sábado, 28 de fevereiro de 2009

Karla = Márcia + Carlos

Sou a junção dos dois, do melhor e do pior.
Karla é o resultado, hoje, de 24 anos de experiências múltiplas, felizes, tristes, frustrantes, difíceis, arrependidas, sábias... Karla é o resultado de tudo pelo que passou.
Karla ainda busca sua participação especial nesse mundo. Conta ainda com a idéia de ser chamada para fazer a diferença. Pensa nisso desde a infância, esperando o dia em que alguém fosse olhá-la e estendesse-lhe a mão.
Ainda busca a aprovação do outro para existir.
Espera ser salva e resgatada porque seu pai não estava lá, e sempre foi assim, ele nunca veio, e nunca virá. Nem ele, nem qualquer outro homem.
Um senhor de cabelos brancos e barrigudo, como o seu pai, foi o que sempre esperou. Queria que essa pessoa chegasse e lhe dissesse que tudo estaria resolvido, que ela não deveria se preocupar com mais nada.
Mas no fundo, sempre soube que nada disso existia...

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Les Bibous

Adoraria poder sentir novamente o perfume que marcou minha infância. Não que eu o tenha usado durante toda a meninice, mas aquele foi o melhor cheiro que uma infância poderia ter.
Na cidade em que morávamos, houve um tempo em que os perfumes franceses eram mais baratos do que na maioria dos outros lugares que os vendiam. Adorava aquela loja e todas as fragrâncias que misturadas, ficavam com cheiro de “sofisticação”.
Adorava as pequenas amostras, em pequenos vidrinhos, que longos, pareciam miniaturas de tubos de ensaio...
Acho que tive dois vidros do perfume tão especial. Les Bibous era o nome. Sua cor era âmbar, como a da maioria, o vidro era redondo e fosco, e seu nome era escrito em azul, numa letra cursiva, como aquelas de caderno de ortografia. A tampa era de plástico, no formato de um elefantinho azul, sentado. A caixa também era azul, e tinha elementos circenses desenhados sob um céu lindamente estrelado.
E o cheiro, ah... o cheiro! Não sei descrevê-lo, apenas afirmo que ele me evocava boas lembranças.
O último frasco que tive foi quebrado acidentalmente pelo marido de uma tia, na casa da qual passávamos férias forçadas, já que meio que estávamos “fugindo” de um namorado desequilibrado da minha mãe, na época.
Meu “tio” pediu desculpas. O perfume estava sobre o balcão da pia do banheiro. Ele fora lavar as mãos, e ao estendê-las para secá-las na toalha, esbarraram no perfume, que se espatifou no chão.
O banheiro ficou cheiroso por dias, e eu fiquei sem meu perfume. Restou-me apenas a tampa de elefantinho, que eu sempre cheirava para recordar... durante um bom tempo, o elefantinho serviu como adorno na decoração dos quartos que eu criava para as minhas bonecas. Durante um bom tempo, o pequeno elefante azul me acompanhou, de brincadeira.
Não lembro que fim ele teve, mas seja lá qual tenha sido, arrependo-me. Não deveria nunca tê-lo deixado.
Já procurei em inúmeras lojas de perfumes, em sites na rede, mas nunca mais ouvi falar daquela fragrância. Às vezes, acho que aquele doce perfume só existiu para mim, para me dar algum conforto de sentido. Seu aroma fez com que fases não tão boas não fossem lembradas como fases totalmente ruins.
De vez em quando – e hoje mesmo – andando pelas ruas, passo por alguém que exala o cheiro da minha infância, o cheiro doce das minhas recordações...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Temos algo em comum?

Estive pensando sobre filhos, sobre pais, sobre quem somos. Somos realmente parte uns dos outros. Acho que não pensamos muito a respeito quando somos filhos. As coisas parecem bem naturais, e não haveria de ser diferente, mas quando nos tornamos pais é que percebemos com clareza o poder que temos de viver um pouco mais através dos nossos filhos.
Eles, literalmente, são um pedaço de nós, um pedacinho moldável, cheio de potencial, em quem colocamos muitas expectativas.
Esperamos sempre o melhor para este novo ser, este novo EU, que não sou eu, que se formou de um pequeníssimo pedaço meu, mais o pequeníssimo pedaço de outro.
Outro dia ri sozinha quando a ouvi dizer “mãe”. Grande coisa, já ouvi isso algumas milhares de vezes desde que ela aprendera a falar, e mesmo assim, eu ri, e por um segundo pensei nela, e no que é ter um filho.
Ser pai é finalmente acreditar na vida, na continuidade, e ver nos nosso filhos muitas ações, atitudes, vício e virtudes que vemos em nós mesmos.
O que não gostávamos em nossos pais, esforçamo-nos para que não se cristalize na gente, e por mais que combatamos, sempre carregamos algo deles conosco. Coisas boas e ruins, por vezes escondidas da nossa consciência, na tentativa de negar que carregamos o que mais odiávamos neles.
Um dia as crianças também tentarão se livrar das “amarras” que colocamos nelas sem qualquer má intenção.
Bons pais não têm más intenções para com seus filhos, têm somente amor, e um enorme medo de falhar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

