uma carro, ou de uma ponte.
Morrer parece ser um alívio tão grande... Mas só os torpes conseguem, só os covardes conseguem a morte gloriosa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"Sagacidade aristofânica:

o prazer não é o que atrai os amantes, mas aquilo que permite que, saciados, possam separar-se! O prazer não é um fim como meta, um fim teleológico da atividade amorosa. O prazer é um fim como extremo, que consuma e encerra o movimento do desejo, é o fim escatológico do desejo. De modo que não é o gozo o que determina o amor, mas apenas o que permite a calma desse ardor e assim tempera os ânimos da natureza humana. Assim, o amor portador do gozo é o que lhe cura a indigência da cisão primordial e ao mesmo tempo o que permite uma vida harmoniosa a cada uma das caras-metades humanas."



Em Arqueologia dos Prazeres, de Fernando Santoro

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Sobre ser mãe

Ter um filho é algo que muda as perspectivas da nossa vida. É bom? Sim. É mágico? Muito. Se eu teria outro filho? Não. Não, porque um filho envolve muito mais do que a visão de um pequeno e indefeso ser com cheirinho gostoso. Um filho envolve muito mais do que as condições necessárias para criá-lo; um filho envolve muito mais do que o desejo de ser mãe, muito mais do que desafiar a sua sanidade mental e colocar o controle da sua vida fora de você mesmo.

Imagine você, senhora da sua vida e do seu destino; agora, imagine-se com um filho. Pronto, você não tem mais controle, sua vida não é mais sua, sua vida agora é duas; a sua e a dele, sendo que sem ele, você não vive mais, não plenamente, não como antes, e um dia você não poderá mais dizer a ele o que fazer e como fazer. O filho vai viver a vida dele, e pode até se desligar de você, mas você... Você estará para sempre ligado a ele.

Durante nove meses eu fui o abrigo seguro e aconchegante que nutriu uma menina e fez com que ela se desenvolvesse perfeitamente. O que eu ganhei? Além dos seios caídos, das estrias por toda a parte e da barriga murcha e vazia, ganhei um título: o de mãe. Sonhava com ele só quando era criança, quando ter um bebê parecia encantador, parecia a mais nobre de todas as funções que uma mulher poderia ter.

Filhos são para a vida toda, mesmo quando se vão, mesmo quando somem, mesmo quando morrem.

Crianças demandam atenção, tempo, amor, disciplina, educação, afeto, colo, conforto, paciência, disposição; filhos exigem tesão! Tesão para acordar de três em três horas, e ouvir o choro da fome que não consegue ser expressado de outra forma, por enquanto. Tesão para parecer que você está de mudança cada vez que sai de casa carregando uma sacola enorme com fraldas, pomadas, lenços, paninhos, mudas de roupa, mamadeiras e chupetas, fora os brinquedinhos, ah, os brinquedinhos que acalmam...

Você tem que ter muito tesão para lavar as roupas de um bebezinho à mão, dar banhinhos gostosos, ninar, levar ao médico e quase morrer de dor no coração quando percebe que ele chora e que você já fez de tudo para que ele parasse, e ele não para, mas ele também não consegue dizer o que está errado, e depois de algumas horas de desespero ele cede, dorme nos seus braços de maneira angelical, e é só então que você consegue descansar.

Você tem que ser sábia e uma sábia com muito tesão para aprender a decifrar o pequeno ser, cheio de segredos, os quais você vai passar vida inteira tentando descobrir, sofrendo para descobrir, achando, com toda a sua arrogância de mãe, que já sabe de tudo. A gente sabe sim, mas é longe de ser tudo.

Nunca conseguiremos passar da porta da morada de nossos filhos, pois eles são muito mais do que nossa extensão, eles são o que são, são eles mesmos.

Minha filha me trouxe uma nova dimensão de vida, mesmo que eu não me dê conta disso muitas vezes. Ela ma traz todo o tipo de alegria; das únicas, como aprender a andar e a comer sozinha, até as mais prosaicas, como os desenhos lindos, o amor aos bichinhos, as risadas, os dentes que caem, e ainda há tantos por cair...

Minha filha ainda me deixará acordada durante a noite, morrendo de preocupação sem saber se ela está bem enquanto sai com os amigos; ela ainda vai me deixar de cabelos em pé pela rebeldia da adolescência; ainda vai me dar alegrias pelas suas conquistas, e vai chorar no meu colo pelas desilusões da vida que serão novidade para ela...

