sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Das surras que levei

Quando era pequena e ainda na adolescência, eu apanhei. E não estou aqui pra me queixar disso. Acredito na conversa entre pais e filhos, mas também acredito na palmada corretiva. Isso não quer dizer que eu seja a favor de crianças espancadas e traumatizadas. Lembro de várias ocasiões em que apanhei ou que levei um corretivo.

Meu pai me chamava de manteiga derretida porque eu chorava por tudo. Ele foi bem filho da puta comigo quando, uma vez, eu não tinha mais do que três anos e, porque estava chorando, ele me jogou um balde de água fria, literalmente. O que uma criança faz numa hora dessas? Chora mais, é claro.

Traumatizada, acho que não fiquei, mas que durante muito tempo da infância eu chorava sempre que brigavam comigo ou que eu ficava nervosa ou brava, eu chorava. Mas não tenho raiva dele por isso, até porque essa é a única lembrança que tenho de algo que ele tenha feito comigo, e ele era um espírito de porco inegável, então...

Da minha mãe, apanhei umas tantas vezes. A primeira vez que me lembro foi quando eu, meu irmão e minhas duas primas, saímos de casa à noite, escondidos, de pijamas e fomos a um parquinho que estava instalado perto do prédio em que morávamos. Eu devia ter uns cinco anos. Quando voltamos pra casa, minha mãe bateu na gente com um cabide. Trauma? Nenhum. Lembro disso achando graça. Tínhamos aprontado e de resposta, ganhamos umas cabidadas na bunda.

Um pouco mais velhos, meu irmão e eu apanhávamos quando demorávamos muito no banho. Lá vinha minha mãe com o chinelo pra nos bater. Com o corpo molhado, não havia como não arder. A gente tentava escapar e levava chineladas nas mãos; a gente ria, ela ria também e ficava ainda mais irritada, perdia a moral.

Várias vezes elas nos xingou de filhos da puta, e eu adorava! Retrucava, porque a puta era ela. Ria e saía correndo pela casa, e ela atrás de mim e do meu irmão.

Lembro que uma vez eu estava discutindo com ela, e ela irritada comigo, jogou em mim uma bolsa que tinha, com um zíper enorme e grosso. O zíper bateu no meu rosto e fiquei com o vergão daquela merda na cara.

Meu irmão e eu também tínhamos brigas homéricas e eu, obviamente, mais apanhava do que batia, mas nunca deixei barato. Tinha as unhas compridas basicamente pra me defender dele. Ele me batia, e eu cravava as unhas nos braços dele. Ele vivia arranhado. Nessas brigas de irmão, eu já bati nele com uma barra de ferro e ele já me deu um chute na boca do estômago, que achei que iria morrer.

Coisa de "criança". Éramos violentos um com o outro e em várias épocas da minha vida, eu o odiei, queria mesmo que ele morresse, mas ele não morreu, ainda bem, porque hoje temos uma relação muito afetuosa, apesar dos nomes chulos pelos quais nos chamamos.

Eu apanhei, bati, levei algumas boas surras e carrego isso com tranquilidade, mas duas coisas me machucaram de verdade. Uma foi a surra sem motivo que levei quando estava na sétima série.

Foi em uma tarde em que eu tinha algo pra fazer na escola e havia combinado com a minha mãe que se não chovesse - porque o dia estava meio num chove-não-chove -, eu iria pra casa de ônibus, mas se chovesse, ela viria me buscar. Beleza, eu fiz o que tinha de fazer, não estava chovendo, e saí da escola com um colega de sala, que morava ali perto. Ele foi pra casa dele e eu peguei o meu ônibus.

Quando desci, na esquina da minha casa, já vi o meu irmão vindo na minha direção, avisando que eu "estava fodida", e eu não entendi nada. Entrei em casa e começou a merda toda. Tudo aconteceu porque quando saí da escola, não estava chovendo, mas onde eu morava estava, e minha mãe saiu pra me buscar. Chegou na escola, eu não estava lá; ela perguntou por mim para o porteiro e ele disse a ela que eu tinha saído de lá com um menino. Pronto. Nisso, ela me tirou pra putinha e achou que eu tinha ido dar pro guri.

Levei uma baita surra, totalmente injustificada. O que mais me magoou nisso tudo foi o fato de eu sequer poder falar, de não poder explicar que nada tinha havido. A ideia de que eu era uma vagabunda já estava formada na cabeça dela, e eu não pude fazer nada. Chorei, morri de raiva e guardei isso comigo.

A segunda surra que eu levei foi uma em que nem um tapa houve, quatro anos atrás, já depois de adulta. Nessa surra, ouvi coisas da minha mãe que nem o Diabo em pessoa falaria pra Hitler, seu filho. Nessa surra, eu vi os seus olhos faíscarem de um ódio tão imenso e débil contra mim, que achei que ela era o próprio mal. Ela proferia palavras e rogava pragas como se estivesse possuída, e eu só conseguia tremer, chorar e me encolher dentro de mim mesma, achando que não merecia ouvir o que ouvi dela. Nesse dia, em que ela não encostou um dedo em mim, foi o dia em que me senti mais espancada, ensanguentada, incapaz de mover os olhos de tanta dor. Foi um dos piores dias da minha vida.

Um comentário:

  1. Interessante, engraçada e por último triste sua história. Minha mãe também não me batia, mas humilhava igual a sua vez com você na última surra. Você é uma moça linda e pelo que li, deve ser uma pessoa maravilhosa. Não guarde nenhum rancor com você, não vale a pena. Por mais bobagens que sua mãe vale em momento de fúria, tenho certeza que ela te ama acima da própria vida dela e que morreria por você. Seja muito feliz e DEUS a abençoe sempre.

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