TCC... acabou!!!

Oh Deus...

Acabou, e isso é um alívio imenso!!!

Dias e dias lendo, escrevendo, apagando, mudando... Ontem mesmo passei mal, e estava na frente do computador escrevendo as últimas coisas do "bendito"... saí dali, deitei, e dormi pensando no que não tinha concluído, pensando que uma coisa ou outra, poderia ter sido escrita diferente. Não quero mais olhá-lo criticamente, porque sempre vou encontrar algo que poderia ter ficado melhor, mais profundo.

Enfim, é um filho que está para nascer!

E teremos três parteiras para segurá-lo! (Bau, Ramayana e Alessandra) hehehe

Espero que ele seja bem recebido, pois no final das contas, foi feito com amor! =D

Mais uma etapa pela qual espero passar, e que venham muitas outras!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Isto não é um conto, é escatologia

Talvez influenciada pelo estudo do Naturalismo nas Artes, em especial na literária – não, nada disso, para quê mentir?! – eu tenha optado por falar de hábitos normais que as pessoas têm, mas que preferem esconder de todo mundo. Falo por mim mesma e não sou hipócrita, nem tenho aquela frescurada que a maioria tem, “Ai, que nojo!”, “Meu Deus, como você faz isso na frente de todos?”.
Ora, vamos e venhamos! Vai me dizer que você nunca fez nada disso? Daí me pergunta: “O quê, exatamente?”, e eu respondo:
Diga-me sinceramente se você nunca:
a)     arrotou?
b)    Soltou gases, flatos, peidos, arroubos inesperados da natureza?
c)     Coçou o saco?
d)    Tirou a calcinha da bunda porque ela já estava encostando no seu      “âmago”?
e)     Tirou aquela meleca verde e durinha do nariz, e antes de jogá-la fora, fez uma bolota nojenta e jogou na primeira pessoa que apareceu na sua frente?
Na certa, você vai responder que já fez tudo isso, mas lá, bem escondidinho no banheiro, ou em algum canto isolado em que ninguém pudesse ver, ouvir ou sentir aromas putrefatos que emanam do seu corpinho saudável.
Mas agora é que surge o questionamento que não quer calar, assim como aquele arroto de satisfação depois de um gole de Coca-Cola gelada repleta de gás carbônico: Por que esconder? O ser humano tem necessidades fisiológicas, tem instintos, que em determinadas situações nem a etiqueta consegue conter. E tudo são convenções.
Naturalmente, tudo isso é absolutamente normal. Vai dizer que depois de ficar meia hora sentado no vaso sanitário – lendo revistas, jornais, rótulos de desinfetantes, bulas de remédios, ou fazendo força, ou ainda olhando para as paredes – depois de todo esse esforço descomunal, você quer olhar sua “criação”, e não diga que não faz isso. O fato é que após a evacuação, todo mundo olha para a privada! Não minta! Espessura, cor, tamanho, textura... assim como todo mundo também confere o que saiu no papel higiênico, e só lava as mãos quando vê que ficaram com algum resquício da sua “arte”.
Até aí, tudo bem. Ainda estamos no banheiro, ninguém por perto. Talvez você até aproveite o tempo em que está quase “parindo” sua criação marrom, para tirar uma “caca” do nariz e passá-la na parede. Mas devo dizer, que essa atitude eu condeno com veemência, porque “limpar o salão” é normal, mas grudar suas porcarias na parede é porquice das grossas.
Bom, agora você já saiu do banheiro, mas sente que aquele pratinho modesto de feijão, salada de repolho e batata doce ainda não foi digerido por completo, transformando-o num homem-bomba, prestes a explodir ao mínimo sinal de pressão. A primeira vítima é sua mãe, que ordena que você vá arrumar seu chiqueiro, digo... quarto. Sem pensar duas vezes, surge aquela onda e sua calça fica quente... o gás mais denso que o ar se espalha e sua mãe quase desmaia. Embriagada pela “nhaca” que a intoxica, ela não tem forças para dizer que essa não foi a educação que lhe deu, e você sai. No caminho, encontra seu cachorrinho que também é filho de Deus – mesmo que algumas religiões digam que os pobres animaizinhos não têm alma, eles pelo menos têm mais cérebro do que muita gente que conheço – e está doido para dar uma voltinha pelo quarteirão, para demarcar território e sujar os sapatos dos transeuntes distraídos. Então, ele pula na sua perna e começa a trepar com ela, porque nunca, e olhe que ele já tem sete anos e meio, ele nunca cruzou com uma cadelinha. Você fica puto com o quadrúpede e solta um SPM (silencioso, porém mortal) daqueles! O pobrezinho cai com as patas para cima e você dá uma gargalhada maligna.