Pois ter um filho envolve muito mais do que ter alguém sob a sua égide, envolve você. E eu sou egoísta, sim, eu sou. Ter uma filha mudou tudo, mudou a minha vida, o meu corpo, o meu jeito de pensar e de agir, mudou os meus planos e minhas prioridades.

Não sou mais a mulher que era, porque hoje eu sou mãe. Antes dos meus desejos, eu sou mãe; antes de sair de casa, eu sou mãe, e preciso de alguém que tome conta da minha filha; antes de ser mulher, eu sou mãe, meu corpo não é como antes; sou mãe e sou imperfeita, sou mãe e não me sinto desejada, sou mãe.

No ventre, a cicatriz me diz que eu vivo fora de mim, o corpo flácido me diz todos os dias que eu sou mãe, mas ora ou outra ainda me surpreendo ao ouvi-la dizer a palavra “mãe”, sou eu. A mãe impaciente, brava, que acorda no meio da noite com o grito de desespero da menina que clama por ela, quando de súbito acordou e vomitou por todo o quarto. Eu sou a mãe, que orgulhosa, chora nas apresentações do colégio. Eu sou a mãe que, ouve contrariada, as reclamações que ela faz sobre mim. Eu sou a mãe que quer dormir até mais tarde nos finais de semana e espera não ser incomodada pelo seu pequeno “eu” que exige atenção aos seus novos feitos.

Eu sou a mãe que quer desistir de tudo às vezes, e que quando se sente muito sozinha, só tem vontade de abraçar, chorar e soluçar agarrada à pequena menina, que parece mais adulta do que eu mesma.

Eu sou a mãe que morre de medo de perdê-la e que jamais se perdoaria se alguma coisa ruim lhe acontecesse.

Ter um filho é viver um sem número de emoções boas e ruins, é ter vontade de colocá-lo de vez em quando no guarda-roupas e esquecê-lo lá por uma semana; ter um filho é sonhar com ele de saudade, é sentir o silêncio corroendo a casa vazia; é querer que eles não cresçam nunca, mas que cresçam logo.

Ter um filho é muito mais do que quem não tem um filho possa imaginar. E é por serem tão especiais que não devemos tê-los assim, a torto e a direito, de qualquer jeito, só para nos perpetuarmos, devemos tê-los conscientes de que nunca mais teremos paz, e de que da felicidade deles, depende a nossa.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Nove anos

Não tardou a vir o peso na alma, porque hoje faz nove anos; faz nove anos que eu não sei dele, faz nove anos que ele resolveu desequilibrar as nossas vidas para tentar encontrar paz na dele. No caminho do cemitério Ana me disse: “Mãe, acho que teu pai deve estar orgulhoso de ti”, e eu disse: “Será? Será que ele tem alguma razão para isso? Será que ele sequer consegue pensar em ter orgulho de alguém?”, eu pensei.


Lembrei que quatro anos atrás, eu estava realmente de saco cheio da minha vida, e dos meus problemas, e num dia frio, muito frio e com chuva torrencial, eu resolvi ir até o cemitério brigar com ele. A pé, andando desarvorada, eu ia chorando, e quando cheguei lá, coloquei toda a minha revolta para fora, porque ele não poderia sumir assim, não para sempre, não sem me dizer pelo menos que alguma vez na vida dele ele se importou.

Eu ouvi um pouco mais dos dois lados da história, e o problema é que nenhum deles me favorece, nenhum deles me faz sentir mais sossegada diante da vida, e espero que essa covardia toda que eu vi, tanto dele quando dela, não me faça seguir seus passos de fuga. Não quero fugir da vida como eles, mesmo que me dê enorme vontade de fazê-lo às vezes, é preciso que eu pense em uma pequena criatura que descia pulando o largo parapeito do cemitério sem pensar ainda no que é a morte.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O cavalo morto

Ele estava entre as duas pistas de asfalto, numa larga faixa de terra batida, alaranjada. Havia poças de lama e muito lixo espalhado. Ali estava o cavalo morto - um pobre pangaré, daqueles que trabalham à exaustão puxando uma carroça - caído de lado, teso como se fosse um boneco, um boneco podre. À sua volta, ao longo dos dias, ia se formando um lodo de chorume que se soltava da carne que ia estragando e estragando. O animal inchado como um balão, tinha coberto o corpo de larvas de moscas, que depositavam ali seu pequeno legado de imundície. O pelo marrom já era ralo, e tinha a língua para fora, empretecida. O cheiro de carniça me fazia imaginar como estavam as tripas do bicho naquele instante, se é que ainda havia tripas, se é que o corpo morto não tinha se autodigerido para no fim de todo o processo virar nada. Eu vi sua cara vidrada, os olhos sem brilho, opacos, os dentes amarelados e a gengiva apodrecida. Parecia ter morrido de susto, e qual seria o susto de se ver morrer e jazer na rua? Como indigente a céu aberto, carne podre para ser cuspida, o cheiro da morte vermelha.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A morte