Aproveitando que está com super-poderes, não perde a oportunidade de infectar o elevador do seu prédio. Daí já viu, não há Bom-Ar que resolva.
Veja só, parece muito engraçada a situação, mas ela é real. Até dos corpos mais bonitos e torneados, até do corpinho de Barbie da Sandy sai merda. Quando morrermos, iremos todos para um buraco, e os vermes nos comerão sem qualquer distinção. Seja você uma velha morfética desgraçada de feia e flácida, ou o Mister Universo 2006.
Sabe quando você está com aquela calça super, hiper, mega, ultra apertada? Ela é tão apertada que até a celulite desaparece por causa da compressão. Então, imagine você dentro dessa calça 36 quando o seu manequim é 48. Às vezes, veja bem, às vezes, essa calça Boby Blues pode fazer com que sua tanguinha da Victoria´s Secret, idêntica a da Gisele Bündchen adentre seu belo rêgo que é depilado com cera fria de abelhas africanas. Nesse caso, restam duas opções: ou você mete a mão por dentro da calça e tira a maldita calcinha da bunda, isso é claro, se a sua mão conseguir entrar lá. Ou então, você é uma diva! Uma garota bem educada e controlada. Jamais teria uma atitude dessas. O óbvio é que vai esperar as três aulas acabarem, para depois ir ao toillete e fazer o que tem que ser feito, sem o conhecimento de ninguém, mas daí não é necessário ter pressa, pois agora além de ser a mais popular, você também é a mais assada do seu grupo de amigas.
Mudando de gênero...
Se você é homem ou nem tanto, mas possui uma bolsa escrotal cheia de chatos, você coça sua trouxinha produtora de esperma. Tudo bem, a parte dos chatos fica para os que não têm amor-próprio. Todo homem coça o saco, não importa muito de onde veio e a educação que teve, pois ele dá aquela puxada, arruma as “coisas”, sabe? E ainda assim, apesar das convenções sociais, isso é considerado normal. Coisas do sistema fálico como já diria a professora Simone Curi.
Arrotar por exemplo. Meu irmão e eu sempre demos altos arrotos! Nossa mãe odiava, chamava-nos de porcos e se perguntava como poderia ter filhos tão degenerados! (mentira, ela nunca nos chamou de degenerados, é só para aumentar o drama!).
Enfim, também devo dizer que me sinto discriminada na universidade em que estudo. Lá, eu solto arrotos homéricos, graves e tão altos, que até me inspiraram a compor um funk de duplo sentido, “Só dá eco à noite”.
Eu arroto e adoro isso! Se você nunca soltou um arrotaço, la la la, não sabe o que é legal. O mais interessante na verdade, é chocar as pessoas, ver o ar de reprovação delas sobre mim, ainda mais por que sou mulher, para a maioria isso é o fim do mundo! Por favor, somos animais, temos educação e boas maneiras, mas não me considero mal-educada porque a sociedade condena esses pequenos atos, dizendo que são algo sujo.
Sujo é você achar um absurdo quando alguém fala “caralho” ou “puta”, mas na hora da sacanagem, manda seu parceiro pôr o caralho para dentro e chamá-la de puta.
Isso é o que chamo de hipocrisia, já que fazemos coisas muito piores e mais podres do que soltar um peido, dar um arroto, ou quando tiramos meleca do nariz. Portanto, não me constranjo em fazer isso na frente dos outros. Que fique aqui claro que não sou uma pessoa avessa ao mínimo de educação, mas que tudo o que escrevi aqui é real, talvez não tão engraçado, mas é real.
E quem ler pode pensar que o meu conto, que de conto não tem muito, é uma afronta, que é forte, que é escatológico demais, mas essas são atitudes humanas, que podem não agradar a todos, mas que todos têm. É como se não acreditássemos que fazemos isso, porque fazemos de forma tão automática, que quando alguém nos mostra parece feio, de mau gosto. Bobagem!
Usando a máxima dos clichês: “Os incomodados que se mudem”... os que não têm cu, que explodam, e os que não arrotam por cima, hão de peidar por baixo!

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Passeio Noturno

Em uma aula de linguística ou gramática, não lembro ao certo, a professora nos mandou ler dois contos de Rubem Fonseca: Passeio Noturno e Passeio Noturno II. Ambos são ótimos! - para quem gosta de um estilo mais macabro, digamos.
Depois de lidos, deveríamos escrever a nossa versão dos contos, uma espécie de continuação.
E esta é a minha:

Finalmente é sexta-feira, e eu, como bom trabalhador mereço descanso. Mas não aquele descanso em si, falo daquele outro tipo, daquele que me relaxa mais do que uma dose de uísque ou uma massagem nos pés.
Quero relaxar, e lembro que a filial do inferno fica na minha casa. Meus filhos não se lembram da minha existência a menos que precisem de dinheiro - tenho certeza que devem usar drogas ou no mínimo já devem ter participado de alguma orgia -, e minha esposa passa tanto tempo embriagada, dopada com calmantes ou assistindo a novelas irritantes, que creio, não fazemos sexo há pelo menos dois meses, e da última vez, oh céus! Foi como praticar necrofilia, pois a desgraçada está mais frígida do que um bife de vaca em freezer de açougue.
Eu poderia matar toda a minha família, oh sim, eu poderia. Tenho esse direito! Sou o provedor de tudo. Desde as calcinhas rendadas até os remédios de tarja preta que deixam minha mulher como um zumbi. Mas não, como um bom pai, preservando nosso nome e a tradição familiar, somos felizes! Pelo menos é o que acredita quem vê de fora, e o que importa são as aparências.
Mas dizia eu que queria descansar, e chegando em casa, o panorama é o de sempre. Já nem me lembro mais quando foi a última vez em que vi minha mulher com outro traje que não fosse uma camisola. Nem sei mais se meus filhos têm todos os dentes na boca, se não se perderam em alguma briga, ou se minha filha já abortou um filho indesejado, ou se teve uma doença venérea e, por vingança não infectou todos os seus parceiros.
Sou um pai desatualizado da realidade de minhas crianças... crianças... são apenas sanguessugas... algumas pessoas têm cachorros, você tem adoráveis filhos! A felicidade é constante.
Vendo todo aquele ambiente receptivo, a necessidade de relaxar aumenta, e novamente convido minha esposa para dar uma volta de carro, mesmo sabendo que ela não iria comigo nem até a cozinha. Com sua negativa, dou um longo suspiro de alívio, jogo a gravata sobre a cama, troco a roupa usada o dia inteiro por uma bermuda, camiseta e tênis. A noite está agradável, e antes mesmo de sair de casa, já sei para que lado da cidade rumar.
Tiro o carro da garagem, desço para apreciar por um momento o "gatinho' que adorna seu capô, e percebo que há uma pequena mancha de sangue seco da noite anterior. Oh homem! Que descuido! Desse jeito logo seu carro atrairá moscas varejeiras, afoitas por um pedaço de carne pendurado no paralama... realmente um descuido. Apanho dentro do carro uma toalinha, dou-lhe uma cuspidela e esfrego gentilmente sobre a mancha, que logo desaparece e novamente faz a pintura reluzir sob a luz do poste.
Agora sim, pronto para a caçada!
Saio em direção ao sul da cidade, lá as ruas são escuras e ermas. E hoje, estranhamente, apesar de ser véspera de fim de semana, estas ruas estão ainda mais desertas e ainda mais lúgubres, o que a mim só causa excitação, pois quanto maior é a demora em encontrar a presa certa, mais estimulado me sinto a continuar.
Passo por uma, duas, três ruas, até que na quarta surge alguém. Que sorte! Pelo menos era o que parecia, até eu ver a pessoa direito. Como já estava com os faróis apagados, acendo-os e o que vejo me deixa profundamente atordoado. Era uma mulher, andava capenga das duas pernas. Parecia se arrastar constantemente, levava embrulho semelhante ao da mulher que atropelei outro dia, e estava pintada de sangue como ela, depois de ter ido parar no muro. Não! Não! Não! Não pode ser! Eu a matei, não há dúvidas! Consegui até ouvir seus ossos se partindo contra meu carro!
Acelerei, mas não foi em sua direção. Segui reto, acreditando que de lá seguiria para casa e beberia para relaxar, talvez já tivesse ido longe demais, precisava de outras formas de entretenimento. Era isso.
Tentando me controlar - tudo isso é fruto de todo o estresse e pressão que sofro naquela maldita companhia -, vou seguindo até chegar em uma outra região mais movimentada. Lá senti-me mais seguro, não fosse pelo fato de eu olhar para o banco do carona e ver Ângela, isso me fazia crer que logo eu estaria compartilhando os remédios de minha esposa. A maldita piranha estava com a cabeça rachada, sem a mandíbula, braços quebrados como todo o resto do corpo, e ainda por cima pingando sangue no meu banco de couro! Orgulhei-me pela qualidade do serviço, mas também quase urinei nas calças de tanto medo da criatura bizarra, que certamente fora morta por mim ainda ontem!
O pavor aumentou ainda mais quando ela virou-se para mim e com o olho direito quase saindo da órbita, deu uma piscada mórbida e balbuciou que agora era a minha vez. Freei bruscamente no meio da rua, eram 23h27. Desci do carro abruptamente e o ônibus que vinha em direção contrária à pista em que eu estava me levou... Levou-me sem parada para o inferno. O baque foi grande. O torpor tomou conta de mim, mas ainda pude ver que minha cabeça subia e batia no asfalto diversas vezes, pois ficou presa à roda do ônibus, até se esfacelar por completo, e toda minha massa encefálica ficar espalhada pela pista, junto com as minhas vísceras esmagadas e minha pele esticada como um balão estourado em festa de criança.
Parece que amanhã não terei um dia terrível na companhia.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