Morreu. Ninguém sabe para onde pode ter ido, se céu, inferno ou algo que o valha. Mas foi, foi assim de repente. Num dia estava bem, bebendo com os amigos depois do trabalho, no outro dia, nem acordou, ou “acordou morto”, muito chato.
No funeral os mais próximos choravam, questionavam a brevidade da vida, sem perceber que eles, figurinhas com data de validade expirada, já deveriam ter dado adeus à existência se a vida fosse tão breve quanto diziam.

Uns choravam mais e outros só se faziam presentes por gentileza. Quem não conhece o morto pode até achar meio exagerado o misto de lágrimas e auto-piedade que surgem nos velórios, enterros e afins. Assim é a vida, não? E olhando bem o sujeito no caixão, não parecia mesmo alguém muito notável, que vá fazer falta, pelo menos para mim – assim pensa quem não conhecia o que já partiu.

Morreu. E daí que deixou contas, que fez prestações, que tinha o nome sujo? E daí que traiu, embebedou-se, mentiu e adoeceu? E daí que sofreu, amou sem medida e fez mais inimigos do que amigos? E daí que atropelou um animalzinho logo que tirou a carta de motorista, e que por isso não conseguiu dormir durante dias? E daí que até o dia de sua morte, ainda não achava justa a surra que o pai lhe dera na adolescência? E daí que não se conformara com o grande amor perdido anos antes, ou que fumou mais baseados do que deveria ter fumado?

E daí que não plantou uma árvore, não escreveu um livro e não teve nenhum filho? – pelo menos até onde era de seu conhecimento.

Morreu. Nada mais importava. A promoção do emprego, a consulta médica marcada, a final do campeonato, a comida dos peixes, a visita aos pais... Tudo planejado, tudo certo. Nada importava.

As roupas na lavanderia, o novo tênis de corrida, a troca das pastilhas de freio, a grande viagem de aniversário, os filmes para devolver à locadora... Tudo por fazer. Nada importava.

As guerras pelo mundo, as catástrofes naturais, os animais em extinção, a nanotecnologia e a existência de Deus... A oposição ou o partido de situação? Tudo por refletir, agir, entender, mudar. Nada importava.

As pazes com os desafetos, as palavras de ira, de alento, de amor e desabafo que deveria dizer a tantas pessoas... Perderam-se no corpo que feneceu, falhou, encerrou atividades e deixou tudo bagunçado.

Um morto não deixa só saudades e tristeza para quem fica. O morto também deixa medos, remorso, pavor de que você tenha seu pézinho puxado na madrugada fria por aquele fantasma que agora que morreu, sabe tudo o que você pensava sobre ele. Pior! Sabe tudo o que você fez para ele! Caso de vingança póstuma na certa!

Pessoas mortas também deixam dívidas e dúvidas, sim, porque a pessoa morre, mas a dívida permanece, portanto pense duas vezes no discurso suicida “estou fazendo isso pela minha família”, porque a sua família pode ter que pagar as suas contas, e isso não é legal. Dúvidas, porque se quando a pessoa morreu vocês estavam brigados, você nunca saberá se aquela pessoa te odiava de verdade ou só da boca para fora, mas agora isso não importa porque você reza para elas todos os dias antes de dormir, e assim, tenta se redimir de alguma maneira.

A morte não é só uma passagem transcendental para debaixo da terra ou para outra dimensão, isso no caso do morto; a morte é também mudança profunda, ou nem tanto, para quem aqui permanece, e nem precisa ser de alguém que conhecia efetivamente o falecido.

Se o falecido era funcionário público, por exemplo, e uma pessoa bem viva e concurseira já estava rezando pela morte de alguém do setor em que ela deveria ser chamada pra trabalhar... Bingo! Essa pessoa se beneficia da morte. Mudança profunda na vida dela, porque o concurso estava em vias de expirar, e agora ela pode respirar aliviada porque mamar nas tetas do governo e ainda ter plano de saúde é muita sorte!