...

Naquele dia... Tudo estava como antes. Via as marcas secas de copos sobre a mobília, um programa que regride as mentes infantis passava na televisão, a casa ainda estava com resquícios de bagunça e seguramente suja. Não saberia dizer como um apartamento poderia acumular tanta poeira ao ponto de se juntar com os cabelos que caem pelo chão, e com os pêlos que caem da gata formando bolas de pó que andam para lá e para cá quando o vento entra pelas janelas e esfria os cômodos mesmo que o dia lá fora não esteja frio.
O apartamento é frio, estranhamente gelado...
Ela usa grandes sacos de lixo pretos, que permanecem semanas dentro de casa até que comecem a apodrecer as coisas que estão dentro deles. Lixo de banheiro, papel higiênico usado, lixo de cozinha... Como produzimos lixo, lixo, lixo... Para tudo há uma embalagem, e sua vida sedentária acaba ainda mais com o meio ambiente. Mas ela não parece se importar muito, quem se importa?
Para variar, ela está nua, quase nua. Na frente do computador digita suas impressões sobre a manhã. Espreguiça-se e vê os roxos em seus braços, os roxos que Ele deixou. Seu seio direito está apoiado em seu braço direito. Ela sente-se farta do que comeu. Os cabelos estão presos de forma desgrenhada, e os fios que caem sobre sua nuca, roçam-lhe a pele como algodão.
Lembra-se de ter sonhado com livros. Em seu sonho, seus livros estavam desaparecendo. E ao acordar sentiu-se sedenta por lê-los, e recorda-se de que quando mais nova lia com muito mais gosto e motivação. Suas vontades para com o que lhe pode ser de fato proveitoso têm-se mostrado a cada dia menos presentes...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