Pode ser também uma herança, o que não subentende apenas dinheiro, que pode trazer boas mudanças profundas, ou boas dores de cabeça judiciais tão profundas quanto o oceano. Quando morre alguém dentro da nossa casa, se é alguém realmente muito próximo, queremos ficar com tudo o que era dela, mas depois a gente percebe que a quinquilharia toda começa a cheirar à morte, daí ninguém mais quer nada, excetuando-se jóias, dólares, quadros e arte, em geral, de valor significativo no mercado.

A pessoa que morre, não pode cobrar mais nada, de mais ninguém. Nem satisfação, nem discrição, nem amizade, nem dívidas, nem amor, nem respeito. Acabou para ela. Fim da linha. C’est fini. Não importa quanto tempo ela tenha passado no leito de um hospital, naquele “vai não vai” para o além, porque quando ela vai de fato, nossa! É chocante, arrepiante, tocante, marcante, mas não é crocante e gostoso como um pacote de Dorito’s.

Não sei se morrer dói, fisicamente falando, independente de machucados e traumas, mas para quem fica, a morte de quem nos importa dói. Tudo para, sangra imensamente, parece que nunca vai fechar, formar ferida, aquela casquinha fina, que com qualquer coisa faz a crosta abrir de novo e sangrar mais um pouco. Antes de cicatrizar por completo, quando a ferida abre novamente, já não sai mais tanto sangue “vivo”, sai mais plasma, aquela aguinha, sabe? Que não deixa mais você tão apavorado consigo mesmo de ver uma chaga exposta, para que qualquer um a enxergue.

Morrer é coisa séria. Coisa que dói, lacera, deixa a dor fantasma do membro que não existe mais, morrer é tão sério, que a gente só tem chance de morrer uma vez nessa vida! E antes que a morte chegue até nós, prematura ou já vindo com alguns anos de atraso, que aproveitemos melhor nossas pequenas conquistas, vinganças, contas, sofrimentozinhos baratos que temos e que não têm qualquer peso diante da morte.

Nem amor, nem dinheiro, nem desejo, nem amizade. Nada sobrevive a ela, que é a única certeza, que é o clichê que mais gosto de usar, e tirando todo o sofrimento que todos sabemos que ela causa, mas que não deveria, adoro fazer graça dela.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Adoro

Adoro minhas pintas, minha altura e meus seios caídos, como recompensa por amamentar durante um ano e meio uma linda menina; aceito a não-harmonia que existe no todo, porque ela me faz única; gosto dos meus pés magros, dos meus dedos longos, do meu nariz adunco, e dos cabelos bonitos de vez em quando; adoro a assimetria dos meus membros e o fato de eu ser sinistra; adoro as veias que tornam meu corpo grande um mapa com muitos caminhos; adoro minhas muitas cicatrizes, porque me lembram o que já fiz e por onde passei até chegar aqui; adoro a cor da minha pele e o formato dos meus olhos; adoro o estalar dos meus ossos quando ando ou me espreguiço; adoro meus dentes separados e minhas largas ancas; adoro minhas orelhas frias e minha boca costurada; adoro ser um abraço macio e um aperto de mão forte; adoro os pulsos finos e adoro também saber que nenhuma das minhas unhas é igual, ou ainda que meu nariz é torto. Adoro o rubor das minhas faces e a curvatura dos meus cílios; adoro o arquear da minha sobrancelha direita; adoro minha risada extravagante, meu colo e meu olhar.


A beleza está nos olhos de quem vê.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Na rua, por aí, na vida

Acordei com um guardinha me cutucando com o cacetete, ele batia de leve nas minhas costas e dizia: “Vai andando, vagabundo! Lugar de mendigo não é aqui!”. Eu nem olhei pra ele, porque sabe como é, “vagabundo” não tem muita voz, mas eu já fui gente, feito vocês; já tive trabalho, mulher, família...
Às vezes a vida da gente toma um rumo que ninguém sabe porque tomou, e nem culpo Deus porque não foi ele que me deu a bebida na mão. Bebida é uma coisa séria... Lembro que quando eu trabalhava, não ganhava muito, mas pra cachacinha eu sempre tinha um trocado, e quando não tinha, nem esquentava que os amigos da birita pagavam pra mim num dia, e eu pagava pra eles noutro.
O bar ficava perto do trabalho, que não ficava muito longe de casa. De vez em quando a mulher aparecia lá e me enchia de cascudos na frente de todo mundo. Eu amava ela demais, daí nem fazia nada, nunca relei um dedo nela! Deus é testemunha! Mas ela perdeu pra branquinha... que não me dava cascudo, e fazia eu esquecer da vida de merda que eu levava.
A bebida me fez perder o emprego, a mulher, os amigos tudo foram-se embora. O pessoal gosta de cachaceiro que faz social, só no fim de semana, e comigo era todo dia! Toda hora... não tem que agüente isso, mas eu só descobri depois que tinha perdido tudo.
Me afundei de vez quando ela me botou pra fora. Minha finada mãezinha não podia me ajudar; meu pai tava num asilo, porque meus irmãos jogaram ele lá, e se eles jogaram meu pai num asilo, imagina se eles iam pelo menos se dar o trabalho de fazer a mesma coisa comigo?
Filho eu não tive, e agradeço. Viver não é fácil, inda mais com vício, inda mais sem um horizonte pra apreciar... eu não ia querer envergonhar meu filho do jeito que eu me envergonho sozinho. Viver na rua é ainda mais difícil do que só viver. A gente acostuma a pedir esmola, e a gastar o que ganha com cachaça, mas pelo menos eu não uso nada de droga ruim.
A gente aprende a não ligar pra higiene, a mijar em qualquer canto, a pedir banheiro pra lavar o rosto e tomar um banho de gato; a gente aprende a viver só com uma roupa; a dormir no relento, no banco de uma praça, se cobrindo com papelão... daí é que a gente vai ficando invisível pra todo mundo, e com isso a gente não acostuma! Eu sei que eu fedo, mas eu continuo existindo, meu fedor prova isso! Não adianta fechar o vidro do carro ou passar reto na rua, porque eu continuo existindo, e marcando meu território onde eu posso, porque a rua não é de ninguém.
Na rua não tem camaradagem, não! Tem os pilantras que ficam tentando roubar você. Só tive um amigo na rua, o Mequetrefe, era um cachorro que fedia tanto quanto eu, acho que por isso ele veio atrás de mim, uma vez que eu tava passando perto do mercado público, nunca mais a gente se largou. Aquele era amigo! Passava fome junto comigo, e por isso, às vezes eu não tomava uma pra dar uma comida qualquer pra ele. A gente dividia lanche de padaria, resto de comida de restaurante, até lixo a gente comia quando a coisa apertava.
No dia que ele morreu... (pausa)... no dia que ele foi atropelado por um caminhão... (pausa)... eu chorei muito! Ele tava andando no cantinho da rua, mas o caminhão não teve pena! Deu nele, passou por cima do bichinho, ele nem viu nada! Foi direto pro paraíso dos animais, e eu espero que ele teja bem feliz lá, do mesmo jeito que eu espero ir pra lá logo, porque aqui, nós dois somos invisível.
Mas eu acho que eu vou pro inferno, já que eu sou bêbado, vagabundo, larguei a vida boa que Deus tinha me dado, e nunca mais quis voltar pra ela por causa da cachaça... Nem sei se é desculpa minha de medo de olhar pra trás... Começar tudo de novo dá muito trabalho... e a cachaça é tão boa...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O amigo mais perigoso

Quando fomos apresentados pela primeira vez, ele nem era de verdade. Era um cilindro de madeira, coberto com um papel que imitava um cigarro, daqueles com filtro cor de caramelo. Não lembro como apareceu na nossa casa, nem como, tempos depois, ele sumiu, mas a primeira vez que peguei um cigarro, esse, que era de mentira, eu devia ter uns cinco anos.

Eu o levava no microônibus da escola, e o exibia para a minha coleguinha de poltrona, como se o fumasse de verdade, achava o máximo!

Essa é a primeira lembrança que eu tenho sobre cigarros, e sobre o fascínio que eles começaram a exercer sobre mim, e, imagino que sobre muitos dos que fumam hoje.

O curioso é que minha mãe nunca fumou, e meu pai, que eu saiba, fumava, mas depois que eu nasci, ele largara o vício sem recaídas. Não creio que cigarros tenham muito a ver com educação e exemplo, mas com o status que ele pode proporcionar, pelo menos no início, porque depois a relação fica tão íntima, que você e ele tornam-se inseparáveis, e o cigarro vira uma muleta para uma pessoa que não tem qualquer deficiência.