História da Ana

Minha afinidade com crianças sempre foi perto de zero. Achava que elas eram seres que choravam, faziam birra e só serviam pra atazanar a vida dos adultos. Quando eu era criança, adorava brincar de boneca... fazia quartinhos... e era uma “mãe amiga” dessas bonecas. Adorava-as! Pensava: Quando eu tiver meu filho será assim e assado. No começo queria uma menina... e já tinha idéia de nomes que hoje em nada me agradam. Depois pensei que queria um menino, porque eles são mais fáceis de lidar, não têm tantas frescuras quanto uma menina cheia de laços cor-de-rosa... Mais tarde, decidi que não queria filho algum, pois só me atrapalharia e eu não gosto mesmo de crianças... não tenho jeito com elas, e elas também parecem não ir muito com a minha cara. Certo, filhos eu não teria.
Mas quando de um namoro inconstante e irresponsável veio a notícia de que eu estava grávida... ai ai... tudo, tudo mudou! Minha mãe me deu a notícia pelo telefone – ela foi buscar o resultado do exame: Parabéns Karla! Você acaba de estragar a sua vida!
Eu só tinha 18 anos... e de repente, estava grávida! Era algo inimaginável! Não conseguia acreditar, conceber aquilo na minha cabeça era demais! Não me sentia grávida, parecia uma grande mentira, um sonho... e eu queria muito acordar!
Abortar foi a primeira coisa que me passou pela cabeça, pois eu não me sentia mãe, nem preparada para tudo aquilo. Eu tinha acabado de passar no vestibular de enfermagem da universidade federal, meu namorado era um zero à esquerda, só estávamos juntos há três meses, e o principal, nem ele, nem eu tínhamos condições de ter um bebê. Mais tarde eu percebi que só poderia contar comigo, porque com ele... Bom, o fato é que estou aqui pra relatar a experiência de ser mãe.
A minha mãe e o meu irmão foram terminantemente contra o aborto: Você fez, você assume! Certo... a idéia esvaiu-se no primeiro dia, e logo eu tive que me acostumar a ter uma pessoa bem pequenininha dentro de mim.
Então tive de ir ao médico pra fazer o pré-natal e acompanhar tudo. Ele solicitou vários exames para mim, e outros tantos para o bebê. Aí já começaram os primeiros medos, porque mesmo que você não queira um filho, que você não se sinta apta a criar uma criança, mesmo assim você espera que ela seja saudável. Quando fiz exames para saber se o bebê tinha síndrome de Down e uns outros que não me lembro agora, ficava bastante apreensiva com os resultados.
Quando fiz o primeiro ultra-som, acho que aos quatro meses... nossa, quanta emoção!!! Era de verdade, pequeno, como um grãozinho de feijão com perninhas e bracinhos! E já me sentia um pouco mãe... o pequeno serzinho era nutrido por mim... o meu sangue era o seu sangue... eu era a sua casa... o lugar mais acolhedor por onde ele já havia passado...
Os meses iam passando, e eu engordando... minha barriga, minha pobre barriga encheu-se de estrias medonhas, mas é porque o cantinho do bebê precisava crescer. Eu queria que fosse um menino, e chamar-se-ia João, mas para meu engano, no ultra-som feito no quinto mês e cheio de expectativas, descobri que era uma menina que eu acolhia. O pai então escolheu o nome: Ana, mas minha mãe achava Ana um nome muito simples, deveria ser composto. Então ela tornou-se antes de nascer a quarta geração de Cristinas da família. Depois da minha avó Cristina, minha mãe Márcia Cristina, eu Karla Cristina, ela seria Ana Cristina.
E eu pensava nesses meses: será que ela vai gostar de mim? Será que terei leite? Será que saberei cuidá-la? Será que a amarei? Será que ela terá meus olhos ou os olhos do pai? Ah... foram tantas coisas passando... Acostumei-me com seus chutes e mexidas. Ela costumava chutar minhas costelas... Eu conversava com ela e às vezes chorava de medo de não conseguir. Era tudo surreal...
O enxoval foi feito, era tudo simples. Ela acabou sendo um bebê tão esperado quanto se tivesse sido encomendada pela cegonha. E eu já a amava... Enquanto o tempo passava, eu ia me preocupando cada vez mais com o dia do parto... morria de medo! Medo da dor, medo de morrer, medo de que acontecesse alguma coisa a ela.
No dia em que fui para a maternidade para ganhá-la, ao entrar na sala de trabalho de parto, vi duas mulheres gritando por causa das contrações, e agradeci porque faria uma cesárea. Mas é bem constrangedor: tire suas roupas e vista isso – um avental que te deixa com a bunda de fora. Ok, fiz isso, fiquei um tempinho deitada entre as duas grávidas e suas contrações, enquanto preparavam a sala de cirurgia. Quando me levaram à sala, pensei: fim da linha. É hoje que eu vou morrer, porque a sensação é a de que você está indo para o abate. A sala era fria, e a mesa era estreita. Sentei nela, e uma enfermeira veio a disse que me aplicariam a anestesia, e que eu sentiria uma picada nas costas. Na verdade não doeu nada, foi só uma picadinha mesmo, mas talvez tenha doído e eu não tenha sentido por causa dos nervos.
Deitei, os médicos chegaram. Acho que fora eles havia mais duas ou três pessoas na sala, enfermeiros suponho. Havia um rádio ligado, e o grupo falava de coisas aleatórias.
Fiquei com um dos braços esticado no soro, e comecei a passar mal. Parecia que a anestesia não era só da cintura pra baixo, parecia que meus pulmões estavam anestesiados e eu não conseguia puxar o ar. Colocaram-me no oxigênio, e eu não dormi, mas parecia bêbada. Uma hora olhei para as luzes, e elas refletiam minha barriga aberta, e muito sangue! Eu não sentia nada, absolutamente nada, então fiquei olhando para o lado, e esperando que acabasse logo, e acabou. Deve ter durado uma meia hora. Então ela veio, mostraram-me a Ana. Coberta de sebo, sangue, meio roxinha, meio amassada, eu a olhei e tive o desplante de dizer: Nossa, como ela é feia!
Que belo primeiro comentário sobre a filha, hein! Arrependo-me até hoje. Levaram-na, e eu dormi. Lembro-me de estar na sala de recuperação e de depois ser levada para o quarto. Quando acordei, começaram as dores... a anestesia estava passando e tudo formigava. Queria fazer xixi, mas como não podia levantar, colocaram em baixo de mim um daqueles penicos de hospital. A dor era imensa, não conseguia sequer me virar na cama. Então trouxeram-na. Embrulhadinha num cueiro de coelhinhos, com a carinha ainda amassada e arranhada por suas unhas compridas que não deveriam ser cortadas ainda. Ela parecia cansada da viagem que fizera, mas tinha fome. Meus seios estavam bem cheios, mas precisavam ser massageados para que o leite saísse, já que a pequena ainda não tinha a prática de sugar. Logo na primeira tentativa, ela já conseguiu alguma coisa, não o suficiente para satisfazê-la, mas estávamos nos conhecendo.
Logo na primeira noite, ela já ficou comigo no quarto, e dormiu num daqueles bercinhos que mais parecem gaiolas para crianças. Durante toda a noite, a cada duas ou três horas, ela chorava para mamar. E como eu tive leite! Ainda bem! No outro dia, levaram-na para tomar banho, e depois a trouxeram para mamar. Eu estava apaixonada por ela. Ana era linda, tinha olhinhos tão azuis que pareciam cinza. Era incrível acreditar que aquela menina tão linda havia saído de dentro de mim, de mim! Ela é um pedaço de mim, é minha continuação... meu legado... e isso não é nada perto da emoção de saber que ela existe, e que ainda, é minha... 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Confidência