Mais tarde, ainda na infância, com uns dez anos, talvez um pouco mais ou um pouco menos, eu pegava folhas de caderno, dobrava-as, colava suas pontas e queimava-as, como se fosse cigarros acesos. Fazia, então, uns cinco cigarrinhos e fingia fumar na frente do espelho. Nas encenações, sozinha, com meu “cigarro” na mão, eu era sempre mais velha, e geralmente eu era um personagem com problemas emocionais, que fumava sob o pretexto de alguma grande preocupação com alguém que não existia. O cigarro era um elemento de glamour, que me tornava uma mulher mais interessante, mais misteriosa... Isso numa cabecinha de 10 anos.

Quando estava perto de fazer doze anos, uma tia minha que fumava, e que por isso, eu a achava super sofisticada, nos visitou, ficando uns dias conosco, e claro que ela fumava na nossa casa. Quando minha mãe e ela saíam, eu pegava as baganas de cigarro que ficavam no cinzeiro, as acendia, e fumava o filtro, então! Pois não sobrava mais do que meio centímetro de fumo naquilo, e essa provavelmente foi minha primeira experiência com cigarros, ou com o filtro deles.

Com quatorze anos, quando eu ia às boates, eu fumava também. Só por esporte, só para ajudar a manter o ambiente da casa noturna com a névoa típica advinda de gelo seco e cigarros. Era só aos finais de semana, e mesmo assim, muito de vez em quando, porque não era em toda festa de boate que eu podia ir com quatorze anos. Eu fumava porque achava legal, eu sequer sabia tragar... Guardava a fumaça na boca e soltava, era esse o processo.

Aprendi a fumar de fato aos dezesseis anos. Aprendi a tragar, beber, fumar maconha de vez em quando, e aprendi também um monte de coisas – merdas – que a gente faz quando quer fazer parte de um grupo, ser aceito, admirado. Hoje eu sei que o cigarro passava a impressão de que eu era descolada, “prafrentex”, sem limites, sem regras, e afinal, era isso que eu queria que pensassem de mim, e eu consegui.

Hoje eu não faço mais as merdas que fazia na adolescência, mas o meu cigarro ficou, continuou comigo, o cigarro me acalmou inúmeras vezes, fez eu me sentir mais confiante, mais interessante, mais tranqüila. Em resumo, eu pude contar com o cigarro quando eu estava totalmente sozinha, ele me era um alívio, e nunca reclamou de nada.

Fumo mais agora do que no início derradeiro, mas fumo muito menos que bastante gente. Sei que fumar é uma merda, que no fim das contas as únicas coisas que você ganha, além do apelido de chaminé, é um bafão, e roupas e cabelos com cheiro de boate durante a semana inteira, e não só nos finais dela, mas acredito que a culpa não seja do cigarro, e sim nossa, porque somos nós que os fumamos, e não o contrário.

Fumar não é atitude mais esperta que uma pessoa pode ter, isso é certo. Mas é certo também que é uma escolha, assim como todas as outras que fazemos na vida, e como as outras, fumar traz conseqüências. Enfim, continuo fumando, e mesmo sabendo que não é o melhor caminho, odeio gente que vem desfiar sermão sobre quem fuma.

Esse papo de fumante passivo, não polua o ar que eu respiro... Vão todos à merda!

Eu tenho asma, fumo desde os dezesseis anos e estou aí. Não estou dizendo isso como forma de me vangloriar, mas sim de mostrar que eu sei dos riscos, e sei há bastante tempo, e resolvi assumi-los, e isso não é da conta de ninguém. Então, se alguém vier falar sobre coisas que meus pulmões já estão pretos de saber... Caia fora!

Cada um na sua... Tem gente que trepa, tem gente que fuma, tem gente que come, tem gente que chora, tem gente que dorme, tem gente que finge, tem gente que bebe, tem gente que cheira... E tem gente que faz tudo isso ao mesmo, mas não necessariamente na mesma ordem. Tem gente que faz e finge que não faz... E isso é bem pior do que fazer e deixar que todo mundo fique sabendo...

Espero que a minha história sobre o cigarro tenha inspirado os adolescentes a começarem no vício o quanto antes... huauhuahuahua... Brincadeira!

Espero que cada um saiba o que faz, e que de preferência escolha para si o que for melhor, e não acho que o cigarro esteja na lista das boas opções, assim como fazer “merda”, porque fazer “merda” é de uma generalidade que se você fizer muitas, vai lembrar-se delas para sempre!

Chega de sábios conselhos da tia fumante que engravidou com dezoito anos.

Bai bai...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sonho com o pai

Só para registrar, ontem sonhei com meu pai.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

férias?

Acabando de arrumar as coisas para ir para o sítio do Calo e da Adri.
Cinco dias de muita agitação e loucuras em Varginha - aham, que vê, pensa - tah, não haverá loucuras, só o culto à natureza, muita comida, muita vadiagem e vídeos engraçados provavelmente.

Domingo eu volto, para daí ficar maluca com a semana da colação e do aniversário... tô ansiosa porque nunca tinha feito uma festa festa festa, e mesmo sabendo que não vai ser A festa, vai ser muito mais do que eu já fiz em qualquer tempo...

E as pessoas que eu gosto e que são importantes para mim estarão lá, e é isso que me deixa mais feliz! Espero que todo mundo se divirta h-o-r-r-o-r-e-s!!!

É isso, vou acabar de guardar bagulhinhos aleatórios em malinhas...

Para quem fica: até a volta!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

=DDD

A cada dia um pouco mais perto, meu dia!

Vou fazer 25 anos, e penso que sou nova, mas ao mesmo tempo não sou mais uma adolescentezinha, sou uma jovem adulta, com responsabilidades de adulto maduro, hehe, e isso é meio ruim porque tenho a impressão de que quanto mais crescemos, menos podemos mostrar quem realmente somos.

Temos que ter mais maneiras, mais trato com os outros, menos explosões, mais paciência, mais seriedade... isso é um saco! Ser adulto parece querer dizer: não seja espontâneo, não sorria para desconhecidos, não arrote em público, seja educado, demonstre força e responsabilidade, bla bla bla...

Tão bom ser criança!

Mas tudo bem, vamos seguindo porque cada minuto a mais é um minuto a menos...

Feliz porque está praticamente certo que minha colação de grau será no dia do meu aniversário, e isso deve querer dizer alguma coisa boa!

Feliz porque no 2° semestre, passo pra outro nível do meu inglês, tendo ontem, na prova oral recebido elogios do professor, segundo ele eu falo bem, perguntou até se eu estava no livro certo, hehe, fiquei me achando, sem modéstia!

Enfim, feliz!

domingo, 5 de julho de 2009

Medo do bicho-papão?

Eu sempre gostei de filmes de terror, e em grande parte influenciada pelo meu irmão, Felipe. Os filmes de terror sempre exerceram um fascínio enorme sobre mim. O medo que causam, a náusea, o horror. A morte está sempre tão perto, e fazendo parte do ciclo da vida é triste que a vejamos como um fim, como a prova cabal de que somos frágeis e finitos, de que vamos acabar algum dia. Sentir-se vivo, é pra isso que existem os filmes de terror? Para que nos sintamos vivos, para ver que poderíamos ser os próximos, para mostrar o quão doentia pode ser a mente humana, e o quanto de dor ela é capaz de infligir?

Ok, tirando a parte mais drástica e subjetiva, eu nem lembro quando comecei a ver filmes de terror, mas é provável que o primeiro tenha sido Hellraiser, eu tinha 5 ou 6 anos, meu irmão tinha 4 anos a mais que eu, e adorava essas coisas. Eu assisti o filme de gaiata na história, e apesar de hoje, já tê-lo assistido inúmeras vezes, a cena de que me lembro na época, é a do personagem Frank voltando do inferno, sem pele, com todos os músculos e veias à mostra, isso pode ser realmente traumatizante para uma criança, e por um tempo, certamente, foi.

Depois disso, vieram os filmes do Brinquedo Assassino, que me deixavam de cabelos em pé! Ops, acabo de lembrar que antes de Hellraiser, Freddy Krueger já me assombrava, pois assistíamos a sua série no Cinema em Casa, que muito antigamente passava à noite. Eu tinha tanto medo das garras de aço, que sempre que ia sair da cama, não colocava os pés diretamente no chão, eu pulava da cama para o chão, a uma distância relativamente segura, que garantisse que o Freddy não me puxaria para debaixo da cama.

Durante o dia, conseguia olhar olhar debaixo dela, e ver que não havia nada ali, mas à noite, tudo mudava. Eu tinha medo de ficar sozinha no escuro, mas não era um medo histérico, eu não gritava, pelo menos não para fora, mas por dentro milhões de coisinhas sinistras passavam pela minha cabeça, avisando que alguma coisa estranha aconteceria no próximo minuto, mas depois que a vista se acostumava ao breu, e sempre havia uma claridade que me deixava enxergar os contornos dos móveis, eu me aquietava.