Quando vejo minhas fotos antigas ou recentes, em todas percebo um semblante muito parecido. Tirando as poucas em que eu rio, na maior parte delas eu tenho uma cara emburrada, ou um olhar triste... pareço sempre distante, distraída.
Vejo-me nelas e penso: por que eu estava com essa cara? Talvez não fosse por nada... é provável que tudo estivesse bem, mas ainda sim eu sinto, lá bem no fundo que eu sou uma daquelas pessoas infelizes... daquelas que não encontraram o seu lugar, porque elas simplesmente não fazem parte de lugar algum.
É claro que eu gozo em alguns momentos, mas são momentos... cada vez mais percebo que minha essência é triste e solitária. Prefiro ficar sozinha, em silêncio. Gosto de cantar, de ouvir minha voz desafinada... Às vezes tenho uma overdose de solidão, e requisito os amigos, que são tão poucos a ponto de contá-los em uma só mão e ainda me restarem dedos...
Parece egoísta dizer que requisito meus amigos, como se quando eu não precisasse deles, dispensasse-os, mas é porque esse é meu ritmo. As pessoas que me cercam fazem parte da minha vida, e eu da vida delas, e nem por isso ficamos umas em função das outras. Quer dizer, por vezes ficamos, mas uma mão lava a outra, e por isso somos amigos.
O caso é que apesar de ter uma vida estável, ainda não consegui me decifrar, mas há quem ache que conhece tudo a meu respeito. Dentro de mim há um enorme abismo, de coisas sobre as quais eu não gosto de falar, há planos e projetos que não me sinto capaz de realizar, sinto-me freqüentemente deslocada, pensando que EU não faço parte da realidade assim como os outros.
Ao mesmo tempo em que não me preocupo, procuro aprovação, mas acho que na verdade é minha própria aprovação que busco. Aquela que vem da minha consciência e que diz: Isso Karla, você está no caminho certo, não dê atenção ao que nada lhe acrescenta. Vá em frente, você pode!
Infelizmente minha alma milenar ainda não consegue ser tão independente, pelo menos nessa vida. Mas quem sabe com algum trabalho, eu consiga me tornar um pouco mais “alegre”, mas não para os outros, porque para os outros eu até sou extravagante, mas para mim mesma, para o meu “deleite pessoal”, um dia espero poder dizer que apesar dos revezes que acontecem dentro de mim, e não na minha vida em si, eu consiga manter o equilíbrio e não me deixe cair muito abaixo de onde as pessoas pisam.
E sei bem o que a falta de equilíbrio me causa... Tudo fica muito escuro... assim, de um dia para o outro, você olha para o lado e todos os sentidos construídos por você se foram. Você não tem idéia de onde possam estar nesse momento, mas o Escuro parece tão confortável... ele não exige nada de você, nada. Apenas entregue-se...
Mas hoje em dia, até que há uma lâmpada fluorescente na minha vida. É certo que de vez em quando ela dá umas piscadelas, mas não voltou a se apagar, então no futuro espero não sentir culpa pelo que não é minha culpa, e espero também me amar mais e me desfazer do que sei que não me traz nada. Porque a vida é feita de trocas, de relações de interesse mesmo que inconscientemente, mas continuamos a nos agredir todos os dias aceitando situações que nenhum bem nos fazem, que nada nos trazem de bom, e esquecemos de ser egoístas quando o melhor a fazer seria sê-lo.
A partir de agora, serei egoísta e não me violentarei mais insistindo no que não me diz respeito, é bom relacionar-se com pessoas com as quais a gente ria, em quem se confie, converse, planeje, chore, aconselhe, acalente, abrace, comemore... Enfim, que haja um elo de compreensão, e que desejemos ao outro tudo o que de melhor queremos a nós mesmos.

Escrito em: 11/07/07

domingo, 18 de janeiro de 2009

Das unhas roídas

Olhei para o lado e percebi que a pequena dormia. A boca estava brilhante de manteiga de cacau, que ela pedira a mim que passasse para que seus lábios frágeis de criança não ficassem rachados. Engraçado como uma pessoinha tão pequena poderia ser voluntariosa e cheia de argumentos...
De repente, ela suspira e vira-se na cama. Pousa a pequenina mão sobre o meu seio, e mais uma vez percebo que não adiantaram as conversas sobre parar de roer as unhas, porque Ana está com os dedinhos... ah, os dedinhos, as unhas foram tão roídas pelo hábito que eu não saberia explicar de onde surgiu, que parece até que a criança de nariz arrebitado passa por muitas situações estressantes.
Então, lembro-me de passar novamente nos tocos de unha aquela base com o cheiro de esmalte que sempre me agradou, mas com o sabor de fel que espero, mude o comprimento das unhas de minha filha.
E há de ser nessa hora, enquanto escrevo, enquanto ela dorme... pois depois de passá-la pela primeira vez, e sentir o amargo na boca, era só eu falar em pintar as unhas que a pequena fazia cara de choro e dizia que não mais iria roê-las.
Enquanto ela espalha-se pela cama, e fala dormindo: “Eu tenho certeza...”, ronca aquele ronco gostoso de criança... eu procuro pelo esmalte para passá-lo.
No vidrinho lê-se: Inibidor do hábito de roer unhas. Mas isso não deveria ser um hábito...
Pego suas mãozinhas e começo a passar-lhes a base... ela com os olhos não totalmente cerrados, ronca... passo em todos os dedinhos, sem muito jeito. E aguardo os resultados. Amanhã verei Ana fazer cara feia quando puser as mãos na boca.

Escrito em: 11/07/07

sábado, 17 de janeiro de 2009

Para começar...

Quando eu era pequena, queria morrer queimada. Na minha cabeça de criança, morrer queimada era o melhor, pois enquanto o corpo ardesse, eu viveria por mais alguns momentos. Mas nunca, na infância, me dei conta de que os momentos a mais em vida corresponderiam a agonia e desespero. Hoje, quero morrer dormindo.