Já vi incontáveis filmes de horror, desde os mais "trash" como Palhaços Assassinos do Espaço Sideral, que é um clássico desse gênero até o mais horripilante ever, sem comparações, O Exorcista, que eu também assisti pela primeira vez ainda muito nova, mas que até hoje me causa repulsa e medo, por todo o contexto. Quer dizer, já o assisti umas vinte vezes, já vi seu making of, já assisti a todas as continuações, conheço-o de cabo a rabo, e mesmo assim, de alguma forma ele me apavora, e por isso tenho enorme respeito por esse filme.

Hoje em dia, bem, hoje em dia é difícil eu assistir a algum filme que me apavore. Há bons filmes, com bons sustos, mas nada muito profundo.

É engraçado falar sobre isso enquanto estou sozinha, vou dormir sozinha... Acho que começo a exorcizar meus próprios demônios, porque é como minha mãe sempre disse: não devemos ter medo dos mortos, e sim, dos vivos. São pessoas de carne e osso as que podem nos fazer algum mal. Os mortos descansam, ou não.

sábado, 4 de julho de 2009

Talvez, o último depoimento

Nunca pensei que o rumo de minha vida mudaria tão de repente, e de maneira tão grotesca que nem sei dizer o quanto.

Precisava comprar papel higiênico. O último rolo acabara há pelo menos dois dias, mas evitando os supermercados, estávamos usando o rolo de guardanapos. Então naquele dia de sol repentino no inverno frio, resolvi ir até o mercado.

Entrei no carro, o mesmo CD tocava pela milhonésima vez, mas eu continuava a cantarolá-lo. Até aí, tudo bem. Pensava na vida enquanto dirigia o carro no "automático". Foi quando olhando para as pessoas que passavam pela rua, surgiu um homem de bermuda, segurava uma camisa vermelha no ombro, e andava desengonçado pela calçada, mas não era um desengonçado qualquer, ele andava de forma realmente sinistra, mas isso passou batido - pensei ser somente um bêbado caminhando numa manhã de sábado - até que o tal homem agarrou uma senhora que andava perto dele, e começou a mordê-la! O sangue começara a lhe escorrer do seio, e ela em pânico pedia ajuda. Outros transeuntes vendo a cena bizarra agarraram o homem que conseguiu se esquivar, apesar de sua magreza e aparente fragilidade corporal. O sujeito, então, mordeu igualmente os outros dois homens que tentavam, em vão, apartá-lo da pobre senhora. Era tanto o sangue que escorria e banhava a calçada de perdrinhas brancas, que fiquei realmente chocada!

Mas tudo acontecera muito rápido, isso aconteceu no instante de um sinal fechado, que quando abriu, eu só queria estar longe dali, mas minha curiosidade mórbida, fez com que eu desse a volta na quadra, e quando eu voltei à cena novamente, policiais que caminhavam por ali tentavam conter o homem. Ouvi o barulho de sirenes se aproximando... o homem fora algemado, mas a senhora agonizava no chão sem que muito pudesse ser feito por ela.

Quando a ambulância chegou, deram-na como morta, e os outros dois homens que também haviam sido mordidos pelo sujeito pareciam agressivos. Uma multidão formara-se em volta do circo de horrores. Enquanto moviam a velha numa maca, ela segurou com força o braço do socorrista, numa cena de filme de zumbis, e foi só então que eu percebi que era disso que se tratava tudo: zumbis!

A carnificina estava feita. Muitos gritavam, assustados, e sem entender o que se passava. Outros saíram correndo para não ter que ver como acabaria a história, e eu sou uma dessas pessoas.

Vim para casa, tranquei tudo e liguei a TV. Nos jornais disseram que a tal nova gripe parece sofrer uma mutação que deixa pessoas infectadas por ela violentas e sedentas por sangue e carne humana... e tudo isso aconteceu hoje, aqui no Kobrasol.

Consigo ouvir pessoas gritando pelas ruas, e sirenes incessantes a todo o momento. Sempre quis fazer parte de um filme de zumbis, mas não queria ser eu, um deles.

Estou com medo de sair de casa, mas assim que conseguir suprimentos, vou subir para o salão de festas, e esperar pelo pior. A todos que por ventura aqui aparecem, saibam que o apocalipse está aí na rua, acontecendo nesse exato momento, e eu nunca pensei que viveria para vê-lo.

Adeus...